31 de julho de 2014

RELÍQUIAS DA DUBLAGEM (03): I LOVE LUCY




I Love Lucy foi uma série de TV no formato de uma sitcom, baseado num programa de rádio estrelado pela Lucille Ball e Richard Dennig chamado "My Favorite Husband".

 I Love Lucy foi apresentado originalmente de 15 de outubro de 1951 até 6 maio de 1957, nos Estados Unidos, pela rede CBS, num total de 180 episódios em 6 temporadas.

Quando o programa chegou a televisão Richard Dennig, que trabalhava na Rádio com Lucy, queria interpretar o papel do marido de Ball, mas ela fez questão que ele fosse interpretado pelo seu marido, o cubano Desi Arnaz. Inicialmente, os produtores não acreditavam que daria certo, devido ao sotaque carregado de Arnaz e também por eles acreditarem que o público não iria aceitar o "casamento inter-racial" entre Lucille e Arnaz.

Arnaz permaneceu fazendo o papel de Ricky até o fim, contribuindo também com sugestões de roteiro e músicas para a série. Willian Frawley e Vivian Vance também participaram, no papel dos inesquecíveis vizinhos Fred e Ehtel Mertz. IA princípio o título do programa era para ser "Lucy & Richy", pois a CBS não queria ter o nome de Arnaz no título, mas depois de negociações Arnaz concordou com o título I Love Lucy, já que ele seria o "I".



O programa foi filmado na Desilu, um estúdio cujos donos eram Lucille Ball e Desi Arnaz. O sucesso imediato da série se deve a uma ideia simples, mas que marcou uma época: pela primeira vez, o cotidiano das famílias da classe média americana era retratado na televisão. O foco era a rotina de Lucy, uma dona de casa que leva o marido à loucura com suas trapalhadas.

O que tornava cada episódio especial, era a incrível atuação de Ball e sua capacidade para fazer qualquer um rir. Some-se a isso o fato de que a atriz insistia em atuar com seu marido verdadeiro, Desi Amaz. Os episódios eram filmados ao vivo, a pedido do próprio Arnaz. Três câmeras eram usadas nas gravações, uma técnica considerada ultrapassada na época, porque os patrocinadores não aprovaram a adoção de um sistema mais moderno.

Mesmo assim, a produção não foi prejudicada e os esforços de Desi Arnaz permitiram que I Love Lucy acompanhasse a evolução dos programas de TV ao longo dos anos 60. Consagrado no hall da fama dos programas de TV, I Love Lucy explorou pela primeira vez temas comuns hoje em dia, tais como companheirismo, machismo, feminismo e situações arriscadas que acabam dando errado.



Depois, outras séries seguiram o mesmo caminho, mas nunca conseguiram dosar o humor tão bem em situações tão extravagantes. As incansáveis mentes criativas por trás desse projeto incluíam o produtor Jess Oppenheimer e o time de Madelyn Pugh e Bob Carroll - pessoas que Lucille Ball sempre citava como responsáveis por seu sucesso. I Love Lucy foi um dos programas mais bem sucedidos da história, permitindo a Ball e Desi comprarem os estúdios RKO para prosseguir com a filmagem da série. Apesar dos altos índices de audiência, os dois resolveram terminar com o seriado em 1957.

Fórmula para muitas comédias românticas de hoje em dia, I Love Lucy fez e ainda faz sucesso entre os amantes de séries de TV. Apesar da série estrear nos Estados Unidos em 1951, ela só chegou ao Brasil nos anos 60. O seriado alcançava picos de audiência nos Estados Unidos, Brasil e em quase todos os países em que foi apresentado e até hoje Lucille Ball é lembrada como um marco na história da televisão.

Conheceu seu marido, Desi Arnaz, em um set de filmagem, em 1940, e continuou seguindo a carreira de atriz por vários anos. O casal passou a filmar especiais de uma hora com os mesmos personagens, intitulados The Luci-Desi Comedy Show. Estes, por sua vez, prosseguiram até 1960, quando Ball e Arnaz se divorciaram.



**I LOVE LUCY NO BRASIL**

Na década de 1950, a TV brasileira tinha grandes dificuldades financeiras para importar séries e filmes, além disso ainda não havia a dublagem para  a nossa tv, a qual tinha a programação baseada em programas ao vivo. Entretanto, Cassiano Gabus Mendes por volta de 1954, lança o programa "Alô Doçura" com Eva Wilma e John Herbert.


Em entrevista ao programa "40 Anos de TV", produzido pela TV Cultura de São Paulo, Cassiano Gabus Mendes declara que gostaria de trazer o sucesso de I Love Lucy para a TV Tupi, mas era algo utópico para a época. Assim, ele criou o seriado "Alô Doçura", evidentemente, adaptado para o Brasil, mas a sua ideia original veio de I Love Lucy.



Mas o sucesso de I Love Lucy no exterior foi tamanho que a TV Tupi de São Paulo conseguiu trazer a série em 1960. Mesmo já tendo sido encerrada em 1957, o sucesso continuava.


Assim, I Love Lucy estreou no Brasil no dia 19 de outubro de 1960, em horário nobre, 21h30. Este fato acarretou uma certa preocupação aos artistas brasileiros, pois viam uma forte concorrência dos chamados "enlatados", pois a Tupi também trouxe outras séries.


Na realidade, I Love Lucy ficou em poder da Tv Tupi durante 11 anos. A emissora depois que viu o enorme sucesso, trocou de dias e horários várias vezes, já para as reprises, algumas vezes ficava fora da grade de programação, mas quando havia algum problema de audiência, a Tv Tupi lançava mão novamente de I Love Lucy, muito semelhante ao que o SBT fez com o seriado Chaves, que já percorreu diversos horários.


Sua derradeira exibição foi em 1971, no horário das 17h30, de segunda à sexta, onde a Tupi exibiu as 5 temporadas na íntegra, num total de 153 episódios, pois já se preparavam para programações coloridas a partir de 1972.




Durante toda a década de 1970 I Love Lucy esteve fora do ar, retornando, por um breve período pela TV Gazeta de São Paulo em 1980.

Em 1991, I Love Lucy retorna no horário nobre de sábado, às 21h, pela TV Cultura de São Paulo, porém foram exibidos apenas 36 episódios, esparsos, devido à perda da dublagem original, conforme a divulgação da emissora.


No ano seguinte, o canal a cabo Multishow exibiu as 3 primeiras temporadas totalmente legendadas.

I Love Lucy retornaria só por volta de 2009/2010, pelo canal a cabo TCM, mas foram exibidos mais episódios que restaram a dublagem, esparsos, de diversas temporadas.
O fato é que, é dificílimo saber exatamente com qual distribuidora ficou a série dublada e qual o motivo de mais de 50 episódios terem perdido o áudio.


**A DUBLAGEM DE I LOVE LUCY**


A série teve 6 temporadas num total de 180 episódios, mas a 6ª e última nunca foi exibida no Brasil. No início dos anos 60, a Tv Tupi trouxe somente 5, pois observou que audiência da última havia tido uma pequena queda nos Estados Unidos e não quis arriscar, pois era algo caríssimo para a época e ainda havia a despesa com a dublagem.

A dublagem foi realizada no Rio de Janeiro, pelo estúdio CineCastro, uma vez que a distribuidora declarou que "as vozes em São Paulo (na época Gravasom e Ibrasom), não eram tão parecidas para interpretar os atores".


O estúdio CineCastro, apesar de recente, era de uma grande qualidade e Carla Civelli escalou um elenco perfeito para os personagens fixos.





**ELENCO / PERSONAGENS FIXOS / DUBLADORES** 

*Lucille Ball (Lucy): Ângela Bonatti.
*Desi Arnaz (Rick Ricardo): Milton Rangel.
*Vivian Vance (Ethel Mertz): Neuza Tavares.
*William Frawley (Fred Mertz):
Gualter de França (1ª voz) e Ribeiro Santos (2ª voz).


**Ângela Bonatti**

Um grande sucesso no Brasil, o qual sem dúvida alguma, a dublagem exemplar do estúdio CineCastro contribuiu enormente.


Todos os dubladores estavam perfeitos e merecem os nossos aplausos. Ângela Bonatti atualmente é diretora de dublagem e dubla eventualmente.

 Quanto aos demais já partiram para o "estúdio do céu" e deixaram um trabalho primoroso.


**Milton Rangel**

Infelizmente, a Desilu operava com diversas distribuidoras pequenas e após a sua venda para a Paramount, no final da década de 1960, literalmente foram fechando, gradativamente, as suas portas.


Até hoje, não se sabe ao certo, como esses 36 episódios sobreviveram com a dublagem original.

Em 1991, a TV Cultura de São Paulo nos respondeu que estavam com a distribuidora Viacom.
Atualmente, todos os direitos da série estão com a distribuidora Network !


**Neuza Tavares**

Mais uma relíquia da nossa dublagem, a qual  felizmente temos alguns episódios para saborear.

**Vamos rever 2 episódios de I Love Lucy com a dublagem original**


**VÍDEO 1/
video


**VÍDEO 2/
video


**Marco Antônio dos Santos**

20 de julho de 2014

A DUBLAGEM DO FILME "KING KONG" (1933)



Entre todos os filmes de monstros gigantes que o Cinema já produziu, King Kong é o principal deles. Lançado em 1933, o filme arrecadou 90 mil dólares no final de semana de estreia nos Estados Unidos, um novo recorde para a época, e transformou-se logo em um clássico.

 Hoje, Kong é um dos principais ícones do Cinema de todos os tempos, e já serviu de inspiração para centenas de outros diretores ao longo dos anos. Em 2005, Peter Jackson lançou um novo remake desse filme (após o remake lançado em 1976).

A história é simples: Carl Denham, um diretor de cinema com mania de grandeza, consegue um mapa de uma ilha misteriosa, chamada de “Skull Island” (Ilha da Caveira).

 Lá, dizem os rumores, reside um monstro enorme e abominável, então Denham decide filmar o “filme de sua vida” naquele lugar. Para isso, parte em expedição num navio com sua equipe de filmagem e a atriz que será a mocinha do filme, Ann Darrow (a bela atriz Fay Wray, cuja cena onde Kong arranca parte de suas roupas foi originalmente censurada, sendo integrada ao filme apenas em um relançamento posterior).




 Chegando lá eles encontram um mundo totalmente estranho, além da existência do macaco gigante: uma tribo indígena que realiza rituais de oferendas humanas a Kong e animais pré-históricos ainda vivos (as sequências com os dinossauros são tão interessantes quanto as sequências com Kong).

O problema é que Ann é sequestrada por Kong (ela seria a oferenda de um dos rituais), e agora a equipe deve penetrar no coração da ilha para tentar resgatá-la, tendo de encarar todos os perigos que ela oferece.
A cena mais famosa do filme – Kong no topo do Empire State Building – acontece apenas perto do seu final, como todas as cenas de Nova York, ou seja, a grande maioria do filme passa-se na floresta mesmo.




 King Kong é na realidade (e deve ser visto desse jeito) uma grande diversão, um dos mais clássicos, que está recheado de cenas inesquecíveis: a chegada à Skull Island, com seu imenso portal que separa a tribo indígena do resto da floresta – domínio de Kong; a primeira aparição do macaco (e o close do seu rosto, que hoje é engraçado, mas certamente foi feito para assustar a plateia); a luta entre Kong e o dinossauro (Jurassic Park homenageou – pra não dizer copiou – esta cena) e, claro, toda a sequência de Kong em Nova York, com Ann, sua amada (ou brinquedinho) em suas mãos.

Tecnicamente, King Kong é um filme intrigante. Se hoje o grande macaco é visto apenas como uma sequência de animação mal executada, na época ele gerou comentários exaltados. Os executivos do estúdio RKO, onde Kong foi filmado, ficaram embasbacados com o resultado, dizendo que nunca haviam visto nada assim antes (e realmente, não viram mesmo, nem ninguém mais). Hoje em dia, dizem que o sucesso comercial do filme foi o responsável por evitar que o estúdio falisse.

 Kong também exigiu acrobacias dos seus diretores: algumas sequências realizadas, como as dos aviões disparando sobre ele nos céus de Nova York, exigiram habilidade e criatividade do diretor Merian C. Cooper (que, como curiosidade, faz o close de um dos pilotos).






Esta sequência final, em particular, foi a mais difícil de ser filmada: nela o modelo em miniatura de 18 polegadas de altura foi substituído por um ator em roupa de macaco, até a cena da queda de Kong do alto do prédio, onde novamente foi utilizada a miniatura. Outra curiosidade: o próprio Empire State Building estava em fase de construção durante as filmagens.



**CURIOSIDADES**


 Os modelos de King Kong usados no filme tinham apenas 40 centímetros de altura mas, na história, o personagem tinha 15 metros.
 O rugido de King Kong no filme era na verdade uma combinação feita com os rugidos de leões e tigres.

 Na época das filmagens de King Kong tanto o Empire State Building quanto o prédio da Chrysler estavam sendo construídos em Nova York. Inicialmente o roteiro previa que Kong escalaria o prédio da Chrysler, que seria o prédio mais alto do mundo. Porém, uma mudança nos planos de construção do Empire State Building fez com que ele se tornasse o prédio mais alto, fazendo também com que fosse o escolhido pelos produtores para a escalada de Kong no filme.




 A cena em que King Kong escala o Empire State Building foi rodada com um homem vestido de macaco escalando uma torre em miniatura, idêntica à original.



**A DUBLAGEM DO FILME**


Conforme nos relatou o dublador Francisco José, King Kong foi dublado em meados de 1970 e a direção de dublagem foi realizada por Dráusio de Oliveira.


Francisco José ficou surpreso com a sua escalação para este filme tão importante, uma vez que ainda era bem recente na dublagem, além disso ficou com o vilão para dublar, o que aumentava ainda mais a sua responsabilidade.

Para a heroína, havia a necessidade de uma dubladora com voz meiga, mas que também expressasse horror, pânico ao ver o gigantesco gorila e até hoje os fãs elogiam a excelente dublagem de Maralise Tartarine para a atriz Fay Wray.


O filme possui poucos personagens principais e o roteiro gira em torno da heroína, o vilão e o heroi dublado por Garcia Neto, com a sua voz firme bem adequada ao grande "salvador" de Ann Darrow das garras de King Kong.




Uma dublagem perfeita, a qual felizmente está preservada, embora o estúdio RKO e suas distribuidoras tenham desaparecido, houve a preocupação de mantê-la num filme que ainda empolga, mesmo com seus efeitos especiais de 80 anos atrás conseguiu superar os dois remakes realizados, em 1976, e 2005, com o avanço da tecnologia.


**ATORES PRINCIPAIS / PERSONAGENS / DUBLADORES**


*Fay Wray (Ann Darrow): Maralise Tartarine.

*Robert Amstrong (Carl Denham): Francisco José.
*Bruce Cabot (John "Jack" Driscoll): Garcia Neto.
*Frank Reicher (Capitão Englehorn): Turíbio Ruiz.
*Sam Hardy (Charles Weston): José Soares.
*Narração da abertura: Carlos Alberto Vaccari.

*Há ainda a presença dos dubladores Nelson Batista e João Ângelo.






Esta dublagem da AIC, embora o filme se concentre mais na aventura, demonstra uma grande qualidade nas interpretações de Maralise Tartarine, Garcia Neto e, sobretudo, Francisco José, que desempenhou um vilão com características bem diferentes.
Parabéns a todos !


**VAMOS REVER 3 MOMENTOS DE KING KONG**


*VÌDEO 1:  "A CHEGADA À ILHA"

video


*VÍDEO 2 : KING KONG RAPTA ANN DARROW

video


*VÍDEO 3 : KING KONG EM NOVA YORK

video



**Marco Antônio dos Santos**

9 de julho de 2014

O ESTÚDIO TV CINESOM




**INTRODUÇÃO**

A trajetória da TV Cinesom, na década de 1960, sempre esteve meio opaca por uma série de motivos: falta de registros e fotografias, o estúdio teve um período curto de duração, falência, e não houve uma preocupação de registrar sobre a sua história.

O estúdio TV Cinesom foi sempre considerado o "primo pobre" dos demais estúdios da cidade do Rio de Janeiro, principalmente devido às condições técnicas e a uma grande rotatividade de dubladores. Estúdios como CineCastro, Dublasom Guanabara e Herbert Richers sempre encontramos mais dados.

Desde 2011, resolvi buscar informações a respeito, investigar fatos e verificar a possibilidade de traçar um painel (ainda que contenha falta de elementos que desapareceram no decorrer no tempo), para que se possa registrar este momento da História da Dublagem Brasileira.

A TV Cinesom enfrentou diversos obstáculos, porém dublou muitas séries de tv de sucesso, filmes, desenhos, e excelentes dubladores sempre estiveram presentes. Atualmente, restaram pouquíssimas dublagens do estúdio, o que dificultou muito mais esta pesquisa.

Basicamente tive os depoimentos de três dubladores: Gessy Fonseca, Miguel Rosenberg e Celso Vasconcellos, onde constatei que, apesar de algumas divergências, foi possível encontrar e corrigir até algumas informações que todos os fãs de dublagem sempre imaginavam.

Quero salientar que apenas "alinhavei" os depoimentos e pesquisei informações em livros e jornais da época.


**AS ORIGENS: TV TUPI / CANAL 6 / RJ**

No dia 20 de janeiro de 1951, o presidente Eurico Gaspar Dutra acionou o botão e ligou o transmissor da TV Tupi do Rio de Janeiro, canal 6.
O jornalista João Lorêdo, em seu livro de 2000, destaca os pormenores da inauguração da emissora carioca. Quando a televisão paulista foi inaugurada, os cariocas já haviam erguido a torre, no alto do Pão de Açúcar.

O começo da televisão, assim como em São Paulo, não foi fácil. João Lorêdo destaca as dificuldades do início da TV Tupi do Rio de Janeiro, referentes, principalmente, aos estúdios acanhados e a falta de estrutura. A emissora instalou-se no quarto andar do prédio onde funcionavam as rádios Tupi e Tamoio do Rio de Janeiro, também das Associadas, na avenida Venezuela, 43. O quarto andar foi desativado e o  engenheiro italiano Orázio Pagliari e sua equipe montaram a emissora.


**Estúdio TV Tupi do Rio de Janeiro / década de 1950**


A partir de 1955 a concorrência aumenta com a inauguração da TV Rio e as condições econômicas de todo o complexo das Emissoras Associadas já não estavam muito bem, em virtude da aquisição de tantos pequenos jornais e a inauguração da TV Itacolomi, em Minas Gerais. 
Assis Chautebriend sonhava com uma grande rede de televisão, rádio e jornal, mas poucos brasileiros tinham televisores, portanto havia poucos comerciais também na década de 50.

Em 1956, Chatô, como era chamado, define a presidência da TV Tupi de São Paulo para Edmundo Monteiro e a TV Tupi do Rio para João Calmon.
Esse fato gerou uma certa independência na programação da emissora do Rio de Janeiro diante de São Paulo e o fato da tv ser "ao vivo" contribuiu muito.

Em 1961, a TV Tupi, canal 6, observando o sucesso da série Bonanza nos Estados Unidos, decide trazê-la para a sua programação, a qual foi inicialmente dublada no estúdio Peri Filmes. Os episódios eram exibidos primeiramente no Rio de Janeiro e vinham para São Paulo de avião para a Tupi do bairro do Sumaré.

A crise econômica nas Emissoras Associadas cada vez foi se tornando crônica, mas a concorrência com outras emissoras não a deixava parar de investir, mesmo com imensos empréstimos.

A dublagem de Bonanza trouxe uma nova ideia ao grupo da Tupi do Rio de Janeiro, que viu a possibilidade de ter o seu próprio estúdio de dublagem, o que acarretaria numa nova fonte de renda, uma vez que a dublagem já havia se firmado na nossa televisão.

Assim, já em 1962, o Presidente da emissora no Rio, João Calmon, dá o sinal verde para a criação de um estúdio de dublagem, entretanto neste mesmo ano, Assis Chateaubriend sofre uma trombose e fica tetraplégico (embora totalmente consciente).
 A organização econômica das Emissoras Associadas (que já não era boa), começa a decair e culmina com o encerramento da Rede Tupi em 1980.


**Assis Chateaubriend**


Miguel Rosenberg, na época, ator de cinema e tv, começando a atuar na dublagem nos relatou:
"A Tupi do Rio, sem dinheiro suficiente, fez empréstimos para comprar equipamentos para montar um estúdio de dublagem. Todavia, só conseguiram comprar equipamentos de baixa qualidade, principalmente microfones e para mixagem, a maioria creio até que já haviam sido utilizados pelo cinema americano. Foi assim que montaram a TV Cinesom, que já nasceu com dívidas".



**TV CINESOM / 1ª FASE (1963 -1968)**

A TV Cinesom começa as suas atividades em meados de 1963 (há conflitos de datas (entre maio a julho daquele ano). Suas instalações eram numa casa antiga, na rua Voluntários da Pátria, no bairro de Botafogo.


**Rua Voluntários da Pátria / Botafogo / década de 1970**

O dublador Celso Vasconcellos nos descreve o local:
  "Era uma casa muito comprida. Você caminhava até os fundos e subia para o 2° andar onde ficavam os estúdios. Realmente a ventilação era péssima, embora , naquela época a temperatura do Rio fosse bem mais amena. No entanto, hoje vejo o que na época nem percebia... se tivesse um incêndio lá, na parte da frente da casa, estaríamos todos mortos pois não haveria como sair.  Na parte de cima eram 2 estúdios de dublagem e um de mixagem".

João Calmon designou um Diretor Administrativo, o qual encontrou grande dificuldade para estabelecer as atividades do estúdio, pois os estúdios CineCastro e Riosom eram fortes concorrentes.

A saída encontrada foi recorrer a TV Tupi do Rio de Janeiro, a fim de que ela própria adquirisse uma série que serviria como uma espécie de "amostra" do novo estúdio.
Assim, a Tupi recorreu a alguns seriados da década de 1940, os quais foram produzidos para o Cinema, que foram as primeiras dublagens do estúdio.

**Aqui, um trecho da abertura do seriado "O Rei dos Espiões"**
video

Os dubladores que começaram a participar da TV Cinesom eram excelentes, muitos oriundos da Rádio Nacional e já com experiência em dublagem, uma vez que já haviam participado da Riosom, Herbert Richers e alguns poucos da CineCastro, que pedia mais exclusividade.

Nesta primeira fase do estúdio, passaram Magalhães Graça, Nilton Valério, Antônio Patiño, Álvaro Aguiar, Nelly Amaral, Ênio Santos, Neyda Rodrigues, Maurício Barroso, Ribeiro Santos, Gualter França e outros de grande quilate. Até a atriz Ida Gomes chegou a dublar lá também.
O jovem Newton da Matta dublou e chegou a ser diretor de dublagem já naquela época.

Mesmo tendo uma dublagem com excelentes interpretações, o áudio prejudicou sempre o trabalho dos dubladores. Os equipamentos eram muito ruins, o que deixava o som "incubado" e logo com chiados.
Este fato fez com que as emissoras e distribuidoras não procurassem o estúdio para as suas dublagens, já que havia a AIC e a CineCastro, duas grandes concorrentes.

Dessa forma, a TV Cinesom começou a "baratear" o custo da dublagem e chegou a dublar séries de tv que fizeram enorme sucesso, como Combate, O Fugitivo, Os Invasores e a 2ª temporada de James West.
Entretanto, todos esses fatos fizeram com que o estúdio ficasse praticamente falido já em fins de 1967.
Assim, no início de 1968, a TV Cinesom era mais uma empresa com profundos problemas financeiros das Emissoras Associadas.


**Trecho e abertura da série COMBATE **
video

**Abertura da série O FUGITIVO**
video

**Abertura da série OS INVASORES**
video


**TV CINESOM / 2ª FASE (1968 -1971)**

Esta fase se caracteriza pela presença de Hélio Porto. Sempre houve a informação de que este teria adquirido o estúdio em sociedade com Amaury Costa. Este fato foi totalmente descartado por Gessy Fonseca e Celso Vasconcellos.

Vejamos os depoimentos:

*GESSY FONSECA: O Hélio saiu da AIC por discordar de alguns rumos que o estúdio estava tomando. Não me lembro de que maneira ele foi convidado a ir para o Rio de Janeiro, mas foi um arrendamento que as Emissoras Associadas fizeram a ele. O Amaury Costa depois também foi para lá, mas nunca foram sócios e o Hélio arcou sozinho com esse arrendamento assumindo, inclusive, muitas dívidas já existentes.

Fomos então morar no Rio de Janeiro novamente!!

*CELSO VASCONCELLOS: O Hélio Porto fez uma espécie de arrendamento com as Associadas e nunca o Amaury Costa foi seu sócio, aliás nem ele próprio comprou a TV Cinesom. 

O Hélio Porto, devido a sua fama de perfeccionista encontrou dois problemas: o 1º foi se dedicar quase, exclusivamente, à área administrativa, e o 2º foi uma certa evasão dos dubladores cariocas que acreditavam que seria difícil conviver com ele.  Por isso, ele convidou dubladores da AIC, que também estavam insatisfeitos com os rumos do estúdio. Nessa época, eu já estava no Rio e conhecia o Hélio do tempo que passei na AIC e ele me ofereceu a grande oportunidade de direção de dublagem, algo que ele praticamente não tinha mais tempo para fazê-lo.

Dessa forma, um grupo de dubladores da AIC migraram para a TV Cinesom, onde havia necessidade de diretores de dublagem e de um elenco de vozes. Assim os dubladores: Amaury Costa, Ary de Toledo, Arakén Saldanha, Magno Marino, Magda Medeiros, Marcos Miranda, Neville George, Syomara Naggy, Gessy Fonseca foram paulatinamente para o Rio de Janeiro.


Assim, devido ao seu excelente trabalho em Os 3 Patetas, Perdidos no Espaço e Viagem ao Fundo do Mar, Hélio Porto era muito respeitado entre as distribuidoras.

Este fato fez com que ele trouxesse filmes famosos como "Quo Vadis" e "Laura", além de diversas séries de tv: Júlia, Enigma, Judd, Joe 90, Mod Squad (1ª temporada), etc.
A sua maior façanha foi conseguir trazer para o estúdio a dublagem da 3ª temporada de Batman, cuja Fox não a enviou para a AIC.



**HÉLIO PORTO**


Aos poucos ganhou a confiança de alguns dubladores cariocas que retornaram para o estúdio como Paulo Pinheiro, Carlos Leão, Ilka Pinheiro, Sônia de Moraes, Míriam Theresa, Domício Costa, entre outros.


Nesse período a TV Cinesom chegou a dublar desenhos, como   "A Corrida  Maluca"e "Máquinas Voadoras", dois sucessos da época.



*Relembre um episódio de A CORRIDA MALUCA**

video
    
**Aqui, um episódio de Máquinas Voadoras**
video


Infelizmente, havia a necessidade de se reformular todos os equipamentos do estúdio que continuavam caóticos, sempre necessitando de manutenção e deixando o áudio das dublagens ruins. 

As distribuidoras esperavam que isso ocorresse, mas no dia 4 de abril de 1968, Assis Chateaubriend falece em decorrência de seu estado grave de saúde.
Este fato desencadeou uma crise econômica muito maior em todo o grupo das Emissoras Associadas (emissoras de tv, rádio e jornais), o império das Emissoras Associadas começa a ruir gradativamente. As despesas do estúdio TV Cinesom não se pagavam e não havia dinheiro para investimento.

Dessa forma, atraso em pagamentos e ainda a grande concorrência da AIC e a Herbert Richers surgindo com mais força no mercado da dublagem determinaram a falência definitiva da TV Cinesom, a qual encerrou suas atividades, definitivamente, em março de 1971.

Conforme constatamos, a 1ª temporada da série Mod Squad teria sido a sua última dublagem. Posteriormente, a série teve suas temporadas dubladas pelo estúdio CineCastro.

Conforme nos relatou Gessy Fonseca, Hélio Porto herdou dívidas dessa fase na TV Cinesom e, depois, procurou investir em projetos para o Cinema Nacional , com diversos obstáculos econômicos.



**VAMOS REVER**

**Abertura e trecho da série JUDD**

Narração da abertura feita por Ary de Toledo
video

**Abertura e trecho da série ENIGMA**
Narração da abertura feita por Neville George
video

A série Além da Imaginação teve a sua 4ª temporada (episódios de 50 minutos), dublada na TV Cinesom.



**Aqui, o episódio "JESS-BELLE" PARTE 1 /

Narração da abertura Neville George.
video


**"JESS-BELLE" PARTE 2 /
video



**Apesar da sua trajetória complexa e dos problemas técnicos, a TV CINESOM fez excelentes dublagens e faz parte da História da Dublagem Brasileira !!


**Fonte de Pesquisa:


*Livros:

 "Chatô" de Fernando Moraes.
"Era uma vez.....Televisão" de João Lorêdo.

*Jornais:

"Diário de São Paulo - anos 1955/56/1963.

*Depoimentos de Gessy Fonseca, Celso Vasconcellos e Miguel Rosenberg.


*Acervo Pessoal*


*Marco Antônio dos Santos*