26 de abril de 2015

A DUBLAGEM DO FILME "O COLECIONADOR"




O filme, baseado no best-seller de John Fowles, conta a história de Freddy (Terence Stamp), o colecionador do título. Rapaz solitário que coleciona borboletas, ele tem uma paixão obsessiva por Miranda (Samantha Eggar). E na tentativa de demonstrar esse amor, simplesmente sequestra a moça e a aprisiona no porão de sua casa.
Obviamente, Freddy não tem sucesso, pois só o sequestro em si será o primeiro de uma série de obstáculos à reciprocidade desejada por ele.



Imaturidade cultivada numa vida sem afetividade (mesmo no trabalho, sua mesa encontrava-se isolada das dos demais “colegas”), cuja única relação desenvolvida foi a de posse (sua coleção de borboletas), e é neste mesmo âmbito que se dá sua relação com Miranda. A concepção mais próxima de reprodução, para Freddy, é a incubação que realiza nas larvas que recebe de um fornecedor: enclausurada no porão da casa de Freddy, a moça vive como mais uma de suas borboletas, desenvolvendo seus desenhos, colorindo o seu “casulo”, sob o afastado olhar de seu “dono”, que apenas a veste e alimenta.

O contato físico entre eles ocorre exclusivamente em função das tentativas de fuga de Miranda, quando Freddy é obrigado a subjugá-la pela força, agarrá-la, abraçá-la, amarrá-la, ou, em dado momento, quando por iniciativa própria, a moça tenta acariciá-lo. Para Freddy são momentos de verdadeira provação, uma afronta à “pureza” que almeja à relação.


“O colecionador” foi o último grande trabalho de Wyler, que ganhou prêmios no Festival de Cannes, inclusive para os dois intérpretes estreantes, e indicado para os Oscars de diretor e atriz (Samantha Eggar). A crítica mundial viu o filme como um desafio do veterano Wyler em seguir a linha do cinema novo mundial. O diretor conseguiu reproduzir o cenário claustrofóbico do original de John Fowles com uma criativa fotografia de dois mestres da especialidade. 




A sua estrutura é hipnótica, um genuíno “page turner”, sem gordura extra.
 A adaptação do diretor William Wyler, pode-se considerar sua última obraprima, emula perfeitamente o senso de perigo iminente nas páginas, com uma interpretação primorosa, rica em nuances de Terence Stamp, em seu primeiro grande papel no Cinema. É impressionante a forma como ele deixa transparecer sutilmente sua fragilidade em sua atitude corporal, constantemente pendendo sua cabeça ao admirar sua presa, exatamente como uma criança que analisa o mundo pela primeira vez.

 Já a atuação de Samantha Eggar, premiada e elogiada pela crítica da época, consegue personificar a força interior da personagem literária. A inteligência emocional da personagem, como exposta na parte do livro em que acompanhamos seu diário, superava em muito a de seu gentil algoz. Esses detalhes não enfraquecem o excelente resultado, um suspense que ainda hoje é tremendamente eficiente, mas que infelizmente é pouco lembrado.




É excelente a forma como a câmera, na cena em que Miranda encara pela primeira vez seu captor, insinua que ele esteja empunhando algum tipo de arma intimidadora, mas que descobrimos ser apenas uma bandeja com a refeição. A metáfora é clara, um amargo estudo sobre diferenças entre classes sociais e suas respectivas “máscaras”, travestido de conto de horror.

Ele sabe que sua borboleta cativa nunca iria sequer olhar para ele em um dia normal, um simples bancário, que era alvo do deboche dos colegas até o dia em que recebeu a visita de uma familiar, avisando que ele havia ganhado o prêmio da loteria. Ele decide aprisionar a jovem estudante, não numa tentativa de impor sua personalidade sobre a dela, mas sim com a ideologia de um legítimo colecionador, procurando amalgamar-se ao objeto de estudo, entendê-lo em suas particularidades.



 Ao querer que ela passe um tempo com ele e acabe gostando de sua companhia, o protagonista busca desesperadamente entender o que o torna tão diferente dela, quais as razões que o fazem ser ignorado enquanto pobre cidadão, mas adulado quando ascende socialmente num golpe de sorte. Analisando profundamente, Miranda é tão doente quanto Frederick, ambos são vítimas de um sistema que segrega, estipulando o que é valoroso e o que pode ser desprezado, utilizando critérios abstratos e questionáveis.


 E o colecionador não se satisfaz com apenas um espécime analisado, continuando sua busca pela perfeição, aperfeiçoando seu plano para seu próximo alvo...



**A DUBLAGEM DA AIC**



Dublado em meados de 1970, O Colecionador reúne, mais uma vez, a dupla Sandra Campos e Dráusio de Oliveira.

Ambos também estiveram juntos, com enorme qualidade, nos filmes: "Cleópatra", "De repente, no último verão" e "Ana dos Mil Dias".

Entretanto, em O Colecionador há uma circunstância que diferencia a dublagem realizada por ambos nas obras citadas: o filme concentra-se em dois personagens e, consequentemente, temos somente a dublagem dos dois dubladores, algo extremamente empolgante devido à forma da interpretação da obra e dos atores.


Sandra Campos talvez tenha tido a melhor dublagem de sua carreira ao ser Cleópatra (Elizabeth Taylor) e Dráusio de Oliveira ao dublar o personagem Freddy (Terence Stamp).


Um personagem que beira a esquizofrenia e até a psicopatia, mostrando diversos desequilíbrios ao transcorrer da trama, com sua voz sempre pausada, mas profundamente aterrorizante leva o telespectador a uma perfeita integração entre ator/dublador, fazendo com que nem possamos imaginar a voz de Terence Stamp.

Dráusio de Oliveira domina o personagem integralmente em todas as suas nuances. 
Simplesmente extraordinário !



Os diálogos são fortemente estruturados entre os dois personagens e a atriz Samantha Eggar, com sua personagem Miranda, acaba sempre se enfraquecendo diante de seu algoz.

Este fato nos mostra uma dublagem de Sandra Campos, que sugere que é apenas mais uma presa nas mãos de Freddy, que nos faz esquecer totalmente a dominadora e arrogante Cleópatra.
A dublagem de Miranda se dá num outro universo, mas sabiamente captado por Sandra Campos.

Um filme com apenas dois dubladores, quase uma peça de teatro filmada, com duas estrelas da AIC que merecem nossos aplausos.


O Colecionador já foi lançado em DVD, no mercado brasileiro, através da Vídeo Arte, mas, infelizmente, apenas legendado.

Em contato com a empresa, fomos informados de que desconheciam a existência da dublagem brasileira. A própria Sony Pictures, detentora dos direitos do filme, alegou que a dublagem brasileira pertence à uma outra distribuidora, mas não "soube" nos dizer a qual pertencia.



Seja por que motivo for, mais uma vez, o público brasileiro é privado de ter uma obra de arte deixada pela AIC.

Segundo consta, O Colecionador teve a sua última exibição dublada, no início da década de 1990, na TV Record.


 
**TRAILER  DO  FILME EM INGLÊS**

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**TRECHO INICIAL DO FILME COM A DUBLAGEM**


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**Fonte de Pesquisa: site "Adoro Cinema"



**Marco Antônio dos Santos**

3 comentários:

luiz antonio disse...

ótimo filme.Assisti a muiiiito tempo na Tv Educativa do Rio de Janeiro(canal 2) com a magnífica dublagem,depois,o filme "sumiu" da tv(junto com a dublagem).Acho que lançaram legendado,uma pena.

Luciano Nascimento Reis disse...

Me lembro em uma revista antiga de 1995 que neste mesmo ano "O Colecionador" foi reprisado na CNT.

BLONGMONKY disse...

Foi também exibido em reprise há alguns anos numa madrugada de dia de semana da TV Globo, apenas não me lembro se com a dublagem da AIC... Provavelmente sim.

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