22 de agosto de 2011

A DUBLAGEM NO CINEMA NACIONAL


"Durante muito tempo o som de filmes brasileiros era inaudível. Hoje, a situação melhorou bastante. Mesmo assim é possível observar falhas de captação. Será um problema de equipamento? Não! Este aspecto faz parte de uma característica da escola brasileira de fazer cinema, que não dá a importância necessária ao som."

A opinião é do editor de som, microfonista e compositor de trilha musical Gustavo de Souza.

O problema do áudio nos filmes nacionais sempre foi uma espécie de "perseguição" a qual nunca pode escapar. Com efeito, se relembrarmos as chanchadas da década de 1940, a grande saída era torná-las um musical, a fim de que pouco se percebesse a grande dificuldade de uma captação do som, mesmo dentro de um cenário, em externas era impossível.

Aqui, devemos frisar que as salas de cinema também não estavam preparadas para os filmes brasileiros, já os filmes americanos não demonstravam essa questão por dois motivos: o investimento no áudio era muito superior ao nosso e, mesmo que algum filme apresentasse um áudio mais difícil, todos entendiam, porque simplesmente tinham as legendas para solucionar a compreensão dos diálogos.

"A década de 1950 marca, em São Paulo, a tentativa de se implantar a indústria cinematográfica, juntamente com a inauguração de um importante movimento teatral, marcado pela fundação do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) e a implementação das artes plásticas, abrindo as portas do MAM (Museu de Arte Moderna). A fundação da Vera Cruz fez parte de um projeto estético-cultural mais amplo, que previa para São Paulo a vitalização da vida cultural, conduzida pela burguesia industrial buscando uma hegemonia na vida política e cultural do país.

A produção da Vera Cruz era caracterizada por um sistema de estúdios, com a preocupação de produzir industrialmente seus filmes, que constituíam dramas universais, no melhor estilo hollywoodiano, lançando no mercado um verdadeiro star-system composto por nomes como de Tônia Carrero, Anselmo Duarte, Jardel Filho, Marisa Prado, Eliane Lage entre outros."

**ANSELMO DUARTE NO FILME TICO-TICO NO FUBÁ**

"O grande salto dado pela Vera Cruz foi sem dúvida o qualitativo técnico, pois era bem equipada, contava uma equipe técnica - maior parte estrangeira - que trazia consigo a experiência de fora, suas produções traduziam a preocupação de ser um cinema sério, bem diferente das chanchadas cariocas produzidas pela Atlântida. No entanto os motivos de fracasso do estúdio são, entre outros, alto custo dos seus filmes, a ausência de uma distribuidora própria - sofrendo dificuldades de escoar seus produtos ao mercado e salas de cinema brasileiras.

É nesse período (1950-54), que surge a idéia da dublagem dos filmes nacionais, assim, com o som de estúdio, o telespectador conseguiria compreender muito bem. Mas, estamos falando do início da década de 1950, quando a dublagem nem existia para a televisão, era algo ainda muito arrojado. Dessa forma, a opção natural era que os próprios atores fizessem a dublagem de seus personagens, porém nem todos conseguiam.

 Grandes problemas começaram a ocorrer, uma vez que a maioria dos atores não conseguia realizar a dublagem. Após algumas tentativas, Adolfo Celi resolveu convidar radioatores, que dublaram nos próprios estúdios da Vera Cruz. Assim, a atriz Eliane Lage ficou com a voz da radioatriz Gessy Fonseca.

 O problema persistiu por muito tempo e, é lógico, que o público sempre criticou o áudio do cinema nacional. A falta de incentivo do governo brasileiro à Cultura, os altos custos para equipamentos sempre fizeram que o cinema nacional recorresse à dublagem.

 Após o início da dublagem para a televisão, com estúdios em São Paulo e no Rio de Janeiro, adotou-se como prática comum a finalização sonora num estúdio de dublagem durante toda a década de 1960, 70 e até quase o final da de 80. Em São Paulo, em 1963, com o surgimento do estúdio Odil Fono Brasil, abriu-se um grande canal para as dublagens do cinema brasileiro.
 A AIC, praticamente, era dominada para as dublagens de filmes americanos, desenhos e séries de tv.

Sendo assim a Odil foi um estúdio que talvez tenha realizado um número maior de finalizações sonoras para filmes brasileiros, ganhando até do estúdio Herbert Richers. Embora a AIC tenha dublado diversos filmes brasileiros, principalmente os produzidos por Zé do Caixão, a Odil Fono Brasil e a Herbert Richers foram os dois estúdios que mais dublaram filmes nacionais."

Sendo assim, em todos os filmes criou-se algo muito curioso: tínhamos as vozes dos atores principais (quando conseguiam dublar os seus personagens) e dubladores conhecidos para personagens secundários, às vezes, até para os protagonistas. No filme "Um Certo Capitão Rodrigo", produzido na dédada de 1970, protagonizado pelo falecido ator Francisco Di Franco, encontramos a voz do dublador Lauro Fabiano.

 A situação do áudio no cinema brasileiro é algo que até hoje ainda não está totalmente resolvido, devido aos altos custos para investimento.

 Vejam esta entrevista de Ana Chiarini:

**O PAGADOR DE PROMESSAS (1962)**

Ana Chiarini possui graduação em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo (1990) com habilitação em Cinema. Atua principalmente nas áreas de Edição de Som e Edição de Diálogos para Cinema.

Você trabalha muito com edições de som, especialmente de diálogo. Como se dá o processo da edição do som por completo, e como é a relação entre a equipe de som no processo de edição?

Primeiro recebemos o copião montado do filme, ou seja, a imagem montada. Muitas vezes, essa imagem não está fechada, o que significa que ela ainda pode passar por mudanças – o diretor ainda não está certo de algumas decisões, o montador prefere “afinar” a montagem com a música ou alguns planos terão algum efeito visual que demora mais tempo para ficar pronto.

Nesse momento, é essencial que a montagem nos forneça todas essas informações, pois elas afetam o trabalho de edição de som. A partir daí, o supervisor de som se reúne com diretor e montador e discute decisões estéticas. A partir dessas discussões, é feito um mapa sonoro, uma decupagem, de quais sons serão usados em quais momentos do filme. Alguns são bastante óbvios, outros nem tanto.

 Esse é o momento de traçar uma estratégia de trabalho, de acordo com o desejo do diretor, as sugestões do supervisor de som e, obviamente, o orçamento. A seguir começa o meu trabalho, o do editor de diálogos. É minha função cuidar do som direto do filme e tudo o que se relacione a voz (o que inclui as dublagens e os vozerios). Eu ressincronizo, limpo, busco alternativas para planos de som problemáticos, avalio a necessidade de dublagem (por razões técnicas, não artísticas.

Cabe somente ao diretor decidir dublar uma fala de um ator por não gostar da interpretação), faço mapas de dublagem e vozerio e preparo as pistas de som, já visando a utilização dessas dublagens. Isso feito, ainda que não tenhamos as dublagens e os vozerios gravados, os outros membros da equipe já podem começar a trabalhar. É sobre o som direto do filme que os outros elementos serão adicionados (ambientes, ruídos e música).

O diálogo é a referência para o resto. É importante que o editor de ruídos de sala saiba que o diálogo do filme está sincronizado e limpo e que, por exemplo, aquela batida de porta do som direto que ele vai querer reforçar, já está no lugar correto e não será modificada nem 1 fotograma. E para os músicos, é necessário saber onde os ruídos (que foram colocados muitas vezes em relação ao diálogo) estarão, para compor sua música. Ou seja, se há modificação na imagem, haverá modificação no diálogo que afetará os outros editores e os músicos. É um efeito dominó. E todos devem estar bem coordenados.

  ***O CASO DOS IRMÃOS NAVES (1967)***

           **Aqui, temos dois vídeos interessantes: o primeiro é um trecho do filme Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos, no qual percebe-se, claramente, todo o trabalho da nitidez do ruído da chuva, mesmo com as falas das personagens. Este filme foi finalizado no estúdio Herbert Richers por volta de 1963/64:
 

**Neste segundo vídeo, temos um pequeno trecho do filme "O Caso dos Irmãos Naves" de Luís Sérgio Person. Aqui, encontramos os dubladores Borges de Barros, Neville George, Waldyr Guedes e Osmiro Campos dublando personagens secundários. Esta dublagem foi realizada pelo estúdio Odil Fono Brasil em 1967/68:


**FONTE DE PESQUISA: Enciclopédia do Cinema Brasileiro e Acervo Pessoal.



**Marco Antônio dos Santos**

1 comentários:

ADEMAR AMANCIO disse...

Mil vezes obrigado.Eu sempre quis saber como acontecia esse tipo de dublagem,que a maioria nem sabe que existia.Eles acham que se o filme é nacional não pode ser dublado.

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