4 de março de 2015

DUBLAGEM INESQUECÍVEL (26): MISTER MAGOO


Os estúdios UPA – United Productions of America criaram um estilo revolucionário nos anos 1950, que mudou completamente o estilo dos desenhos animados. Eles deixavam de ter o estilo “fofo” dos estúdios Disney para usar um design mais moderno, que acabou por influenciar diversos estúdios – inclusive a Disney, que modernizou seu traço.
Durante as décadas de 1940/50, a UPA produziu dezenas de curtas-metragens para o cinema, denominados Jolly Frolics, em parceria com a distribuidora Columbia Pictures.

Em 1949, refletindo a ideologia da UPA, o cartunista John Hubley não queria produzir desenhos animados com animais engraçados e propôs uma história à Columbia Pictures que utilizasse os personagens humanos Quincy Magoo e seu sobrinho Waldo. A distribuidora apenas concordou por que a história tinha um urso como protagonista.

O episódio, intitulado “The Ragtime Bear”, foi escrito por Millard Kaufman (1917-2009) com a colaboração do diretor John Hubley. Este trabalho marcou a primeira aparição do personagem Mister Magoo, inspirado no tio de Hubley — Henry Woodruff — e no ator W. C. Fields, conhecido no cinema por seu mau humor.





Os traços são diferentes daqueles que se tornariam definitivos. A história mostra Magoo como um velhinho excêntrico que sai de férias às montanhas geladas com seu sobrinho Waldo. Devido à miopia de Magoo, ele acaba se separando do  sobrinho, que estava trajando um casaco de pele, um chapeu e segurando um banjo nas mãos.

 Um urso, que havia seguido os dois por gostar do som do instrumento, acaba se apoderando do banjo e do chapeu no momento em que Waldo cai em um precipício. A confusão se inicia quando Magoo acaba se deparando com o grande e urso “vestido de Waldo” e o confunde com seu sobrinho. O público dos cinemas gostou do enredo e se deu conta de que a verdadeira estrela era Magoo, um dos poucos humanos que já haviam aparecido nos desenhos animados produzidos em Hollywood.

Dado o sucesso, o produtor decidiu transformar Magoo no carro-chefe das exibições da UPA no cinema e num dos primeiros personagens humanos no mundo da animação. O estúdio produziu, então, 52 curtas-metragens de Mr. Magoo. O diretor de animação da UPA, Pete Burness, foi o responsável por moldar as caraterísticas do personagem de Mr. Magoo, tornando-o mais atraente para o público de massa.




O velhinho, além de míope, é ingênuo e capaz de confundir o esgoto com a entrada do metrô, um semáforo com um guarda ou mesmo um manequim com uma senhora. Curiosamente, a sua extraordinária falta de visão não só lhe trará problemas, mas também acabará ajudando-o a sair de situações embaraçosas. Além disso, é um homem de sorte e persistente. Não surpreenderá, portanto, sua boa educação, bom humor e alegria de viver. Ele tem seu mundo próprio sem saber das suas ilusões ópticas que distorcem a realidade.
 
Um bordão de Mr. Magoo virou marca registrada: “Oh! Sim, sim, eu lhe digo”.
Os curtas de Mr. Magoo receberam quatro indicações para o Oscar de melhor curta de animação. Foram duas vezes ganhadores, sendo um pelo episódio “When Magoo Flew” (1955) e outro por “Mr. Magoo’s Puddle Jumper” (1956).



**MISTER MAGOO NA TV**
 
Os desenhos produzidos para o Cinema acabaram sendo exibidos também pela TV americana devido ao enorme sucesso.


A 1ª produção de Mister Magoo foi de 1949 a 1959. Nesse período de dez anos foram produzidos, além do piloto, mais 52 episódios de 6 minutos.


Entre 1960/61 foram produzidos 130 episódios de 5 minutos. Já em 1964/65 mais 26 episódios de 30 minutos.


Em 1977 mais 32 episódios de 15 minutos foram produzidos para a Tv, agora não mais pela UPA Productions, mas pela DePatie-Freleng Enterprises.

A distribuição do desenho que era realizada pela Columbia Pictures passa a ser feita pela CBS.




**MISTER MAGOO NA TV BRASILEIRA** 

Mister Magoo estreou pela extinta TV Tupi na 2ª metade da década de 1960, onde ficou durante muitos anos. Em meados da década de 70 também foi exibido pela TV Record e no final da década de 80 pelo SBT.

Mister Magoo retornaria somente no finalzinho da década de 90 pelo canal a cabo Warner, mas foram exibidos poucos episódios.


O fato de duas distribuidoras terem os direitos sobre o desenho causou problemas para a dublagem e para a exibição no Brasil.


Consta que os episódios produzidos em 1977 nunca chegaram à tv brasileira. Também a distribuidora CBS, quando encerrou as suas atividades, a Warner teria adquirido os direitos de distribuição.


A realidade é que somente os desenhos distribuidos pela Columbia Pictures é que foram dublados e exibidos, mas atualmente é incerto que este lote de produção ainda esteja sob o seu controle.



**A DUBLAGEM DA AIC**

Em 1996, tive um pequeno encontro com o saudoso José Soares. Meu objetivo era realizar uma entrevista sobre a sua carreira, mas ele preferiu contar fatos da história da dublagem paulista, sobre a Ibrasom e, principalmente da AIC.

Entretanto, tentei sempre introduzir algum personagem que tivesse dublado, mas sempre ele "escorregava" para outro lado. Na minha opinião, não queria trazer luzes para o seu trabalho e, sim, para todos os envolvidos na dublagem da década de 1960.

Mas, de repente, pedi que ele comentasse uma dublagem que havia levado, nas antigas fitas VHS.
Era um episódio de Mister Magoo, ao qual assistiu em silêncio.
Ao término, fez uma declaração sobre o personagem e sobre a sua dublagem, que tenho a honra de reproduzí-la:




"De tudo que fiz na dublagem este é o personagem que sinto muitas saudades. Foi algo que fiz com muita alegria, porque o desenho não encantou somente as crianças, os adultos adoravam o Magoo e a forma curiosa e engraçada como ele lidava com a miopia, quase cego coitado, mas acabava sempre se dando bem.

Quando o desenho chegou para ser dublado na AIC, eu já havia saído definitivamente da Ibrasom, porque a própria AIC a comprou.

Os episódios iniciais, se a memória não me engana, foram traduzidos pelo Samuel Lobo e ele me disse: "este desenho foi feito para você dublar". Originalmente eu iria fazer a direção da dublagem, mas joguei uma voz no Magoo que pegou e acabei eu mesmo me dirigindo, rs, rs


Os desenhos eram bem curtos e pouquíssimos personagens, o que tornou uma dublagem bem mais rápida. Lembro que ainda não havia escolhido o narrador da abertura do desenho, então aproveitei a rápida passagem do Antônio Celso, mas  também tinha o Wilton Franco, produtor de programas para TV.


Um dia ele estava lá, supervisionando a dublagem de um filme brasileiro, quando encontrei com ele no corredor e lhe disse se poderia me fazer um favor e aí ele narrou a abertura de dezenas de episódios do Magoo.


Não foi um trabalho solitário, como é hoje a dublagem. Muita gente gostava de assistir às gravações, me diverti muito, dublei mais de 100 episódios, e guardo Mister Magoo no fundo do coração."


Esta declaração de José Soares demonstra o quilate do seu trabalho para esta dublagem.
Todos nós agradecemos a este profissionalismo ímpar.

O lado triste desta história é, como sempre ocorre no Brasil, que esta dublagem praticamente inexiste. Houve uma tentativa de redublagem nos anos 2000 para venda de dvds, a qual não sortiu muito efeito e logo foi suspensa.


Atualmente, os pouquíssimos episódios que restaram com a dublagem da AIC, pertencem às pessoas que gravaram alguns episódios transmitidos pelo SBT e também pela Warner, mas muito distante do número de dublagens que José Soares realizou de Mister Magoo.
 


Um trabalho que merece os nossos aplausos !!


**REVENDO 2 EPISÓDIOS DE MISTER MAGOO**


**VÍDEO 1: Narração da abertura realizada por Wilton Franco**




**VÍDEO 2: Narração da abertura realizada por Antonio Celso**




**Fonte de pesquisa: site Retrô TV e Arquivo Pessoal**


**Marco Antônio dos Santos**

1 comentários:

Antonio Jorge disse...

Quando descubro que alguma dublagem antiga se perdeu, o sentimento de tristeza que se segue é imenso e inconsolável. É como descobrir que um tesouro de valor histórico, cultural e, acima de tudo, emocional foi destruído para sempre. Não há palavras pra expressar tal dor.

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