31 de janeiro de 2012

ENTREVISTA COM RITA CLEÓS




ESCLARECIMENTO:  Esta entrevista da atriz e dubladora Rita Cleós faz parte do trabalho acadêmico "Os Desafios do Ator Brasileiro" realizado pelo amigo Emílio Carlos Ferreira Dias, o qual a entrevistou no dia 18 de novembro de 1981, nas dependências dos estúdios da TV Cultura de São Paulo, após a atriz ter gravado algumas cenas do Teleromance "Maria Stuart", que foi exibido em janeiro de 1982 pela emissora.

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INTRODUÇÃO: Meu objetivo é demonstrar como o ator brasileiro percorre o seu caminho, desafiando a tudo e a todos para que possa exercer a sua profissão. Nesta entrevista, com a atriz Rita Cleós, não procuro traçar os seus dados biográficos, mas sim a essência de como a atriz fez da Arte a sua vida englobando Cinema, Teatro, Televisão e Dublagem. Agradeço desde já a sua cortesia em aceitar a este convite.
                                  (Emílio Dias)

**ENTREVISTA**


1 - Quem é Rita Cleós ?

R: Bom, isso é você que irá descobrir no final !!! (risos). Eu sou um ser humano como outro qualquer que erra muito, tenta se corrigir e que gostaria de um dia dizer a mim mesma "Rita você está perfeita como ser humano", mas eu tenho plena consciência, minha auto-crítica é muito severa comigo mesma e sei que nunca chegarei a isso. Eu vivo tentando ser o melhor para minha família (deixo a desejar) e como atriz também faço o mesmo, embora eu deteste as críticas completamente irrracionais que alguns fazem. Hoje já não ligo para as críticas idiotas, mas sim para as inteligentes, porque são exatamente essas que me fazem crescer como atriz. Completando, eu sou uma criatura que sente todas as emoções que qualquer pessoa também as tem: amor, raiva, pena, choro quando necessito no meu cantinho e depois continuo, porque faço parte deste Universo !


2 - Como a Arte se entranhou em você ?

R: Você fez um levantamento biográfico sobre mim e sabe que minha infância foi marcada por uma situação que eu chamaria até de grotesca. Quando a guerra começou em 1939, estávamos na Alemanha há cerca de um ano. Durante todo o período da 2ª guerra mundial convivi com diversos quadros que o ser humano passou. Vi mães que perdiam filhos, famílias desoladas, a fome e o ódio sendo muito mais forte do que o amor. Todas essas situações que presenciei dos 8 aos 15 anos foram uma espécie de "laboratório" para ser uma atriz. Por incrível que pareça, havia até aquelas pessoas que mesmo com todo o sofrimento da guerra, ainda sorriam para a vida, tinham esperança. Todas essas cenas ficaram gravadas em minha memória e, posteriormente, eu senti que estava começando a gostar da arte de representar, porque eu poderia representar as diversas situações que a vida nos coloca. Sem sombra de dúvida foi isso ! Aqueles que também, por obra do destino, tenham participado de uma guerra, sabem exatamente do que estou falando! Não fiquei com neuroses, canalizei os desafios da vida para representá-los.


3 - Já que você mencionou a sua biografia, como você consegui aprender tantas línguas ? Fez cursos na Europa ?

R: Não! Na realidade o meu curso foi a própria guerra. Numa situação extrema você aprende muita coisa. Eu sempre gostei de estudar e aprender sobre a cultura de um povo. A língua é o seu maior exemplo. Então, foi sozinha que fui conversando com franceses, espanhois, alemães, ingleses e italianos que fui adquirindo o vocabulário, a maneira de se expressarem. Depois, quando voltamos ao Brasil eu continuei estudando línguas, só que sozinha, eu não queria perder o que havia conseguido, pelo contrário, e consegui falar fluentemente alemão, inglês, italiano e até um pouco de espanhol e francês. Cheguei até a dar algumas aulas particulares já aqui no Brasil !


4 - Como você iniciou a carreira de atriz, alguém te descobriu ?

R: Eu estava com cerca de 20 anos de idade e adorava ir ao teatro. Eu ficava de olhos fixos no que os atores faziam, suas expressões faciais, a posição de cada um no palco, enfim, eu vi que eu necessitava estar ali também ! Como boa fã de teatro eu me sentava quase sempre na frente, ou mais próximo possível. É lógico que pessoas importantes também assistiam e a minha figura começou a ser conhecida. Um certo dia um homem me procurou e me perguntou se eu desejava ser atriz. Evidentemente, aquilo foi uma canção para os meus ouvidos. Só que ele procurava uma atriz novata para o Cinema. Num primeiro momento, quase desisti, porque eu queria fazer Teatro, mas vi que ali poderia ser uma grande oportunidade de mostrar algo meu. Alguns dias dias depois, quando o procurei, é que fiquei sabendo que se tratava de Ruggero Jaccobi, um dos diretores da Vera Cruz, e fui aprovada no teste. Infelizmente, a personagem era muito sem graça no filme "Esquina da Ilusão", mas foi a minha vitrine !!!



5 - Você fez outros filmes na década de 50, mas parece que você não gosta muito de Cinema. Estou equivocado ?

R: Nos anos 50 eu fiz outros filmes, mas você não está errado não. O Cinema foi uma experiência válida, mas talvez eu não tenha tido oportunidades de bons roteiros ou de personagens. Todos que participei sempre me senti muito limitada como atriz, aliás, é difícil de você criar algo seu, porque o filme é mais do diretor ! Eu acho que a minha participação no filme "Macumba na Alta", foi onde desenvolvi um pouquinho mais, mas eu acho que todos os filmes que participei não me deram a chance de que eu gostaria. Depois dos anos 50, fiquei muito tempo sem fazer Cinema, realmente, o problema talvez seja meu, e não do roteiro ou do diretor. Aceitei fazer alguns filmes como experiência e para sobreviver também. O importante foi conhecer atores já consagrados como Nicete Bruno, Rubens de Falco e muitos outros que me ensinaram muita coisa.


**MACUMBA NA ALTA**

6 - E o Teatro ? Você também iniciou na década de 50, paralelamente ao Cinema ?

R: Eu fiz um caminho meio diferente, fui descoberta no Cinema e depois fui para o Teatro. Apesar da minha participação muito discreta, no meio teatral eu já era conhecida como uma iniciante, muitos diziam que eu tinha grandes possibilidades, mas nenhum diretor me chamava para nada. Eu creio que deve ter sido por volta de 57 que eu conheci o casal Sérgio Cardoso e Nydia Lici. Eles tinham uma companhia de teatro. Assisti a diversos espetáculos, até que um certo dia, o Sérgio Cardoso me disse: "Você só faz cinema ?" Vamos montar uma nova peça e precisamos de uma atriz, mas o personagem é bem pequeno." Eu nem o deixei terminar e aceitei de imediato. Fiquei um período nessa companhia, já com melhores personagens, até chegar o convite do Dionísio Azevedo para uma peça no TBC. Foi lá que conheci  e aprendi com os melhores atores do Brasil : Natália Thimberg, Fernanda Montenegro, Italo Rossi, Sérgio Brito, Paulo Autran, enfim, foi um período onde, praticamente, eu estava quase sempre em cartaz com alguma peça. Foi maravilhoso ! Algumas peças fizeram enorme sucesso como Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues, Hamblet de Shakespeare e Antígona de Sófocles. A década de 50 foi a consolidação do Teatro Brasileiro, que, infelizmente, a partir de 64 ficou amordaçado.


**COMPANHIA DE TEATRO SÉRGIO CARDOSO**


7 - A televisão também chegou na década de 50 para você. Como  foi a experiência da tv "ao vivo" ?

R: Com as minhas participações no teatro, o meu querido Dionísio Azevedo já estava também na TV Tupi e me convidou para um programa que fez história: o TV de Vanguarda. Eram adaptados semanalmente autores de diversas nacionalidades e tudo era realmente feito "ao vivo". Ninguém imaginava que um dia haveria o vídeo-tape ! Como, a maioria dos programas eram adaptados por Walter George Durst, extraordinário autor, eu aceitei  e fizemos diversos programas. Eu não era contratada da Tupi, apenas recebia pelo programa que realizava, uma vez que o elenco mudava para a outra semana. Eu não me lembro com exatidão , mas fiquei, talvez de 56 até 58 ou 59. Faz muito tempo e, infelizmente, ninguém se preocupou em filmar, ou seja, excelentes trabalhos foram totalmente perdidos. O TV de Vanguarda era o próprio teatro na televisão e foi talvez um dos mais importantes programas da tv brasileira que, ironicamente, sobraram somente algumas fotografias.

**RITA CLEÓS NO TBC**


8 - E depois vieram as novelas da Tupi ?

R: Eu já era bem conhecida também no meio da televisão, mas eu continuava com o teatro. Alguns anos depois, acho que em 62, a Tv Tupi me convidou para fazer uma novela. Naquela época, apresentaram para mim um contrato de 3 anos com a emissora. Nossa! Eu teria um contrato, com um salário fixo e isso é logico que o ator precisa para que ele possa  se doar mais ao teatro. Mas foi a pior coisa que fiz na minha vida ! Eu estava acostumada com grandes textos no teatro e a televisão , na época, vivia de dramalhões mexicanos os quais eram adaptados. Eu tive personagens muito ruins, o texto era ruim e estava presa a um contrato. O pior é que a Tv Tupi já estava encenando a sua péssima administração e havia atrasos de pagamento, não havia dinheiro para se fazer as novelas e tudo era caótico.


9 - Mas você já havia estado na Tupi com o TV de Vanguarda, o que se modificou ?

R: Para mim, a Tv Tupi da década de 50 foi totalmente diferente. Foi uma emissora que arrojava com a programação, que implantou a tv no Brasil, mas ainda tínhamos o seu grande fundador, Assis Chateaubriand, no comando. Quando assinei o contrato, tudo já havia se alterado e já estava nas mãos de quem não sabia comandar uma emissora, devido à enfermidade do Chateaubriand. Desde o início dos anos 60, a Tupi foi decaindo, tendo sim alguns grandes momentos, mas o seu encerramento, no ano passado, já era dado como certo! Muitos colegas ficaram sem receber durante meses e não receberam. Eu até acho que a Tupi só não encerrou antes, porque os profissionais amavam o que estavam fazendo, mas chegou um momento que ficou impossível !


**CENA DA NOVELA "O CARA SUJA" COM SÉRGIO CARDOSO**



10 - Mas você obteve um grande sucesso com a novela "O Cara Suja" na Tupi, não é verdade ?

R: Sem dúvida, olha eu acho que é a única personagem que eu me lembro de ter feito na Tupi, as demais até esqueci ! A Yara, conhecida por Biondina fez um enorme sucesso junto ao público. Eu recebi muitas cartas dos telespectadores. O que ocorreu é que essa novela foi uma adaptação do Walter George Durst e ele me escolheu para esta personagem. Eu fazia tanto sucesso quanto o Sérgio Cardoso, até a minha popularidade era maior com as mulheres que se identificavam, porém mesmo assim a Tupi atrasava salário e quando eu questionei o fato do sucesso da novela, aí fui repreendida e eu me achava explorada, porque a novela , a personagem dava a audiência para a Tupi e eu não podia reclamar de absolutamente nada! A administração resolveu (não sei se por minha causa ou não, ter um Diretor de Elenco) e convidaram a atriz Wanda Kosmo, que já era uma excelente atriz e lhe deram plenos poderes. Infelizmente, o ser humano quando o poder chega nas mãos, se altera significativamente.


11 - O que você quer dizer com isso ?

R: Ela beirava o autoritarismo  e, para ajudar começávamos a viver um período ditatorial no país.  A novela O Cara Suja estava para terminar, mas ninguém sabia o que colocariam no lugar. Faltando pouco mais de 20 dias, a própria Wanda Kosmo escolheu um texto mexicano e ela mesma começou a adaptar. Ela, além de participar da novela (tendo uma personagem), também ficou sendo a diretora. Eu já estava contando os dias para sair de lá, creio que faltavam uns 3 meses para terminar o tal contrato. Ela me escalou para essa novela que teve o nome de "O Pecado de Cada Um". Eu tentei mostrar a ela que estava terminando o contrato, que vinha de uma outra novela, que eu tinha sofrido um acidente de carro muito sério e que não tinha condições de participar. Mas , apesar de tudo, ela me obrigou pela força do contrato. Aí, eu vi que os obstáculos do artista no Brasil ultrapassam muitas coisas. A minha sorte é que a novela foi um fracasso. Primeiramente, o excelente Henrique Martins desistiu de fazer o personagem principal e , se não me falha a memória, ocorreu quando foi para a Globo fazer O Sheik de Agadir. No desespero, convidaram o Francisco Cuoco para substituir. Eu não tenho certeza, mas eu acho que foi a 1ª novela dele. O texto ruim, mal adaptado, fez com que só durasse uns 4 meses e aí me libertei definitivamente da Tupi.


**RITA CLEÓS E FRANCISCO CUOCO **



12 - E na Tv Excelsior foi diferente ?

R:  Completamente ! A Excelsior era a grande rival da Tupi e da Record nas novelas. Eles conseguiram implantar uma grade de programação com novelas, programas humorísticos, shows e tinham um respaldo financeiro enorme. O Raimundo Lopes já estava começando a esboçar a novela Redenção e pediu para a emissora convidar o Cuoco e a mim. Fomos ganhando três vezes mais do que na Tupi e éramos respeitados como atores. A novela foi um enorme sucesso ficando dois anos no ar. Não sei de onde o Raimundo Lopes criava tantas situações. Entravam atores, saíam, mas existia uns sempre fixos e a minha personagem, a enfermeira Diana, era fixa, apaixonada pelo médico, mas este não a correspondia. Em dois anos recebi mais de 1000 cartas , a maioria torcendo pela personagem, mas o melhor de tudo foi que todos os atores eram amigos e a Excelsior despontava com as melhores novelas, contratações de artistas, ela implantou uma estrutura muito avançada para os anos 60.

**CENA DE REDENÇÃO: RITA CLEÓS E ARMANDO BÓGUS**



13 - Parece que na Excelsior você se encontrou como atriz de tv. Você teve outros sucessos ?

R:  Sim, você está certo ! Eu fiz outras novelas como Legião dos Esquecidos, do próprio Raimundo Lopes, Sangue do meu Sangue foi um sucessso imenso e a minha personagem era uma cortesã no Rio de Janeiro, em pleno século XIX, mas com a Censura de olhos bem abertos. Depois fui convidada pelo Carlos Zara para a novela Dez Vidas, onde eu faria a rainha Dona Maria I, conhecida historicamente como a Louca. Eu fiquei muito assustada com este personagem e a Ivani Ribeiro e o Zara tiveram uma ideia brilhante: como a Censura não deixaria passar nada dos atos da rainha, eles me orientaram que eu não a fizesse como louca, mas sim bem crédula num padre, seu conselheiro. O personagem do padre era fictício e ele dava as ideias para a rainha executar. Fiz uma rainha meio bobinha, conduzida pelo padre. Quem fez este personagem foi o ator Geraldo Louzano, o qual nunca mais tive notícias. A Censura não se incomodou porque era tudo muito sutil e o personagem histórico não foi manchado. No final desta novela, se iniciava a trama para fechar a TV Excelsior.


14 - O que você quer dizer com a palavra trama ?

R: A Tv Excelsior funcionou de 1960 a 70. A família proprietária possuía um enorme patrimônio, inclusive banqueiros. Como que em 10 anos, acabou tudo ? Nada foi nos explicado direito. Muitos artistas tentaram resistir, mas essa história do fechamento da Excelsior está ligada ao momento político da época, sem dúvida. Houve até um incêndio misterioso. A pergunta seria a quem interessava o encerramento da Excelsior ? Categoricamente só interessava a uma emissora que necessitava se firmar e aproveitar também o declínio da Tupi e Record. Você deve saber da qual estou me referindo ! Talvez, um dia os fatos sejam bem esclarecidos!


15 - Você fez durante muito tempo dublagem. Como foi isso para a atriz Rita Cleós ?

R:  Foi maravilhoso. Os artistas, quando a dublagem iniciou, não sabiam direito se isso ficaria, se o povo aprovaria. Essa ideia não passava pela minha cabeça, mesmo porque primeiramente foram convidados os radioatores. Eu não havia trabalhado em Rádio. Um dia, eu estava conversando com a Márcia Real e ela disse para mim:" por que você não faz dublagem ? Sua voz é ótima, interpretação também !" Lembro bem que fomos até a AIC, era novembro de 62, e ela me apresentou ao Garcia Neto, que imediatamente me levou até o Wolner Camargo. A Márcia Real fez toda a minha propaganda, mas quando ela disse que eu sabia línguas estrangeiras, imediatamente o Wolner quis me contratar como tradutora dos filmes, porque a demanda era imensa. Ele nem pensou em dublagem! Como eu fazia, eventualmente, traduções de livros, porém sendo obrigada a utilizar pseudônimos masculinos eu aceitei. Aí, ele me levou a um estúdio e disse que a tradução para dublagem era um pouco diferente. Eu tinha que me preocupar muito com o português para o dublador. Recomendou que eu assistisse à diversas dublagens. Fiz isso durante uns 15 dias e fui pegando o jeito da coisa, a tão chamada sincronia. Era espetacular assistir a praticamente um radioteatro bem diferente. E assim eu entrei como tradutora na dublagem.

**CENA DA SÉRIE "DECOY": A ARMADILHA"**


16 - Como você passou de tradutora a dubladora ?

R: Eu fiz diversas traduções de filmes, mas quando eu assistia  a alguma dublagem, dizia para mim mesma que eu gostaria também de estar lá. Aí, acho que foi em 63, chegou uma série para tradução chamada Decoy. A série era bem avançada em temas para a época. O primeiro problema que tive foi com o título, porque na realidade queria dizer "as armadilhas da vida humana", então dei como título "Casey Jones: casos de polícia". O Wolner Camargo, junto com o Garcia Neto não aprovaram o título, porque a mulher ainda estava lutando pelos seus direitos. O Wolner Camargo decidiu que ficasse o título original "Decoy": A Armadilha". Provavelmente, quem assistiu não conseguiu fazer a co-relação, mas era ainda o início dos anos 60. Nesta mesma ocasião, eles comentaram que não sabiam quem colocar para dublar a atriz Bervely Garland. Foi quando eu mesma me ofereci. Houve um certo espanto dos dois, mas de imediato o Garcia Neto me propôs um teste. Eu fiz e me saí muito bem e ganhei a personagem. Infelizmente, a série não obteve o sucesso esperado e acabou sendo cancelada antes do término. Mas, logo em seguida, veio a série Cidade Nua e eu acho que o Wolner me escalou, embora fosse um personagem pequeno, porque Decoy não emplacou. Ele mesmo dirigiu o teste para a Libby e fiquei dublando e ainda traduzindo filmes e alguns episódios de séries, quando surgiam.


17 - E Samantha ? A série A Feiticeira é exibida até hoje com sucesso !!

R: Essa série não veio para as minhas mãos para ser traduzida. Foi já por volta de 65, acho eu, e foi para o Hélio Porto. Eu nunca vi um tradutor tão competente como ele, parecia que ele adivinhava o que daria certo e aí eu já estava dublando mais do que traduzindo e o Hélio me escalou para um teste. Ele chamou a mim, a Nícia Soares e não tenho certeza se também a Neuza Maria. Após o teste, eu perguntei o motivo da alteração do nome para James  e ele disse: "Rita, é um nome mais conhecido no Brasil que dá sincronia perfeita, as pessoas vão se identificar mais".
 Eu fui escolhida por ele, mas a Columbia Pictures vetou baseada que eu não tinha experiência em Rádio e até em dublagem e escolheram a Nícia. Eu não posso afirmar, mas pode ter havido alguma interferência do Waldir de Oliveira, uma vez que ele era o marido da Nícia e muito conceituado com a Columbia devido ao desenho Os Flintstones. Eu digo isso, porque o que o Hélio indicava dificilmente era contestado por alguma distribuidora. Eu era muito amiga da Nícia, mas ela sempre disse que gostava de fazer participações em séries, desenhos, filmes. Um personagem fixo a prenderia muito tempo no estúdio. O fato é que ela se afastou no princípio da 2ª temporada e, eventualmente, surgia dublando algo.


**A FEITICEIRA: SUCESSO ABSOLUTO**



18 - Quando você assumiu a personagem Samantha, a rotina da sua vida mudou muito ?

R: Muito, completamente. Em primeiro lugar eu não tinha mais tempo para traduções, porque além de ter muitas cenas para dublar, eu ainda fazia novelas na Excelsior. De vez em quando outro diretor me escalava para algo, convidado em série, algum desenho (embora eu não gostasse de dublar desenhos) e, infelizmente,  dublei poucos filmes devido a isso tudo. Mas como a série foi muito longa, nós viramos uma família muito querida. Aprendi muito com o Olney, fantástico diretor, dublador e foi ele que me disse: " Rita essa voz da prima Serena não está boa, ela é toda diferente, a voz também deve ser, meio arrogante, um ar de superioridade". Eu nunca fui uma dubladora de fazer muitos falsetes e aí empostei a voz, dei risadas diferentes e ele achou ótimo. Mas todos que participaram estavam com muita dedicação, tenho saudades quando vejo na tv algum episódio.


19 - Por que você não gostava de dublar desenhos ?

R:  Eu penso que o ser humano deve saber e ter consciência do seu potencial. Como disse, eu não conseguia fazer falsetes para personagens e também pelo fato de que eu via o elenco de dubladores que faziam as vozes dos desenhos. O Olney parece que herdou do irmão, o Older Cazarré, o talento. O Waldyr Guedes fazia todos os tipos de vozes. Então eu sempre procurei me fixar naquilo que o meu potencial poderia desenvolver. Dublei algumas coisinhas, mas foi para substituir alguém, deve ter sido.

**SAMANTHA E A VOZ DE RITA CLEÓS** 


20 - Algum fato interessante marcou a dublagem de A Feiticeira ?

R: Sim ! Eu traduzi um episódio da série. E foi um grande desafio. O Olney já havia assistido em inglês, viu o texto e me procurou dizendo: eu acho que só você consegue traduzir isto. Era uma história onde Samantha fica com uma doença e os sintomas são falar rimando. Não havia como fazer quase nada de correspondência entre as línguas. A minha sorte é que no episódio citavam que as rimas eram muito pobres, fracas. Aí, começei a fazer essas frases rimadas e algumas foram muito ruins, mas ficou engraçado. Eu me lembro que utilizei a palavra "teteia" só para poder rimar com geleia e por aí foi.  Eu mesmo ria das rimas horríveis que criava....


21 - A AIC também encerrou as atividades, depois de alguns anos, assim como a Excelsior. Por quê ?

R: Eu fiquei quase 11 anos na AIC e saí muito triste, que tomei a decisão de não dublar mais nada, porém depois retornei um pouco. Desde 62 até 73, quando saí, eu fui vendo o declinio do estúdio. Todos os dubladores viam, só o sr Mário Audrá não enxergava. Eu o considero muito como uma mente empreendedora no Cinema e também na dublagem, mas muito disperso daquilo de que deveria liderar e as coisas sairam do seu comando. Quando saí, fiquei sem receber diversos anéis dublados de A Feiticeira. Se a série continuasse, certamente haveria outra dubladora. O Olney foi um dos que mais lutou até o fim, mas sabíamos que era somente uma questão de tempo ! Infelizmente, este estúdio poderia até hoje estar funcionando, mas havia pessoas erradas em lugares errados !


22 - Depois de tantos anos afastada da tv, o que te motivou a retornar na TV Cultura ?

R: Eu recebi este convite do diretor Edison Braga e o aceitei porque vejo um trabalho sério, em termos de televisão, onde há uma adaptação da peça Maria Stuart de Friedrich Schiller. O rapaz que fez a adaptação, Carlos Lombardi, promete ser um bom  roteirista para a tv. Além disso, está sendo um grande reencontro com Natália Thimberg, Kate Hansen, Lélia Abramo e outros. Para a televisão, eu só venho quando me convidarem para algo sério, bem escrito, com objetivos.


23 - Para nós, que estamos começando a carreira artística o que você aconselha ?

R: Estudar sempre, seriedade naquilo que faz, não se submeter às hipocrisias humanas que envolvem o meio artístico (Teatro, Cinema, Televisão e Dublagem).

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OBS: Rita Cleós nasceu em 29 de setembro de 1931 na cidade de Blumenau (SC) e faleceu no dia 25 de abril  de 1988 na cidade de Curitiba (PR).


***Agradecemos ao amigo Emílio Carlos Ferreira Dias por ter nos concedido esta entrevista de Rita Cleós, de importância fundamental para a Arte no Brasil.***

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**Vamos relembrar algumas dublagens de Rita Cleós:


**VÍDEO 1/ A FEITICEIRA: um trecho do episódio O Verso e o Reverso: tradução de Rita Cleós.
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**VÍDEO 2/ Rita Cleós dublando no filme "Melodia Imortal" ao lado do saudoso dublador Ronaldo Baptista:
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**Marco Antônio dos Santos**

3 comentários:

Wilson disse...

Como dito Rita Cleós não gostava de dublar desenhos e são poucos seus trabalhos nessa área que eu conheça, mas pelo que eu pude apurar ela dublou a Hecket no anime A Princesa e o Cavaleiro na AIC, dublou o Grilo Falante no anime Pinóquio na Álamo, além de participações nos desenhos do Pica-Pau e sua turma na BKS. Me corrijam se eu estiver errado e se alguém conhecer mais algum desenho que ela tenha dublado é só postar para a nossa curiosidade.

Arquimedes Estrázulas Pires disse...

É magnifico o sentir de emoções tão vivas, tão fortes e tão verdadeiras, que ocorre quando vemos uma fotografia, assistimos a um filme ou ouvimos qualquer coisa feita, escrita ou dita por pessoas a quem queremos bem, independentemente do tempo que estejam longe dos nossos olhos e das nossas vidas.
Rita Cleós enfeitou algumas centenas de filmes que dublou e outras tantas encenações de que participou no Teatro e na TV.
A saudade de Samantha esta presente, claro. Mas só a de Rita Cleós motiva essa emoção.
Afinal de contas ela também faz parte do Mundo Mágico produzido pelos Estúdios da AIC... São Paulo na memória de todos nós.

Nathalia Cavaliere disse...

só posso dizer que foi maravilhoso assistir Rita Cleós ...presente certo para mim.

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