27 de maio de 2012

ENTREVISTA COM ASTROGILDO FILHO


Voz de ator santista é ouvida nos filmes da tv !


Introdução: Esta entrevista do dublador e ator Astrogildo Filho foi dada ao extinto jornal "Cidade de Santos" e publicada em 28 de maio de 1974.
O referido jornal pertencia ao "Grupo Folha de São Paulo", o qual o manteve por circulação por cerca de 15 anos na cidade de Santos, sendo extinto no início da década de 1980.


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Nascido em Santos, com 46 anos de idade, o ator Astrogildo Filho já participou de diversas novelas de nossa tv, praticamente esteve desde que a televisão chegou aos nossos lares. Todavia, sua voz está presente já há alguns anos em diversos filmes dublados. Atualmente, sua voz pode ser ouvida na exibição da série Jornada nas Estrelas pela TV Tupi.


Astrogildo Filho nos concedeu um pequeno depoimento sobre a sua carreira.

C.S: Você participou da 1ª novela da televisão brasileira, "Sua Vida me Pertence", em 1951, você já era ator tão jovem ?

A.F:  Desde a adolescência, dos 12 aos 15 anos eu ficava admirado em ouvir as radionovelas. Como todos os brasileiros eu as ouvia, mas a minha vontade era  participar, em estar lá, mas parecia um sonho de um adolescente que estava muito distante. Um dia, já com 18 ou 19 anos acompanhei minha tia até o auditório da Rádio Clube de Santos, onde seria dramatizado o último capítulo da novela "A Cabana do Pai Tomás". Lá, vi que era realmente o que queria fazer e procurei o diretor e me apresentei. Tive sorte, porque ele gostou da minha voz e disse que poderia até me encaixar num pequeno papel da próxima radionovela.
Aguardei esse chamado, mas veio para um personagem que participava de 5 capítulos. O pessoal da Rádio gostou muito da minha voz e depois dessa pequena participação, me deram a tarefa de locutor durante algumas horas do dia, mas logo outra Rádio concorrente acabaria me contratando para uma radionovela onde tive um personagem de destaque. Era a Rádio Cacique que, na época, tinha muita audiência !


C.S.: E como você chegou à televisão tão rápido ?

A.F.: Quando chegou a televisão, ninguém sabia exatamente o que seria feito com ela ! Essa era a realidade ! A Tv Tupi convocou pessoas, principalmente, do Rádio e um dia começou um boato de que haveria uma novela pela televisão. Mas, em 51, quem seriam os atores ?
O Walter Fóster escreveu uma história bem simples e fui para a Tv Tupi fazer um teste. O próprio Walter Fóster também seria o diretor e acabou me selecionando para um personagem.


C.S.: Como era fazer uma novela "ao vivo" ?

A.F.: Era um desafio, mas na época, não pensávamos assim. A novela , se não me falha a memória era exibida 2 ou 3 vezes por semana. O Walter escrevia o capítulo e tínhamos um ou dois dias para decorar e fazer um pequeno ensaio. A nossa vantagem é que os cenários eram poucos e necessitavam ser montados e desmontados a cada exibição. Então, num capítulo, poderia aparecer o escritório do Walter com um amigo e a sala de visitas da Vida Alves com dois personagens. Assim, havia atores que não participavam de todos os capítulos.


C.S: Você fez muitas participações na televisão, na década de 50, ainda "ao vivo" ?

A.F: Sim, essa novela chamou a atenção de excelentes diretores e adaptadores que criaram o TV de Vanguarda. O Dionísio Azevedo me chamou e disse que eu tinha uma carga interpretativa muito boa para fazer teatro na tv. Era exatamente isso que desejavam. Fiz diversos e aprendi muito com excelentes atores que começavam a vir do teatro para a tv, ainda com uma certa "desconfiança" do novo veículo.


C.S: E o seriado "O Falcão Negro" ?

A.F: Foi um seriado criado por Péricles Leal, onde tinha um heroi mascarado, que defendia os fracos dos vilões. Ficou cerca de 8 anos no ar. Eu participei de muitas histórias, às vezes era o vilão, em outras um padre, mudava bastante, mas havia uma tendência para os vilões e aí eu tinha que lutar espada (que era de madeira) com o José Parisi (o Falcão Negro). Nessas lutas, muita gente acabava se machucando. Lembro que o José Parisi levou um tombo muito grande certa vez. O mesmo ocorria na Tv Tupi do Rio de Janeiro, só que era o Gilberto Martinho que fazia o personagem. Tudo era "ao vivo". Fez muito sucesso com o público infanto-juvenil.



**A 1ª voz do Prof. Robinson em Perdidos no Espaço**


C.S.: E como surgiu a dublagem ?


A.F.: Quando a novela passou a ser diária, no início dos anos 60, houve um leque maior de possibilidades e acabei também participando de novelas da Tv Paulista, mas a coisa estava meio parada para mim, quando retornei à Tv Tupi e acabei me reencontrando com o José Parisi. Ele me sugeriu ir para a dublagem, porque era um novo campo de trabalho e ele próprio já estava dublando também. Fomos até a AIC e conversei com o Older Cazarré que disse que a minha voz não servia para desenhos, mas daria certo para os herois e vilões. Assisti a algumas dublagens e logo comecei. Isso foi lá pelo fim de 65, mais ou menos.



C.S.: Como foi esse novo trabalho ?


A.F.: No início, achei um pouco esquisito, mas depois fui pegando gostinho pela coisa e cada vez mais era escalado em filmes e séries. Dublei dezenas de atores e fiquei até o fim de 69 na dublagem.




**A 3ª voz do Capitão Kirk em Jornada nas Estrelas**




C.S: Qual o motivo da sua saída da dublagem ?


A.F.:  Começei a diversificar entre o Cinema e a Tv, porque a AIC estava com alguns problemas financeiros. Além do mais, eu havia acabado de dublar o capitão Kirk, em Jornada nas Estrelas, e uma pessoa me disse que a forma de dublar estava mudando e que eu ainda estava preso ao radioteatro. É lógico que isso quis dizer: "você não será mais escalado". Eu cheguei a ficar magoado porque eu começei a dublar o Kirk num momento de crise, onde dois dubladores já haviam saído e acharam que eu era a escolha certa. Foi um dos personagens de que mais gostei, por várias razões. O fato é que a minha dublagem continua sendo exibida pelo Brasil inteiro. É muito curioso !


C.S.: Há outros personagens ou atores de que você gostou também de dublá-los ?


A.F.: Apesar do Professor Robinson ter feito um enorme sucesso, eu necessitei me afastar por algum tempo da dublagem e fui substituído, mas ao retornar ganhei o personagem interpretado por Leff Erickson: John Cannon na série Chaparral. Gostei muito, porque era um homem que tinha que enfrentar um ambiente hostil e ao mesmo tempo ser pai e marido. Foi gratificante !



**A  1ª voz de John Cannon na série Chaparral**

 

C.S.: Algumas pessoas criticam a dublagem. Qual é a sua opinião ?


A.F.: São pessoas que ainda não perceberam a qualidade dos artistas brasileiros envolvidos, da sua dedicação e como o processo da dublagem, como um todo, é bem complexo. Hoje parece que está um pouco mais fácil, mas quando começei na AIC, os dubladores eram verdadeiros "herois da resistência" para se conseguir o melhor na dublagem. A prova do que estou dizendo está aí na tv. Alguém consegue imaginar o Dr. Smith sem a voz e a interpretação do Borges de Barros ?
Ainda falta muita sensibilidade para se reconhecer que a dublagem brasileira é excelente.


C.S.: Você possui algum projeto para o futuro: teatro, televisão, cinema. Pretende retornar à dublagem ?


A.F.: Em dezembro do ano passado terminou a novela "Vidas Marcadas" na Tv Record, da qual participei. No entanto, a emissora decidiu que não produziria mais novelas, pois a concorrência com a Tv Tupi e com a Tv Globo está muito difícil, portanto é mais uma porta fechada para nós atores. Como já participei de alguns filmes e gosto bastante de fazer Cinema, estou com uma proposta para o 2º semestre de integrar o elenco de um filme do Mazzaropi. Ainda não sei maiores detalhes, mas deve ser algum vilão !!!

Não tenho intenção de retornar à dublagem, apesar de gostar muito, mas em termos financeiros o retorno é difícil. As dublagens que realizei há quase 10 anos continuam sendo exibidas pela televisão e não recebo nenhum centavo por elas. Espero que um dia isso seja regulamentado e que possamos receber por um trabalho que é nosso de direito !

Muito obrigado !


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**VÍDEO 1: Astrogildo Filho dublando o capitão Kirk de Jornada nas Estrelas:
video

**VÍDEO 2: Astrogildo Filho dublando o Professor Robinson de Perdidos no Espaço:
video




** O ator e dublador Astrogildo Filho faleceu no dia 17 de fevereiro de 1983, aos 54 anos, vítima de um ataque cardíaco.

**Para aqueles que desejarem maiores informações sobre a sua biografia profissional, procurem "Dublador em Foco (03): Astrogildo Filho", postado neste Blog em 11/09/2008.


**Marco Antônio dos Santos**

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