24 de março de 2016

A DUBLAGEM DO FILME "O ÚLTIMO PÔR-DO-SOL"

Ainda sob pseudônimos, são de Dalton Trumbo os roteiros dos faroestes “Como Nasce um Bravo” (Cowboy), de Delmer Daves, com Glenn Ford; “O Caçador de Fronteira” (The Deerslayer), de Kurt Neumann, com Lex Barker; “Reinado de Terror” (Terror in a Texas Town), de Joseph Lewis, com Sterling Hayden. Kirk Douglas se tornara um dos homens mais poderosos do cinema norte-americano e encomendou novo roteiro a Trumbo, desta vez baseado na história “Sundown at Crazy Horse”, de autoria de Howard Rigsby, um faroeste que se chamou “O Último Pôr-do-Sol” (The Last Sunset).


 O filme de Robert Aldrich conta a história de Brendan O’Malley (Kirk Douglas), personagem estranho que se dirige para o México para reencontrar Belle (Dorothy Malone), mulher com quem teve um relacionamento há quase 20 anos. Belle agora é esposa do rancheiro- pecuarista John Beckenridge (Joseph Cotten), padrasto de Melissa (Missy), filha de Belle. O solitário O’Malley é seguido por Dana Stribling (Rock Hudson), xerife de uma cidade texana que quer prendê-lo por haver assassinado o cunhado de Stribling.

 O’Malley tenta se envolver com Belle e para isso pede o consentimento do marido dela, John Beckenridge, mas é rejeitado por Belle. Stribling e O’Malley são contratados por Beckenridge para levar seu gado até o Texas. A prisão de O’Malley é então adiada por Stribling. John Beckenridge é morto numa discussão numa cantina no México e Stribling acaba se apaixonando por Belle. Por sua vez, Melissa se apaixona por O’Malley, envolvendo-se com ele. Desesperada Belle conta a O’Malley que Melissa é sua filha e que a relação deles é incestuosa. Após o gado ser levado a seu destino O’Malley se defronta com Stribling num duelo suicida.



Vladimir Nabokov havia chocado o mundo com seu romance “Lolita”, lançado em Francês em 1955 e com versão autorizada para o Inglês somente em 1958. Nabokov mudou o universo da Literatura e certamente influenciou outros autores. O romance de Nabokov somente chegaria ao cinema em 1962 pelas mãos de Stanley Kubrik, abordando o tema da pedofilia. Antes disso, porém, Dalton Trumbo passou perto dessa questão com o personagem ‘Missy’, de apenas 16 anos e pela primeira vez abordou num faroeste o tema de incesto.

 Mas não é isso que faz de “O Último Pôr-do-Sol” um dos mais extraordinários roteiros já escritos para um western. Além dessa delicada questão o roteiro de Trumbo é um tenso melodrama digno daqueles que Douglas Sirk dirigiu para a Universal Pictures tendo Rock Hudson como ator principal. Mesmo com a ação se passando em cenários abertos, os personagens principais (Stribling, Belle, O’Malley e Melissa) parecem viver num ambiente claustrofóbico no qual incessantemente expõem as paixões que afloram, bem como o ciúme e o visceral antagonismo. O’Malley é o centro motivador de todas as reações culminando com a juvenil paixão que desperta em Missy (Melissa) e os momentos que passa com ela. O’Malley, homem, aparentemente sem princípios, é tomado repentinamente de dilacerante arrependimento com a descoberta de ser o pai da jovem. E vê apenas na própria morte a solução da tragédia em que se deixou envolver. Mais até que um sensível melodrama, “O Último Pôr-do-Sol” se aproxima das grandes tragédias gregas como nenhum outro western ainda o havia feito. 




Mesmo que o roteiro de Dalton Trumbo não fosse tão rico em nuances psicológicas, “O Último Pôr-do-Sol” é um belo faroeste, com bom ritmo entremeando os muitos diálogos com ótimas cenas de ação. As sequências de condução do gado durante uma tempestade são excelentemente dirigidas por Aldrich e fotografadas pelo húngaro Ernest Lazlo, assim como o duelo final entre O’Malley e Stribling, com tomadas de diversos ângulos e montagem nervosa que aumenta a emoção. Esses aspectos técnicos emolduram os diálogos brilhantes escritos por Trumbo, especialmente nas falas poético-filosóficas ou cínico-jocosas de O’Malley.

 Kirk Douglas faz praticamente todas suas cenas, dispensando o uso de doublês, exceto na cena em que com animal violência segura um cão que está prestes a avançar sobre ele. E Rock Hudson é dublado em algumas cenas por Chuck Roberson como na sequência em que durante a luta com O’Malley cai sobre uma fogueira ficando com o colete em chamas. O cuidado de Trumbo com o realismo da vida dos cowboys leva o espectador a tomar conhecimento de situações inusitadas nos faroestes como a vaca ter as patas amarradas enquanto é ordenhada por Regis Toomey e Rock Hudson fazendo com que um bezerro recém-nascido adote Carol Linley como sua ‘mãe’. Carol Linley usando pela primeira vez o vestido amarelo que pertenceu a sua mãe e descalça por não haver ali um sapato adequado, enquanto Kirk Douglas canta a bela canção “Pretty Little Girl in the Yellow Dress”, de Dimitri Tiomkin e Ned Washington. 





 Capítulo à parte em “O Último Pôr-do-Sol” é Dorothy Malone, cuja sensualidade foi excepcionalmente aproveitada por Aldrich. Maravilhosa, sedutora e irresistível atriz, Dorothy, aos 35 anos, espalha sua voluptuosidade em cada cena que participa. Dorothy não era uma atriz de grande talento dramático mas é um dos pontos altos deste western. O contraponto quase perfeito à lascividade de Dorothy é a presença angelical de Carol Linley, então com 20 anos durante as filmagens. A melhor interpretação do elenco de “O Último Pôr-do-Sol” ficou por conta de Joseph Cotten, como o amoral marido de Dorothy Malone. Seu desempenho na sequência em que é provocado por dois sulistas numa cantina é antológica dentro de uma carreira repleta de grandes atuações, carreira iniciada 20 anos antes em “Cidadão Kane”.

 “O Último Pôr-do-Sol” é um roteiro de qualidade quase incomparável para um western e ainda assim Aldrich não conseguiu fazer de “O Último Pôr-do-Sol” uma obraprima, mesmo que possa ser considerado um faroeste clássico pela temática complexa e bem desenvolvida. 





**A DUBLAGEM DA AIC**


"O Último Pôr-do-Sol" já foi lançado em dvd, entretanto, mais uma vez a distribuidora o lançou somente legendado.

Em novembro de 2014, a TV Cultura de São Paulo o exibiu com a dublagem original.
Há pequenos trechos que apresentam um pouco de ruído ou "chiado", o que poderia ter sido facilmente restaurado, mas não há interesse das distribuidoras, a fim de obterem o menor custo e o maior lucro.

A dublagem foi realizada entre o final de 1968 e o início de 1969, segundo Dráusio de Oliveira, o qual também dirigiu a dublagem.


João Paulo Ramalho, que já havia dublado o ator Kirk Douglas no filme  Ulisses, absorve totalmente a interpretação do ator e a aprimora extraordinariamente.

Essa sincronia ator/dublador o traria, posteriormente, para a inesquecível dublagem de "Spartacus", já por volta de 1970/71.



Sem dúvida alguma, a voz pausada, a interpretação, nos deixam maravilhados como foi tão bem realizada a dublagem. Ainda é bom lembrar que, a voz de João Paulo Ramalho, possuía um tom perfeito para Kirk Douglas, se adequando melhor do que a voz original do ator para os seus personagens complexos.

Enfim, essa integração tão perfeita é muito comum nas dublagens da AIC que ainda sobreviveram, como de diversos outros estúdios que também já encerraram as suas atividades. 


Dráusio de Oliveira dubla Rock Hudson, que já o havia dublado em outras oportunidades, e aí temos dois fantásticos dubladores em contraponto, conforme os seus personagens.


Dorothy Malone é dublada por Helena Samara, a qual realiza mais um trabalho magnífico para a seu rol de dublagens primorosas.




Beatriz Facker, uma dubladora que não fez muitos trabalhos na AIC, mas que deixou a marca da qualidade, foi a escolhida para dublar a atriz Carol Linley.

Beatriz Facker ficou mais conhecida por dublar a personagem Teresa na série Lancer e alguns desenhos de Walter Lantz, além ainda de pequenas participações nas dublagens de séries do início da década de 1970.

Dona de uma voz bem suave, mas com uma interpretação firme soube caracterizar sensivelmente a personagem e o seu grande conflito amoroso.

Infelizmente, não há fotos desta dubladora e durante meados da década de 1970 retirou-se da dublagem.

Há ainda a presença de Garcia Neto dublando o ator Joseph Cotten e de Antônio de Freitas para o ator Regis Tomey (capataz).


Mais uma extraordinária dublagem realizada pela AIC !!




**TRECHOS DO FILME COM A DUBLAGEM**



*Vídeo 1: ABERTURA NARRADA POR CARLOS ALBERTO VACCARI*

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*Vídeo 2: Helena Samara, Dráusio de Oliveira e João Paulo Ramalho*

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*Vídeo 3: Beatriz Facker e João Paulo Ramalho*
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*Fonte de Pesquisa: "site westernmania"

"arquivo pessoal"

*Colaboração: Luciano Nascimento*




**Marco Antônio dos Santos**

3 comentários:

Wil disse...

Poxa lembro de quando da exibição na TV Cultura , que aliás foi quando conheci o filme . Obrigado pela postagem , que já serve de referência e me chamou melhor atenção ao filme , e claro auxilia para melhor me familiarizar com os dubladores .

Valdemir disse...

Seu site é excelente! Sempre estou dando uma olhada. Este filme Último Por do Sol é ótimo. A dublagem da AIC é fantástica. Aquela voz calma do João Ramalho no Kirk é antológica. É muito melhor que a voz original do Kirk. Ainda bem que foi a mesma usada em Spartacus. A voz do João também encaixa otimamente no Randolph Scott. Vou fazer um post em breve sobre o UniversoAICSP no meu blog: RevistaCineTV.blogspot.com.br. Nunca haverá outra como a lendária AIC São Paulo. Vou, daqui a alguns dias, postar um filme para download no meu blog, chamado o Mordomo e a Dama de 1958, com Keneth More. Ele foi dublado por Dráusio de Oliveira (nosso eterno Jack Lemmon, Rock Hudson e Richard Burton), mas não encontrei o filme dublado pela AIC na Internet. Vou ter que colocar legendado.

Valdemir disse...

João Paulo Ramalho tinha um voz excelente. Também caia muito bem com o Randolph Scott. É a melhor voz para o Kirk (também em Spartacus).

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