16 de abril de 2012

AS HISTORINHAS DISNEY



No final da década de 1960, a Abril Cultural possuía os direitos exclusivos das publicações Disney no Brasil. Havia uma série de gibis em nossas bancas de jornais: "O Pato Donald", "Mickey", "Tio Patinhas", "Zé Carioca", "Almanaque Disney" e sempre edições especiais reeditando as melhores histórias.

Nesse período , a Disney lançou, nos Estados Unidos, algo que fez um enorme sucesso, onde se publicava uma história assinada por Walt Disney e as crianças poderiam, acompanhá-la, através de um disco, no qual era feita toda a dramatização da historinha.

A idéia chegou ao Brasil, mas a Abril Cultural, ciente do controle de qualidade da Disney, necessitou fazer um planejamento rigoroso de como seria a versão brasileira.

Foi escolhida a gaúcha Edy Lima, escritora já de renome de Literatura Infantil, ganhadora de diversos prêmios, como o "Jabuti", a fim de que coordenasse todo esse trabalho.

**Escritora Edy Lima**

Primeiramente, Edy Lima fez pequenas adaptações nas histórias. Muitas eram conhecidas do público infantil como: Pinóquio, Bambi, Branca de Neve, A Bela Adormecida, mas havia várias ainda inéditas no Brasil.

Dando o título de "Historinhas Disney", Edy Lima observou que havia sempre um narrador de cada história, mas era sempre a mesma voz.
 Segundo ela, a voz não deveria ser caricata, pois parecia a voz tranquila de um pai que narrava o enredo, que era intercalado pela dramatização dos personagens. Assim, as crianças poderiam acompanhar os livrinhos, sincronizando com o que estavam ouvindo com o disco.

Edy Lima selecionou algumas vozes, mas foi a voz marcante do radialista e dublador Ronaldo Baptista que ganhou essa missão maravilhosa de encantar as crianças.

É bom lembrar que, naquela época, os discos eram de vinil, assim a edição vinha com um livrinho e um disco pequeno, chamado na época de "compacto simples", apenas com o lado A e B. Havia um momento em que o disco necessitava ser mudado para o lado B, a fim de que a história continuasse.

 A gravadora que ganhou  a produção dos discos foi a RGE.
As canções eram adaptadas e alguns cantores ou grupos musicais as executavam, como o extinto conjunto musical "Os Titulares do Rítmo".


**A VOZ PERFEITA PARA AS NARRAÇÕES: RONALDO BAPTISTA**


Mas, havia ainda o aspecto mais complicado de toda a produção: escolher um excelente Diretor Artístico que soubesse escalar e dirigir o elenco de vozes para a interpretação perfeita.

Evidentemente, logo se chegou a Older Cazarré, com a sua larga experiência em dublagem e direçao de dublagem para desenhos, não poderia ter havido escolha mais acertada.

Edy Lima, Ronaldo Baptista e Older Cazarré formaram o tripé das Historinhas Disney. As gravações eram efetuadas nos estúdios da RGE, em São Paulo, e para cada historinha Older Cazarré escalava dubladores da AIC.


Segundo informações de fontes históricas da Abril Cultural, as Historinhas Disney estrearam no Brasil em 1968, sendo vendida uma vez por semana nas bancas de jornais. Foram 68 historinhas, terminando em 1969.
O sucesso dessa publicação foi extraordinário, a Abril Cultural teve que aumentar o número de exemplares, assim como a RGE os discos que acompanhavam.


**O SUCESSO DAS HISTORINHAS DISNEY**


A repercussão desse produto agradava não só as crianças, mas também aos adultos. A Abril Cultural viu a necessidade de reeditá-las várias vezes no decorrer dos anos, sempre com sucesso, pois sempre havia novas crianças que se interessavam em obtê-las.


1968/69 - Primeira edição das Historinhas Disney, 68 livretos acompanhados de um disco de vinil "compacto simples".


1970/71 - Segunda edição das Historinhas Disney. Nesta edição, não houve nenhuma alteração.


1978/79 - Terceira edição das Historinhas Disney, a qual também não sofreu alterações.


1986/1987 - Quarta edição das Historinhas Disney. Aqui, houve uma grande alteração. Os discos de vinil já não eram mais utilizados, assim as historinhas foram publicadas em fitas K-7, magnéticas, para serem ouvidas em gravadores.


Este fato gerou algumas alterações:


1 - A fita K-7 permitia uma historinha completa em cada lado, portanto os livretos traziam duas historinhas, ao invés de uma, como fora anteriormente. A primeira história sempre era a mais famosa.


2 - Houve uma redução de 68 publicações para 30, porém apenas 8 historinhas foram suprimidas, uma vez que vinham duas histórias em cada livreto.


3 - Em 1986, houve a necessidade de se atualizar algumas histórias, pois muitas haviam sido exibidas no Cinema, nas décadas de 1970 e início da de 80, tais como: Aristogatas e Bernardo e Bianca.


Foi outro estrondoso sucesso ! As novas historinhas foram também adptadas por Edy Lima e contou com a narração de Ronaldo Baptista e a Direção Artística de Older Cazarré, que mais uma vez escalou as vozes mais adequadas aos personagens, com os talentos de vozes de que dispunha, a maioria oriunda também da AIC.


1988/89 - A Abril Cultural reedita novamente os 30 livretos das Historinhas Disney, totalizando 60 histórias. Esta foi a última edição das Historinhas Disney.


As Historinhas Disney, mais do que um marco na publicação infantil, é sem dúvida, um dos melhores trabalhos artísticos em todos os sentidos: as adptações de Edy Lima, atualmente com 85 anos de idade, foram perfeitas.

 As narrações de Ronaldo Baptista sempre davam sabor de um alegre "contador de histórias para crianças", infelizmente falecido no mês de janeiro deste ano.


Older Cazarré foi também o "maestro" de todo esse sucesso por sua competência inigualável na condução das dramatizações, das interpretações.

Older Cazarré faleceu em 1992.
As interpretações do elenco de vozes escolhidas foram primorosas.


**Com a colaboração de Maurício Campos, que efetuou a montagem de algumas Historinhas Disney, poderemos ver as ilustrações dos livretos e ouvir as vozes inesquecíveis**


**VÍDEO 1: "ALADIM"**

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                    **ALGUNS DUBLADORES**


                     Narração: Ronaldo Baptista.

Aladim: Marcelo Gastaldi.
       

                 Mãe de Aladim: Yolanda Cavalcanti.

                    Gênio do Anel: Borges de Barros.

                    Gênio da Lâmpada: Antônio Cardoso.

                    Sultão: Eleu Salvador.

                   Mágico (que se faz passar por tio de Aladim): Renato Restier.

                   Princesa: Lucy Guimarães.

Direção Artística: Older Cazarré.


**VÍDEO 2: "A ILHA DO TESOURO"**
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**ALGUNS DUBLADORES**

Narrador: Ronaldo Baptista.

Jim (menino): Zezinho Cútolo.

Juiz: Sílvio Navas.

Doutor: Dráusio de Oliveira.

Capitão: Mario Jorge Montini.

Silver (Pirata): José Soares.

Ben Gunn: Jorge Pires (falsete).

Direção Artística: Older Cazarré.


**FONTE DE PESQUISA: Biografia da escritora Edy Lima.

Dados  das publicações Historinhas Disney, fornecidos pela Editora Abril.

**MONTAGEM/VÍDEOS: Maurício Campos.

**Marco Antônio dos Santos**

7 de abril de 2012

ARTE, TALENTO E DUBLAGEM !!!




**ESCLARECIMENTO:   Neste texto exponho minhas ideias e analiso como fã e pesquisador da história da dublagem brasileira, a questão da Arte e do Talento. Em nenhum momento, as ideias expostas representam a categoria dos dubladores brasileiros, assim como os nomes de estúdios citados e de dubladores são frutos de uma análise estritamente pessoal !



O que é Arte ? 

 Arte para mim é uma forma de expressão, o artista ama a arte, porque não consegue viver sem ela, para mim um artista que não vivencia a arte não é um artista !

O que é Talento ?

 O conceito de talento é muito mais difícil, porque é muito mais relativo, depende de outros fatores, mas a princípio talento seria algo que uma pessoa tem uma capacidade especial para fazer alguma coisa !



Então, existe artista sem talento ?


Como Arte e Talento são relativos: sim.
Os artistas da Semana de Arte Moderna de 1922 foram considerados sem nenhum talento, mas eles faziam o que amavam, e eram bons no que faziam, na minha opinião tinham muito talento.


Talento é algo bem complicado de se debater porque é muito relativo. Principalmente em Arte, outra coisa relativa. Um ator ou dublador que não consegue elaborar uma boa interpretação é um artista ? Ele estuda, já fez aulas mas não tem jeito, suas interpretações são medíocres, ele não consegue. Ninguém irá dizer que ele é um artista, por mais que ele diga que é o sonho dele ser um, ele precisa de habilidade, ele precisa de talento.  


A História da Dublagem Brasileira, nesses 54 anos de existência, oficialmente, demonstra diversos aspectos onde a Arte e o Talento estiveram sempre de mãos dadas. Isso ocorreu principalmente nas décadas de 1960, 70 e 80 onde grandes estúdios de dublagem (na qualidade) proporcionaram profissionais exemplares.


 Em São Paulo, a AIC, sem dúvida foi um verdadeira "escola" de dublagem, por onde passaram nomes que desenvolveram trabalhos primorosos. O surgimento do estúdio Álamo, em 1972, e a BKS em 1976, continuaram na mesma linha mestra. Seria impossível aqui, lançarmos todos os nomes de dubladores dessas três décadas que mostraram a Arte e o Talento na dublagem.


Serão sempre inesquecíveis: Borges de Barros, Helena Samara, Marcelo Gastaldi, Waldyr Guedes, Older Cazarré, Olney Cazarré, Carlos Campanile, Ézio Ramos, Líbero Miguel, Amaury Costa, Gessy Fonseca, além de novos que surgiram como Cecília Lemes, Nelson Machado e Hermes Baroli.
Citei alguns de uma lista imensa.


No Rio de Janeiro, o estúdio Cinecastro foi outro grande gerador de dubladores que uniram a Arte e o Talento. Praticamente estiveram presentes também em outros estúdios como Riosom, Dublasom Guanabara, TV Cinesom, desaguando todos no estúdio Herbert Richers, o qual marcou a história da dublagem brasileira em três décadas.


 Por lá passaram artistas como Magalhães Graça, Glória Ladany, Darcy Pedrosa, Nelly Amaral, Newton da Matta, Sumára Louise, Sílvio Navas, Mário Monjardim e Orlando Drummond fizeram dublagens de desenhos, séries de tv e filmes que até hoje são referência de uma extraordinária união de Arte e Talento.


Novos nomes também foram surgindo, assim como em São Paulo. Grandes exemplos são: Garcia Jr., Marisa Leal e Márcio Seixas. Citei alguns de uma lista também muito grande.


Atualmente, se questiona se o Talento e a Arte se desuniram na dublagem !!! Na minha opinião, creio que é algo que depende de fatores que absolvem, de certa forma, os novos dubladores. Há uma nova geração de profissionais excelentes.


 Em São Paulo: Tatá Guarnieri e Wendel Bezerra são dois nomes da linha de frente e no Rio de Janeiro a grande revelação é Eduardo Drummond, com tão pouca idade, já demonstra um Talento fantástico herdado, talvez, de Orlando Drummond.


E porquê há tantas queixas das atuais dublagens ?


 O problema consiste no indivíduo que escolhe o elenco de vozes adequadas a cada personagem, consiste em se abrir mais o mercado para que novos talentos possam ter a oportunidade de mostrarem o seu potencial, em não permanecer escalando sempre nomes conhecidos, porém inadequados ao personagem simplesmente por determinações superiores de distribuidoras, ou seja, há a grande necessidade dos estúdios ficarem mais independentes.
 Sem liberdade, teremos sempre muito mais dublagens medíocres, regulares e pouquíssimas onde a Arte e o Talento se unem e nos transformam em admiradores incondicionais de seus trabalhos.


Infelizmente, se por um lado houve um aumento do número de estúdios (abrindo mais o mercado de trabalho para os dubladores), a concorrência entre eles não chegou a ser benéfica, pois as distribuidoras querem sempre o menor preço, sem nenhuma preocupação com a qualidade do produto.


Tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, há hoje um novo modelo de estúdio (menor, mais enxuto de gastos), mas, na minha opinião poucos conseguem estabelecer trabalhos de excelente qualidade.


 Cito os estúdios Sigma e Clone como remanescentes de um processo ainda focado mais na Arte e Talento. O estúdio BKS, com sua alta tecnologia, necessita retornar a ocupar o espaço que teve nos anos 80 e 90, mas suas atividades ainda estão um tanto lentas. No Rio de Janeiro, a Delart e a Áudio News Dublagem são as que despontam também com um perfil parecido com os estúdios que mencionei de São Paulo.


Quando citamos que a dublagem de 30, 40 ou 50 anos atrás, apesar da tecnologia ainda muito precária, eram mais vibrantes, na realidade queremos dizer que: a Arte e o Talento era tudo o que os dubladores tinham e, por isso, eram artistas, não porque conseguiam dublar com qualidade, mas porque faziam aquilo com Amor, do fundo do coração.


Essa razão, essa chama, deveria retornar a todos os dubladores, diretores de dublagem e estúdios. Só assim, continuaremos a admirar uma nova dublagem !!


**Marco Antônio dos Santos**