23 de outubro de 2010

CONVERSANDO SOBRE DUBLAGEM

** FOTO: SITE DA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO

ESCLARECIMENTO: Tendo sido procurado por um grupo de alunos do 4º ano de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo - Rudge Ramos - São Bernardo do Campo, a fim de que pudessem encerrar o seu Trabalho de Conclusão de Curso, com o tema: Dublagem, elaboraram algumas questões, as quais foram divididas em duas partes: I) como fã de dublagem e II) como estudioso do tema há mais de 30 anos.

Os concluintes do Curso de Jornalismo, que decidiram procurar a mim e elaboraram as questões são: Bruna Nunes, Guilherme Cavalheiro, Guilherme Rodrigues, Igor Reis, Jackson Viapiana, Marília Carneiro, Márcio Silva e Yuri Gianella.

Gostaria de esclarecer que minhas opiniões são, estritamente, como fã e pesquisador do assunto e, em nenhum momento, represento a categoria dos dubladores.

** QUESTÕES**



I- Perguntas como Fã de dublagem.



1 - Quando e como surgiu o seu interesse por dublagem?
M.A: Desde criança, creio que tinha uns 6 anos de idade e ficava admirado ao assistir aos desenhos daquela época e fui procurando comparar as vozes dos personagens. Percebia a mesma voz que dublava Zé Colmeia também dublando o personagem Gênio da turma do Manda-Chuva. O meu interesse foi crescendo cada vez mais e fui comparando diversas vozes e começando a ler revistas da época, algumas entrevistas de dubladores na televisão.
Assim, fui colecionando diversos exemplos sonoros de desenhos, séries de tv e filmes durante a década de 1980, e estudando mais sobre o assunto. O marco inicial surgiu quando participava de um fã clube de séries dos anos 60, no qual era responsável pela identificação das vozes, e aí veio a primeira entrevista com Helena Samara e Borges de Barros.
O fã clube terminou depois de algum tempo, mas continuei sozinho, pois vi a necessidade de resgatar tantos artistas excelentes, desconhecidos e esquecidos pelo público. Pensava em um dia escrever um livro sobre o tema, mas a internet atingiu muito mais rapidamente o meu objetivo, onde pude ampliar um leque de informações com dubladores, familiares e com muitos fãs do primeiro e maior estúdio de dublagem para a televisão: a AIC.


2 - Quais as dublagens de personagens mais marcantes para você (em filmes, desenhos e séries)? E por quê?


M.A: É difícil de responder a esta pergunta, pois sairia uma lista enorme, assim citarei três de cada gênero. Em desenho: Os Flintstones (Wilma Flintstone) dublada por Helena Samara criando uma voz perfeita para a personagem. O personagem Hardy (em Lippy, o leão e Hardy Har-Har, uma dupla onde encontramos um leão otimista e uma hiena totalmente pessimista), extraordinária dublagem de Waldyr Guedes e Dom Pixote, cuja voz criada por Older Cazarré é original e cativante.
Em séries de TV: Dr. Smith da série Perdidos no Espaço, magnífica dublagem de Borges de Barros, Samantha na série A Feiticeira, onde houve um “casamento” extraordinário da personagem com a dubladora Rita Cleós e Columbo, cuja dublagem de Celso Vasconcellos do detetive é, sem dúvida, perfeita, conseguindo captar todas as particularidades do ator Peter Falk, um personagem difícil de ser dublado devido a uma série de características.
Em filmes: todos os filmes nos quais o ator Rex Harrison foi dublado por Aldo César, a dublagem é tão boa que ele dá todos os tons, pausas que o ator faz, parece que a voz em português é de Rex Harrison.
Também cito Darcy Pedrosa dublando Jack Nilcholson pelo mesmo motivo, para mim o título do filme Batman, deveria ser: “Coringa”, pois sem dúvida a sua dublagem foi fantástica. Sua voz era adequada para qualquer personagem interpretado por Jack Nicholson.
E cito Sílvio Navas, que dublou o ator Humphrey Bogart, como em Horas de Desespero, Casablanca, etc, e a sua dublagem de Charles Chaplin no filme O Grande Ditador é impecável.
Para um fã da boa dublagem, teria aqui muito mais a citar!!!


3 - Você já teve contatos com dubladores ao longo dos anos? Se sim, quais e qual a sua relação com eles?


M.A: Sim, vários. Quando comecei a pesquisar sobre a história da dublagem, em 1988, era praticamente como uma pura motivação de ser fã e minha relação com eles foi dessa forma. Mas, com a expansão da internet, conheci outros dubladores que acabaram sendo grandes amigos. Pessoalmente conheci: Borges de Barros, Helena Samara, Maria Inês, Ronaldo Baptista, Gilberto Baroli, Emerson Camargo, Aldo César, Sílvio Navas, Carlos Campanile, Marcelo Gastaldi, Hugo de Aquino Jr. e Amaury Costa.
 Pela internet: Arquimedes Pires, Aliomar de Matos, Sílvio Matos, Francisco José, Celso Vasconcellos, Miguel Rosenberg, Osmar Prado (hoje só ator), Nelson Machado, Joferraz, além do próprio Carlos Campanile. Por telefone conheci Rodney Gomes, Bruno Netto e Zezinho Cútulo.


4 - Você lembra casos em que o filme ficou melhor após a versão dublada? E exemplos contrários, em que o filme tenha piorado após a dublagem?


M.A.: O filme fica melhor, após a versão dublada, quando há uma equipe de profissionais excelentes, desde o tradutor, diretor de dublagem e a escalação perfeita dos dubladores para cada ator.
São inúmeros exemplos onde isso já ocorreu e seria injusto citar apenas alguns, são muitos.
O contrário também ocorre e, infelizmente, com muita frequência atualmente. Mas as piores dublagens que já assisti, foram as redublagens de clássicos do cinema por profissionais não gabaritados, aqui cito, especificamente, certas dublagens realizadas em Miami para a tv a cabo.




5 - O que você acredita ser fundamental para tornar uma dublagem boa ou ruim?


M.A: Praticamente o que já citei. Há a necessidade de um excelente tradutor, mas que tenha a visão de um dublador (aquele que sabe substituir uma determinada palavra ou frase que se adapte melhor à sincronia labial), um bom diretor de dublagem, com experiência comprovada e , sobretudo, liberdade para que este diretor de dublagem possa escalar os dubladores mais adequados aos personagens. Isso ocorria há 30, 40 anos atrás, hoje há a interferência em todo esse processo, das distribuidoras e de muitos proprietários de estúdios de dublagem.


Parte II- Como estudioso de dublagem.


6 - Em sua opinião, caiu o nível da dublagem no Brasil nos últimos anos? Se sim, por quê?


M.A: Sim. Na minha opinião, nestes dez primeiros anos do século XXI, a dublagem foi gradativamente perdendo o objetivo da qualidade e substituindo pela quantidade, ou seja, quanto mais rápida ela for realizada será melhor. A pergunta é: melhor para quem ?
Os motivos disso são diversos e até complexos. Posso citar alguns, pois creio que todos em conjunto contribuíram para isso:


1 – A falta do cumprimento de uma legislação que defenda os direitos autorais dos dubladores. Não é possível termos um desenho clássico como Os Flintstones, sendo exibido até hoje por emissoras abertas e a cabo, além dos dvds e que o trabalho da dublagem não signifique nada.
Isso leva muitos dubladores que estão iniciando a desistirem da carreira ou levá-la como “bico”, até que surja uma outra oportunidade melhor.


2 – A prepotência de alguns estúdios de dublagem que, ao invés de serem prestadores de serviço de qualidade para as distribuidoras, estão simplesmente cumprindo ordens, devido ao poder econômico destas, para não perderem espaço para os estúdios concorrentes.


3 – A falta de uma melhor formação do profissional da voz. No início da dublagem no Brasil, o Rádio foi a grande fonte de futuros dubladores, hoje há diversos cursos, nos quais só sairão bons dubladores aqueles que possuem talento para a carreira, e não devido ao curso X ou Y.


4 – Para uma maior rapidez na dublagem, hoje o dublador faz todas as suas participações sozinho com o diretor, antes havia a necessidade de estarem todos juntos. A tecnologia é bem-vinda, mas ela deve estar aliada também com a qualidade.


5 – O falecimento de muitos ícones da dublagem, tanto de São Paulo como do Rio de Janeiro e muitos que se aposentaram. O surgimento de outros, com qualidade, não foi na mesma proporção. Atualmente, sente-se uma defasagem, o que contribuiu também na queda da qualidade.


7 - Você considera a dublagem brasileira uma das melhores do mundo? Tem conhecimento da dublagem em outros países?


M.A: Sim, eu ainda considero a melhor do mundo, porque fizemos uma história em dublagem e, apesar de todos os obstáculos, ainda há profissionais com extrema qualidade. A dublagem realizada no México (a qual é distribuída para os outros países de língua espanhola) é muito inferior a nossa, falta emoção e interpretação, que são substituídos por gritos, nos desenhos a dublagem é muito caricata, não há criatividade. Na Europa, poucos países possuem a dublagem como uma carreira artística, muitos preferem as legendas.


8 - Na França, por exemplo, quase todos os filmes são dublados, pois o país preserva a sua cultura. Você acha que no Brasil ainda existe um preconceito com relação à dublagem?
(Ou seja, o brasileiro dá mais valor ao que é importado, a outras culturas, e não valoriza a nossa língua como deveria?)


M.A: Sim. Ainda existe esse preconceito com relação à dublagem. A questão é: como podemos valorizar a nossa própria cultura, a nossa língua, se há um sistema que nos dita sempre o inverso ? Na França, o Cinema tem o seu lugar, aqui já partimos do princípio de que os filmes americanos são melhores sempre do que os nacionais. Somos invadidos diariamente, através da televisão, por filmes americanos de péssima qualidade e ninguém reclama da programação !
Falta uma legislação mais rigorosa para fortalecer a dublagem. Por que certas emissoras de tv a cabo só transmitem com legendas ? Elas estão operando em outro país, deveriam, pelo menos, oferecer as duas opções !
Depois de tanto assistirem a uma programação legendada, acabam não valorizando a dublagem, a nossa língua, etc.
Aqui, retornamos para o poder econômico dessas grandes redes de tv a cabo, pois as legendas tem um custo mais baixo do que a dublagem!!


9 - A que você atribui o crescimento do interesse por filmes dublados no cinema e na TV fechada, por exemplo?


M.A: Eu vou citar uma frase do saudoso dublador Borges de Barros: “ninguém aguenta assistir tudo legendado, porque acaba se perdendo muitos detalhes da produção, da interpretação dos atores, etc”. Creio que essa frase se aplica bem à programação da tv a cabo, já o Cinema possui uma tradição de se ouvir as vozes dos próprios atores. A penetração da tv é muito maior e, por esse motivo, deveria haver a obrigatoriedade da dublagem em todos os canais a cabo.


10 -As pessoas que criticam a dublagem são mais escolarizadas? E por quê?(Segundo o Gilberto Baroli, outro dia saiu uma manchete dizendo que a dublagem “empestei à TV paga”.)


M.A: Esse conceito de mais escolarizadas é bem relativo, pois há aqueles pseudoescolarizados que tem até cursos universitários, mas não conhecem nada da história da nossa cultura artística. São aqueles que se acham “mais elitistas”. Evidentemente, há exceções, como as pessoas que realmente possuem um grande acervo cultural adquirido durante anos e aí, talvez possam preferir criticar a dublagem (principalmente as mais recentes). Quanto à manchete citada, reflete o momento da dublagem no Brasil, pois o dublador somente empresta a voz e daqui a vinte anos, ainda estará a sua voz emprestada, não recebendo nada por isso. É como emprestamos um livro para alguém e a pessoa nos devolve após quase dez anos. Durante esse período o livro pode ter sido lido por dezenas de pessoas, mas apenas emprestamos, não recebemos nada por outras pessoas o terem lido. É o que ocorre com as vozes emprestadas pelos dubladores !!


11 -Em entrevistas já realizadas, apuramos opiniões críticas ao mercado atual. Muitos dizem que o barateamento de preços por alguns estúdios, por exemplo, faz com que a qualidade da dublagem caia. Você concorda com isso? Ou os bons profissionais e bons estúdios ainda prevalecem no mercado?


M.A: Concordo plenamente com as duas afirmativas. Houve um certo crescimento no número de estúdios, os quais tentam ganhar o seu cliente através do barateamento dos seus serviços. Dessa maneira, o estúdio não tem condições financeiras para escalar dubladores mais experientes e acabam, alguns, caindo um pouco na imperícia e, como, o cliente também quer o preço mais baixo, não se incomoda!
Felizmente, há ainda estúdios com uma maior solidez no mercado, principalmente no Rio de Janeiro, que ainda valorizam realizar uma boa qualidade na dublagem, mas a cada dia eles ainda lutam para poder continuar com esse nível de dublagem. São poucos, mas ainda conseguem realizar um trabalho muito bom, só não chega a ser ótimo, devido a interferência das distribuidoras.


12 -Você acha que existe uma diferença entre o mercado de dublagem do Rio e o de São Paulo? Se sim, qual?


M.A: Atualmente eu não vejo diferença entre Rio e São Paulo. O mercado de dublagem praticamente possui os mesmos problemas. No passado havia, devido às emissoras que mantinham mais ibope. Houve um período áureo em São Paulo e também no Rio de Janeiro. Com o desaparecimento de muitos estúdios tradicionais, o mercado se comporta da mesma maneira. A única diferença que vejo, na minha opinião, é que parece que os profissionais da voz, no Rio de Janeiro, estão mais mobilizados para defender os seus direitos trabalhistas, ou seja, eles tentam brigar mais com os estúdios para que cumpram a legislação mínima existente. Se não o conseguem, aí é uma outra história muito comprida.....


13 -Para finalizar, selecionamos mais uma opinião de um dublador já entrevistado. Após ler, você pode dizer se concorda ou não com ele.


... "Aí ele prefere assistir ao filme legendado, porque a dublagem está muito ruim. Agora, nós queremos que se denuncie essa dublagem ruim, não que simplesmente mude para a legenda, porque nós achamos que todos os filmes têm que ser legendados e dublados. E o telespectador é que deve escolher qual que quer. Mas tem que ser bem dublado. Existem também legendas mal feitas. A boa dublagem começa com uma boa tradução. A partir do momento que você coloca na boca do ator aquilo que ele está dizendo em inglês, você tem uma boa dublagem. A pessoa só não vai gostar do filme se os atores forem ruins ou se o filme não valer nada. Às vezes não é a dublagem que é ruim, mas o filme que não presta. Hoje em dia xingar a dublagem é uma norma, xinga-se por qualquer motivo.
A partir do momento que o público entender que, o tempo que ele leva pra ler a legenda ele perde a metade da cena, ele vai preferir dublado. Mas essa dublagem deve ser fiel e boa para que ele não se arrependa de não ter assistido legendado.
Quer dizer, é preciso haver uma união, mas uma união séria, verdadeira, de coração, não uma união em que cada um vai ficar só pensando nos lucros que vai ter. Se a gente conseguir essa união, e juntar a isso o cidadão brasileiro reclamando da má dublagem e ajudando a gente a fazer uma dublagem boa, a gente pode ter no futuro um grande mercado de dublagem. Mas nós também podemos chegar a uma favela de dublagem..."


Após ler a opinião acima, você acha que o futuro da dublagem está mais para um cenário otimista (com o crescimento do mercado com a redublagem para Blu Ray, interesse maior por filmes dublados) ou preocupante (barateamento dos preços, pouca preocupação na qualidade por parte das dubladoras e emissoras)?


M.A: Concordo plenamente com o texto, o qual possui um senso crítico fiel ao que se passa atualmente com a dublagem brasileira.
O brasileiro necessita ser sempre otimista, caso contrário, com todo o cenário que nos envolve seríamos uma população de desesperados e depressivos.
Especificamente quanto à dublagem, o crescimento do mercado com a redublagem para Blu Ray possui duas alças: essa redublagem traz um maior interesse para o público, por outro lado, simplesmente são descartadas dublagens excelentes já realizadas, as quais poderiam sofrer um processo de restauração e o público decidir como quer assistir ao programa: redublado ou dublagem original restaurada, mas aí nos defrontamos com o que as distribuidoras americanas decidem o quê e como devemos assistir, de acordo com os seus custos e lucros. A restauração de uma dublagem é mais trabalhosa e mais cara do que a redublagem. E no caso, especificamente do Brasil, somos um país isolado devido à língua portuguesa, dentro de uma América Latina onde predomina o espanhol. Eis aí o primeiro ponto contra nós, para não haver interesse em restaurar algo somente para um país.
Assim, vejo um quadro preocupante para o futuro da nossa dublagem. Ela nunca deixará de existir, muito pelo contrário, mas ela deveria ser um processo entre o tradutor, diretor de dublagem e os dubladores, sem o poder econômico interferindo. Infelizmente, percebo que, cada vez mais o poder econômico tenta substituir a qualidade pelo barateamento dos custos, o que compromete o trabalho. Há estúdios que ainda conseguem driblar um pouco tudo isso, mas a pergunta é: até quando resistirão ?


** Muito Obrigado pelo convite – Abraços a todos !!!!



** Marco Antônio dos Santos **

0 comentários:

Postar um comentário