7 de junho de 2020

A DUBLAGEM DO FILME "A NAU DOS INSENSATOS"



No começo dos anos sessenta, a escritora americana Katherine Anne Porter retomou essa concepção lendária, lhe inventou forma ficcional, e não se incomodou de dar a seu romance justamente este título “Ship of Fools”, que narra a viagem de um navio alemão que sai de Vera Cruz, México, com destino a Bremerhaven, Alemanha, num tempo – 1933 – em que o nazismo começava a botar suas feias garras de fora.
Uma condessa viciada em drogas, um médico de saúde fraca, um senhor grosseiro que defende ideias racistas, um judeu ingênuo que acha que ninguém vai magoar sua raça, um pintor frustrado, um jogador de baseball estabanado, um gigolô que camufla a profissão com coreografia, uma divorciada que amarga a solidão, um anão debochado… e, no subsolo, toda uma população de miseráveis que estão indo para um destino incerto como mão de obra barata. Tais são os personagens do romance, cada um com seu drama e sua história própria.

*Michael Dunn*
O livro de Porter fez tanto sucesso que o produtor e diretor Stanley Kramer resolveu levá-lo às telas, e em 1965, o filme “A nau dos insensatos” (“Ship of fools”) estreou no mundo todo, concorrendo ao Oscar com sete indicações, das quais levou duas: melhor fotografia (Ernest Laszlo) e melhor direção de arte.
No filme, é o anão Glocken (Michael Dunn) quem faz a narração mais ou menos onisciente. Dirigida à câmera, sua primeira fala tem valor de alerta: “Meu nome é Karl Glocken e este é um navio de loucos” – nos diz ele. E depois de mencionar alguns dos passageiros e suas características mais visíveis, acrescenta: “E, quem sabe, se você olhar bem de perto, pode até ver você mesmo a bordo”.

*Simone Signoret e Oskar Werner*
O enredo é difícil de resumir, pelo simples fato de o filme ser um painel narrativo. Como no romance, cada personagem vive uma situação particular que só acidentalmente tem a ver com as dos outros passageiros. Por exemplo, a coroa sulista feita por Vivien Leigh pouco tem a ver com o jogador de baseball feito por Lee Marvin, e, se se tocam, é porque estão forçosamente no mesmo ambiente.
O caso mais amarrado do ponto de vista narrativo – e provavelmente com mais "tempo de tela" – é do Dr Schumann (Oskar Werner) e a Condessa viciada em entorpecentes (Simone Signoret): no processo do atendimento médico, os dois vão se envolvendo até, formarem, embora casados, um par amoroso. Sintomaticamente, são os dois únicos cujos destinos ficam divisados na chegada à Alemanha – ela, como diegeticamente previsto, levada à prisão; ele, como diegeticamente provável, morto.

*Lee Marvin e Vivien Leigh*
Embora os problemas que afetem os personagens variem (da mocinha virgem que quer liberdade, ao rapaz que agride o pai paraplégico para pagar uma garota de programa), há, sim, uma temática subliminar que perpassa a viagem – a ascensão do nazismo, tanto mais grave pelo fato de a destinação do navio ser justamente a Alemanha de Hitler.
Talvez o espectador de hoje venha a estranhar o modo como os personagens desafogam os seus problemas privados uns aos outros, com uma franqueza pouco plausível, já que se trata de desconhecidos. Aquela mocinha chorosa, no convés, desabafando suas mágoas a um senhor, conhecido só de vista, é um exemplo que vem ao caso. A impressão – se não a justificativa – é que o filme é curto para o número de casos, e, assim, não teria havido o tempo necessário para o desenvolvimento dos vários relacionamentos.

Dr. Schumann, médico do navio, que está acometido de uma doença cardíaca fatal, vigia a Condessa, uma nobre espanhola viciada em drogas que está sendo enviada para uma prisão sob a acusação de agitação por reformas sociais. Os dois terminam se apaixonando.

 Bill Tenny, um ex-jogador de beisebol, sente que sua vida transformou-se num imenso fracasso.
 David e Jenny, um casal de jovens solteiros americanos briga porque David, um pintor, sente-se infeliz por viver à custa dos rendimentos da esposa. 
A Sra. Treadwell, uma mulher divorciada de uns 50 anos, flerta e bebe numa tentativa desesperada para esquecer sua solidão. 
Graf, um evangelista, provoca uma revolta entre os trabalhadores, quando ele prega.
 Um sobrinho de Graf, Johann, tem um breve caso com uma jovem prostituta que está viajando com um grupo de dança espanhola liderado por seu cafetão, Pepe.
 Jenny consola Elsa, uma jovem suíça que se desespera por nunca ter sido vista como atraente.
*Vivien Leigh e Alf Kjellin*

Partindo de um belo trabalho realizado pelo roteirista Abby Mann, Kramer mais uma vez nos mostra porque é considerado um dos maiores diretores do cinema americano.
 Como resultado, “A Nau dos Insensatos” recebeu oito indicações ao Oscar, inclusive a de melhor filme, das quais duas foram agraciadas com a cobiçada estatueta.
 Na categoria de melhor filme, concorrendo com outras produções de peso, como por exemplo, “Doutor Jivago”, o grande vencedor foi “A Noviça Rebelde”, de Robert Wise.



**ELENCO PRINCIPAL / DUBLADORES**


*Vivien Leigh (Mary Treadwell): Judy Teixeira*

*Lee Marvin (Bill Tenny): Turíbio Ruiz*

*Oskar Werner (Doutor Wilhelm Schumann):
 João Paulo Ramalho*

*Simone Signoret (Condessa): Helena Samara*

*José Ferrer (Siegfried Riber): Mário Jorge Montini*

*Michael Dunn (Karl Gloken): Silvio Matos*

*George Segal (David): Sérgio Galvão*

*Alf  Kjellin (Freytag): Hugo de Aquino Júnior*


*Elizabeth Ashley (Jenny):
 Áurea Maria*

*Charles Korvin (Capitão Thiele): João Ângelo*

*Heinz Rühmann (Julius Lowenthal): Eleu Salvador*

*Christiane Schmidtmer (Lizzi Spokentidler):
 Sandra Campos*

*Olga Fabian (Frau Schmitt): Noely Mendes*

*Gila Golan (Elsa): Aliomar de Matos*

*Oscar Beregi Jr. (Lutz): Waldyr Guedes*

*José Greco (Pepe): Francisco José*

*Stanley Adams (Hutten): Xandó Batista*

*Charles De Vries (Johann): Marcelo Gastaldi*

*Henry Calvin (Gordo): José Soares*

*Narração de abertura: Carlos Alberto Vaccari*

* Há ainda as vozes de José de Freitas e Mara Duval*

**A DUBLAGEM DA AIC**

A dublagem realizada faz parte do segundo período áureo da AIC (1968-1971), e foram escalados dubladores de alta competência para um filme com uma temática complexa e interpretações bem acentuadas dos atores.

De imediato, temos Sílvio Matos dublando o ator Michael Dunn, sendo uma espécie de observador de todos os passageiros. De uma forma tranquila e serena houve  uma justaposição perfeita entre personagem/dublador.

Há ainda João Paulo Ramalho dublando o médico, mais uma extraordinária dublagem, demonstrando um conflito interior somente com a sua interpretação com a voz.

Apesar de uma participação pequena do ator, Hugo de Aquino Júnior nos brinda com a dublagem de um personagem, o qual sofre pelo preconceito de ter sido casado com uma judia. Uma dublagem que demonstra revolta e introspectiva.


*Dublado por Hugo de Aquino Júnior*

A veterana atriz Vivien Leigh, uma condessa amargurada, é dublada por Judy Teixeira que dá o tom , com perfeição, do seu dissabor com a vida que teve. Uma voz suave demonstrando uma grande carga emocional.

Positivamente, a dublagem de A Nau dos Insensatos é riquíssima de grandes trabalhos dos profissionais da voz, entretanto, a dublagem da atriz Simone Signoret por Helena Samara é algo que nos surpreende. 
Uma mulher angustiada, que sofre pelo passado, porém ao mesmo tempo encontra uma nova razão em sua vida com o amor ao médico Dr. Wilhem Schumaan.
Helena Samara captou, exemplarmente, a impotência da personagem diante da sua vida, todo o seu sofrimento, proporcionando-nos uma tonalidade de voz, poucas vezes ouvidas em suas dublagens na AIC. 
A personagem ganha uma dimensão tão grande, que acabamos torcendo para qe ela termine feliz, o que não ocorre.
Uma das melhores dublagens de Helena Samara em sua carreira, que demonstrou a grande atriz em dublagem que sempre fora.



Podemos destacar as esplêndidas participações de Eleu Salvador, Sérgio Galvão, Áurea Maria, Turíbio Ruiz e mesmo dos demais que tiveram personagens, que pouco participam da narrativa, como Sandra Campos, João Ângelo, Aliomar de Matos, Noely Mendes, Francisco José, Xandó Batista, Marcelo Gastaldi, José Soares, José de Freitas e a pequena participação da radioatriz, Mara Duval, em pequenos diálogos.



A dublagem acompanha integralmente à atmosfera concebida no filme e, sem dúvida, é mais um trabalho magistral da AIC.

Infelizmente, a dublagem perdeu alguns minutos e, devido a isso, foi banida inclusive da TV a cabo, sendo somente exibido o filme com legendas.
Para os fãs das dublagens da AIC, poderão encontrar no site Tela de Cinema, algo que , certamente, não existe mais na dublagem brasileira.


**REVENDO TRECHOS DA DUBLAGEM AIC**

*VÍDEO 1*
*Abertura de Carlos Alberto Vaccari e Sílvio Matos na introdução ao filme*

*VÍDEO 2*
*Helena Samara e João Paulo Ramalho*

*VÍDEO 3*
*Hugo de Aquino Júnior, Eleu Salvador, Sílvio Matos e Mário Jorge Montini*


*VÍDEO 4*
*Noely Mendes, Hugo de Aquino Júnior, Eleu Salvador e Sílvio Matos**

*VÍDEO 5*
*João Ângelo, João Paulo Ramalho, Judy Teixeira e Turíbio Ruiz**

*VÍDEO 6*
*Helena Samara, João Paulo Ramalho e João Ângelo*

**Fonte de pesquisa:
*Site 75 anos de Cinema*
*Site Tela de Cinema*
*Arquivo Pessoal*


*Marco Antônio dos Santos*

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