6 de abril de 2011

ENTREVISTA COM OSMIRO CAMPOS


1 - Qual é a sua cidade natal ? Como você descobriu que queria seguir a carreira artística ? Teve outras profissões anteriormente ?

R: Sou de Pelotas (RS), mas não conheço a minha terra. Fui funcionário público federal, dos 14 aos 16 (ECT - Empresa de Correios e Telégrafos) em Porto Alegre/RS.  Me descobriram: fui acompanhar um colega para ler as deixas para ele, num teste para radioteatro, e acabei sendo aprovado. E o meu amigo acabou lançando uma revista sobre artistas de rádio no RS.

2 - Você chegou a ser radioator ? Quais os caminhos que te levaram para a dublagem no antigo estúdio Gravasom ?

R: Comecei a carreira como contra-regra em Rádio (Rádio Difusora de Porto Alegre - PRF-4 - dos Diários Associados). Depois. locutor na Radio Cachoeira do Sul / RS. Radioator nas emissoras: Rádio S.Paulo, Mundial e Mayrink Veiga e Tupi/RJ. Galã exclusivo das novelas da Colgate-Palmolive (elenco escolhido pela cubana Glória Magadan, que estruturou o departamento de novelas da TV Globo). Rádio Gaucha de Porto Alegre /RS. Locutor na Rádio Bandeirantes de SP (1964 a 1966). Os caminhos para a Gravasom se iniciavam se você fosse radioator. Os atores de teatro não se rebaixavam a fazer dublagem (à época, dublagem era subarte).

3 - Naquela época, bem no início da dublagem, você recebeu orientações de qual(is) diretores de dublagem, que foram fundamentais para a o exercício do teu trabalho?

R: Quem me ensinou a abrir a boca e falar com naturalidade na dublagem foi Carla Civelli - estúdio da CineCastro/Rj. E o que ela me ensinou para a dublagem serviu para a minha profissão de um modo geral. Com todos os demais diretores eu aprendi alguma coisa.

4 - Na AIC, sua presença sempre foi constante em diversos tipos de personagens: de vilões a heróis. Um de seus primeiros personagens fixos foi na série Rota 66, dublando o ator George Maharis. Foi o seu primeiro personagem fixo ? Como você o obteve ? E quem dublava o seu amigo interpretado pelo ator Martin Milner ?

R: Rota 66 foi o primeiro fixo em séries para TV. Ganhei o personagem num teste entre os dubladores na AIC. O Tod quem fazia era o Amilton Fernandes, um ator que fez o Albertinho Limonta em O DIREITO DE NASCER na TV TUPI/SP e, depois, estrelou várias novelas na TV Globo (entre elas, o Sheik de Agadir) O Amilton também era de Pelotas/RS.


**GEORGE MAHARIS NA SÉRIE ROTA 66: SEU 1º PERSONAGEM FIXO**

5 - Seguindo a tua carreira, participando também em filmes, você participou de quase todas as séries da década de 1960 para a tv. O capitão Lee Crane da série Viagem ao Fundo do Mar (substituindo Hélio Porto) e o inspetor Kobick da série Terra de Gigantes. Personagens com características totalmente opostas. Como foi desenvolver essas dublagens ?

R: Só fiquei sabendo disso 20 anos depois, por acaso. Do Kobick não lembro. Lembro do Karas da série japonesa Spectreman. Lembro do marido da Feiticeira (Rita Cleós) em poucos episódios. Substitui o Olney Cazarré, porque o ator americano (Dick York) ficou doente e o ator Dick Sargent o substituiu. Lembro de ter dublados mais alguns, mais de 100. Entre eles: Glen Ford, Jack Lemon, Ricardo Montalban, Alain Delon (Le Chien - acervo da TV Cultura/SP) Al Pacino (Autor, Autor) Dustin Hofman (Tootsi - versão para avião / VARIG) Tyrone Power (Capitão de Castela da FOX/TV Globo).

6 - Você participou de comédias, com um desempenho ótimo, como dublar o ator Dick Sargent na série A Feiticeira. Qual gênero que você mais gosta de dublar ? Por quê ?

R: Comédia, por ser mais dificil, são trabalhos que exigem mais do ator, portanto mais gratificantes (se você consegue um bom resultado,o que nem sempre acontece) Ex.: o ator Jack Lemon, em comédias, dá trabalho ao dublador. Se você consegue fazer um bom resultado, é uma grande recompensa profissional.

7 - As dublagens eram realizadas todas em conjunto. Há algum fato curioso ou engraçado que você se recorde quando estava gravando as séries A Feiticeira, Terra de Gigantes ou Viagem ao Fundo do Mar ?

R: Não tinha, porque substitui o Olney Cazarré na Feiticeira, pois o Dick Sargent era quase que irmão gêmeo do ator que adoeceu. Eu relutei, mas os donos da série achavam que tinha, uma vez que mudando o ator tinha de alterar também o dublador. Houve muita coisa hilária, mas não lembro.


**A 1ª VOZ DE DICK SARGENT (JAMES)EM A FEITICEIRA**

8 - Quais seriam as boas recordações que ficaram do período da AIC ?

R: As boas foi ter aprendido muito com o diretor Wolner Camargo, com o Glauco Mirko Laurelli, outro respeitado diretor de dublagem e um dos montadores de O CANGACEIRO no cinema.

9 - Segundo o nosso banco de dados, você se retirou da AIC por volta de fins de 1970/ início de 1971, quando a crise econômica da empresa começou a se agravar. Você continuou dublando ou foi tentar teatro, tv, etc ?

R: Continuei dublando, mas bem menos. Já fazia teatro (Cemitério de Automóveis e Lisístrata, na Cia Ruth Escobar; Os Pequenos Burgueses no Teatro Oficina, temporada de Belo Horzonte, substituindo o Chico Martins; Comedia Atômica de Ciro Bassin, Teatro Gazeta. A Torre em Concurso, no Teatro de Arena da Guanabara, com direção do Afonso Grisoli. TV fiz pouco (RJ e SP).

10 - O personagem Professor Girafales é conhecido há 30 anos. Como foi dublar esse personagem. A repercussão desse seriado te deixou surpreso ?

R: Acho que todos os dubladores ficaram surpresos. Porque o Chaves não é apenas uma série de Tv, como Chaplin não foi apenas um homem de cinema. A série Chaves é um manual a ser seguido por quem produz infantis para a TV: não se brinca quando se escreve para criança. A criança é o espectador mais difícil de agradar, porque ela não entende a linguagem da falsidade. E o Chaves é uma montanha de valores universais dramatizados com seriedade e responsabilidade. Ficam Chaplin e Chaves. Como ficou Dom Quixote, como vai ficar Millor Fernandes - outro tipo de humor. O resto vai pra vala comum do esquecimento.

**PROFESSOR GIRAFALES: SUCESSO ABSOLUTO**

11 - De todas as dublagens que você realizou, qual ou quais você acredita que o Osmiro Campos foi melhor ? Aquela que você gostaria de ser sempre lembrado.

R: O Prof. Girafales.Nada mais.

12 - Atualmente, você, que foi um dos pioneiros na dublagem para a tv, como analisa os aspectos positivos e negativos da dublagem da década de 1960 e de 2011 ?

R: Começando pelos negativos:

O principal deles: o não pagamento de direitos autorais ao dublador. Um desrespeito à lei sobre o assunto. Dublador não assina contrato, por isso é esbulhado, por isso é lesado nos seus direitos. No Brasil, os nomes dos dubladores não aparecem nos créditos dos filmes. E é lei. O Chaves está ha 30 anos no ar (27, acho) e nunca pagou um centavo de direito autoral.


Os positivos superam em muito os negativos: O salto da qualidade artística dos atores em dublagem é difícil de quantificar. As novas safras de atores em dublagem é rica de talentos; quando eu ouço fico pasmo.

Porque sei que dublagem não é uma coisa fácil, que qualquer um faz: o dublador tem que fazer como está no filme, no desenho; nem mais nem menos. E isso nos tempos dramáticos impostos pelo ator que está sendo dublado. Tem que começar e terminar em sincronismo como ator que está na tela: fazer isso e ainda por cima com a qualidade que se vê na dublagem de hoje pode parecer fácil pra quem está assistindo o filme. Para quem faz é um trabalho árduo. Parafraseando Almirante, a maior patente do rádio brasileiro: "Dublagem é diversão para quem vê, para quem faz é um trabalho como outro qualquer".

Fica a esperança de que a classe dos dubladores em dublagem no Brasil seja respeitada como acontece na Itália, na Espanha, nos Estados Unidos, no México etc. Os primeiros passos já estão sendo dados, porque além de ter crescido na qualidade artística os atores em dublagem estão se conscientizando de que nao são apenas artistas - coisa que massageia o nosso ego - mas são, principalmente, trabalhadores em atividades culturais. Numa palavra: TRABALHADORES.

13 - Quais são as tuas atividades atualmente ?

R: Dublo o prof. Girafales. Faço teatro; há 9 anos no elenco de Trair e coçar é so começar.

14 - Há milharees de fãs teus, tanto do período Gravasom / AIC, como do Professor Girafales, que mensagem você poderia transmitir a tantos fãs ?

R: Agradecer, respeitosamente, o carinho que nos dedicam. É a melhor das recompensas ver que o resultado do seu trabalho floresceu nos corações de algumas gerações: de pai para os filhos e dos filhos para os netos. São todos chavemaníacos. Ver os olhos de alguém se encherem de lágrimas quando, numa esquina qualquer deste Brasil, eu faço o TÁ-TÁ-TÁ-TÁ...TÁAAA!!!é, também pra mim, uma grande emoção. Obrigado, de coração!

**Osmiro Campos faleceu em 05 de julho de 2015, aos 82 anos.**

**Vejamos alguns vídeos, relembrando a dublagem de Osmiro Campos**



**SÉRIE ALÉM DA IMAGINAÇÃO: EPISÓDIO "O HOMEM NERVOSO"**
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**SÉRIE VIAGEM AO FUNDO DO MAR / 2ª VOZ DO CAPITÃO CRANE**
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**SÉRIE A FEITICEIRA / DICK SARGENT**
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**Agradecemos a Osmiro Campos por este depoimento enriquecedor para a história da dublagem**


**Marco Antônio dos Santos**

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