10 de fevereiro de 2011

2ª ENTREVISTA COM ALIOMAR DE MATOS




**Primeiramente, eu gostaria de agradecer a você, Aliomar de Matos, por esta 2ª entrevista. Ela se originou de uma personagem muito querida por muitos fãs, os quais sempre pedem mais informações sobre a irmã Bertrille: aquela freirinha que voava tanto e que você dublou com tanta dedicação.



1 - Como foram os testes para dublar a irmã Bertrille ? Você conseguiu o personagem de imediato ?


R – Na verdade Marco Antônio quem me escalou pra dublar a Irmã Bertrille foi o Sílvio, como ele assistia aos filmes antes de todos, por força do seu trabalho, onde tinha de sincronizar as bandas internacionais e fazer a marcação dos diálogos para a dublagem, quando ele viu o filme ele me chamou e disse : Chegou uma série com uma freirinha que voa que é a “cara da sua voz” a atriz se chama Sally Field,  faça o teste que este é seu. Nesse dia eu estava dublando no estúdio 2 e me chamaram ao estúdio 4 pra gravar alguma coisa, não disseram o que era, quando cheguei lá era para dublar uma freirinha que voava, quando vi a freirinha senti na hora que ganharia aquele teste, pois não só a minha voz se encaixava perfeitamente na personagem, como as atitudes, alegria e ingenuidade também tinha tudo a ver comigo, me apaixonei de cara pela irmã Bertrille e ganhei o teste feito meio sem saber que era teste, pois eu não sei quantas atrizes e nem quais fizeram teste para dublar a Sally Field.


2 - Você se lembra do tradutor inicial da série ? Quais diretores de dublagem dividiram o trabalho ?


R – Olha Marco Antônio, essa pergunta é difícil pra mim porque eu dublava muito e os únicos tradutores que eu tinha amizade era o Samuel Lobo e a Rita Cleós, porque os dois além de tradutores eram também dubladores. Quanto ao diretor foi o Marcelo Gastaldi que dirigiu a série toda, sendo substituído, eventualmente, por outro, quando era escalado para dublar em outro estúdio. Mas me lembro que além do Marcelo o Olney Cazarré e o Older Cazarré também dirigiram.


- Quero registrar aqui minha saudade por estes três grandes amigos que se foram tão precocemente!


3 - Para nós, você conseguiu uma identificação admirável com a personagem. E para você, ficou claro isso também ou houve um certo tempo para que você se adaptasse melhor ? Como foi esse processo? Algum diretor de dublagem foi fundamental para o teu trabalho ?


R – Não houve necessidade de tempo para adaptação, pois como eu disse acima, me apaixonei tanto pela freirinha irmã Bertrille, que a dublagem fluía de uma forma tão natural que eu me sentia a própria Sally Field, e acho que ela também se sentia assim interpretando a freirinha. O Marcelo como diretor da série, e dublador do Carlos Ramirez, o playboy da série pelo qual a irmã Bertrille nutria uma certa paixão reprimida, foi muito importante não só pela amizade mas também pela admiração que tínhamos um pelo trabalho do outro, a ponto de nos entendermos tão bem durante a dublagem, e estarmos tão envolvidos com aquelas personagens, que a dublagem fluía de uma maneira tão produtiva que chegávamos a gravar dois a três episódios num dia, trabalho este que normalmente levava três a quatro dias para ser concluído.


4 - Do elenco fixo de dubladores, você dividia o trabalho com Judy Teixeira (reverenda Madre), Noely Mendes (irmã Jaqueline), Dulcemar Vieira (irmã Sixto), Maralise Tartarine (irmã Ana) e Marcelo Gastaldi (Carlos). Como era o ambiente de trabalho entre vocês ?


R – O ambiente de trabalho era o melhor possível, pois éramos todos amigos e nos respeitávamos profissionalmente, e todos tinham o mesmo carinho por essa série. A maioria dos dubladores dessa época vieram do Rádio, e isso facilitava o trabalho no que diz respeito a interpretação com a voz e o microfone, e o estúdio de dublagem era um novo mercado de trabalho que se abria para nós radioatores e radioatrizes que chegávamos já com uma amizade de longa data.


5 - Há algum fato curioso ou engraçado que tenha ocorrido durante as gravações ?


R – Fatos engraçados existiram muitos, imagina trabalhar com Olney Cazarré, Borges de Barros, Older Cazarré, Marcelo Gastaldi e muitos outros tão amigos quanto estes, o tanto de “abobrinhas” que não se dizia...rs,rs  Mas o fato curioso mesmo era o meu sotaque carioca, que os diretores insistiam para que eu o perdesse na hora da dublagem, o que era impossível pois eu tinha acabado de mudar do Rio pra São Paulo a convite do Wolner Camargo, que era diretor artístico da AIC, diretor de dublagem e dublador também. Aliás. o Wolner tinha sido ator e diretor da Rádio Tamoyo e Rádio Clube do Brasil, onde trabalhei como radioatriz sob a direção dele, nascendo aí uma grande amizade que depois de muitos anos nos reencontramos na AIC.


6 - Como você dividia a dublagem de A Noviça Voadora com outras participações, uma vez que a série teve 3 temporadas, ficava o dia inteiro na AIC ?


R – Realmente nessa época eu me dedicava integralmente a AIC, pois existiam quatro estúdios que trabalhavam das oito da manhã até as vinte e quatro horas. A produção era muito grande, e como eu morava na casa colada a AIC, era muito comum chamarem a mim ou o Silvio pela janela, as onze da noite, para dublar algum personagem que escapou da escalação. Então eu passava o dia todo dentro da AIC dublando, às vezes, nos quatro estúdios num mesmo dia.





7 - O trabalho era desgastante e compensador ? Refiro-me à compensação artística individual.

R – Não, o trabalho não era desgastante, porque por mais que um artista trabalhe, mais feliz ele fica por fazer aquilo que move a sua vida a Arte da representação, e a expectativa da resposta ao seu trabalho que é sempre compensador, especialmente quando vê seu trabalho reconhecido e divulgado por pessoas como você Marco Antônio, que resgatou a memória da época de ouro da AIC São Paulo.


8 - Você deve ter muitas recordações da AIC. E da dublagem de A Noviça Voadora, foi o trabalho que deixou mais saudades ? Por quê ?



R – Recordações são muitas, dos amigos que se foram mas continuam vivos na memória, dos amigos que perdemos contatos, mas que agora com a internet de vez em quando reencontramos alguns para nossa alegria. Da dublagem a grande recordação é a Irmã Bertrille mesmo, mas junto com ela vem a Pedrita dos Flintstones, Agente 99, a Betsy da série O Homem de Virgínia, e outras atrizes de filmes, como Leslie Carron no filme A Mulher que Pecou, muitos desenhos, e outros que a memória ficou muito cheia e deletou automaticamente mais da metade...rs,rs...


9 - Um ator, sempre aprende algo com uma personagem. A irmã Bertrille te trouxe algo enriquecedor para a tua vida particular ?


R – Claro que trouxe, a alegria de viver, de estar “de bem com a vida”, a generosidade e solidariedade, o sorriso fácil e a perspicácia e inteligência no trato com a vida atribulada dos dias de hoje. Os personagens sempre nos ensinam alguma coisa de bom ou de ruim, o que nós precisamos é ter a capacidade de filtrar e ficar só com que nos engrandece como ser humano.

10 - Aliomar, após mais de 45 anos da dublagem realizada, há milhares de fãs da sua voz à irmã Bertrille. Deixe uma mensagem para todos nós !


R – Agora depois de quase 70 anos de carreira entre Rádio, Cinema, Teatro, Televisão e Dublagem, já encerrada, eu me sinto realizada por ter tido a felicidade de trabalhar e sobreviver como Artista, o que não é fácil mas é possível. A todos aqueles que sonham ingressar na vida artística, em qualquer segmento da arte de representar, eu quero deixar uma mensagem, que não desistam dos seus sonhos nunca, pois a persistência e perseverança é inerente ao artista, por mais árduo que seja o caminho, mais compensador será o destino. Aos fãs da irmã Bertrille, a Noviça Voadora, eu quero dizer que a alegria de ter dado a Sally Field a voz Brasileira da irmã Bertrille foi uma sorte e uma honra para mim, uma vez que através desta série, que por sorte não foi redublada, minha voz está registrada na história da dublagem da Versão Brasileira AIC São Paulo.

**Agradecemos de coração a Aliomar e ao Sílvio Matos pela gentileza e atenção que sempre nos proporcionam.

**Relembrando  a dublagem de Irmã Betrille em A Noviça Voadora** 


**Marco Antônio dos Santos**

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