4 de setembro de 2010

ENTREVISTA COM MIGUEL ROSENBERG




** Com uma extensa carreira em diversos veículos: cinema, televisão e, principalmente, dublagem, Miguel Rosenberg é certamente mais um grande artista brasileiro, que ficou oculto atrás de inúmeros personagens que dublou em 50 anos de dublagem. Aqui, ele nos faz um painel da sua profissão e de sua passagem pela AIC.**

1 - Como você iniciou a sua carreira artística ?


R: Fui levado pela secretária do Ginásio Hebreu Brasileiro, Ita Szafran, à PRG-3, Rádio Tupi do Rio de Janeiro, onde estreei em 1942, antes mesmo de concluir o curso ginasial, o que aconteceu no final daquele mesmo ano, fato que não impediu que a dita secretária escrevesse no meu boletim:" Precisa requerer exame de segunda época de Matemática" !



2 - O filme "O Assalto ao trem pagador" foi o trabalho que te abriu as portas ? Como foi participar dessa produção realizada em 1962 ?

R: Na verdade, esse grande clássico do cinema brasileiro foi o meu segundo filme. Antes, em 1954, eu já havia participado de outro clássico: "Rio, 40 graus", de Nelson Pereira dos Santos. Obviamente, na película de Roberto Farias minha participação foi mais destacada, por isso foi mais comentada. Ter trabalhado com grandes atores e atrizes foi muito enriquecedor para meu amadurecimento na profissão. Lembre-se de que contracenei com Dirce Migliaccio, Grande Otelo, Jorge Dória, Fregolente, Átila Iório, Quelé, Jorge Coutinho, Reginldo Faria... chega?



3 - E a dublagem como e quando surgiu ? Você fez algum teste ?

R: Eu já era radioator, quando Mauricio Sherman me convidou para dublar um filme de propaganda ideológica, o qual seria dirigido por ele, Sherman, e por Carla Civelli. Sabedor que os dois diretores fariam o trabalho profissionalmente, e não ideologicamente, aceitei ir e saber como era a "tal" dublagem. Fiz uns vozerios e pequenas falas; e assim me iniciei; o teste foi esse.



4 - Você participou de um período relativamente curto na AIC, porém já demonstrava muita segurança ao dublar, como você chegou até a AIC ?

R: Disse bem: relativamente curto, pois fui para S.Paulo em 1967, para fazer o pai de Fernanda Montenegro na novela coqueluche "Redenção" dirigida por Valdemar de Moraes, e retornei ao Rio em 1973, mas em 1960, a diretora Carla Civelli assumiu a direção geral de um novo estúdio de dublagem, a CineCastro e,
  na arregimentação de dubladores, lembrou-se de mim! Portanto, ao ir para a AIC, eu já havia dublado durante seis anos, tendo feito a voz de Charles Korvin, protagonista do seriado "Interpol chamando", no papel de Inspetor Duval, além de inúmeros convidados em longa-metragens ( Lionel Barrymore em "Do Mundo Nada se Leva", de Frank Kapra, por exemplo) e o protagonista da série "Cheyenne", o qual desejo esquecer, pois minha voz não casava com o ator, um cowboy parrudão.





** SÉRIE CHEYENNE **



5 - Durante esse período na AIC, você participou de algumas séries e desenhos, dublando atores convidados. Do que você se recorda mais dessa época ?

R: Impressionou-me muitíssimo o ritmo alucinado de trabalho daquele grande estúdio. Na CineCastro era um filme por vez, das 9 às 18 horas, com intervalo para o almoço. Na AIC eram quatro estúdios, simultaneamente, em três turnos por dia! Das 8 da manhã à meia-noite!!!


6 - Quando você saiu da AIC, como seguiu a sua carreira ? Foi para o Rio de Janeiro dublar ?

R: Voltei para o Rio a convite do diretor Gonzaga Blota, para entrar no elenco da novela "Jerônimo,o herói do sertão", de Moysés Weltman, que fazia muito sucesso na TV Tupí. O diretor de teledramaturgia na época era o grande João Lorêdo.



7 - Há centenas de dublagens realizadas por você, das décadas de 1970, 80 e 90. Quais você diria que marcaram mais a carreira de dublador ?

R: Na AIC, ainda na década de 60, fiz o desenho "Anjo do Espaço", junto de Flávio Galvão e Magda Medeiros. Fiz também um seriado que não me lembro o nome, mas era passado em um enorme veleiro, e só me lembro que eu era o pai do Henrique Ogalla, então um garotinho. Uma curiosidade: fui a primeira voz de Ben Cartwright, o "pai" do seriado "Bonanza', o ator Lorne Greene. Mas como briguei com o dono da série, Ralph Norman, por razões financeiras, vim a saber pelo diretor Alberto Perez, que havia sido substituido por Guálter de França, o qual também acabou brigando com Norman pelas mesmas razões, sendo substituido por Ribeiro Santos. Na dublagem também acontecem essas coisas... Outro fato curioso: Quando voltei ao Rio, fizeram testes para a dublagem de "A Arca de Zé Colméia" e fui escolhido pelo diretor Luis Manoel, para dublar o próprio Zé Colméia, que havia sido criado pelo magistral Older Cazarré, e, com o trágico falecimento do criador da voz do famoso urso, fiquei definitivamente de posse do engraçado personagem.


*OBS: A série citada, onde dublou o pai do personagem de Henrique Ogalla, é "A Escuna do Diabo".




8 - Atualmente, há uma grande legião de fãs das dublagens da AIC, CineCastro, TV Cinesom, da Herbert Richers (nas décadas de 1970/80). Na sua opinião, a que fato se deve isso ?

R: Na época citada, dava-se grande valor à interpretação do personagem, aliada, é claro, ao sincronismo das falas. Hoje, posso dizer que o sincronismo é quase suficiente. Rapidez na execução do trabalho é outro fator preponderante na dublagem atual. Quanto mais depressa, melhor. Melhor? Não sei...



9 - Você participou da forma de se dublar com todos juntos e já há alguns anos individualmente. Qual é a sua opinião sobre ambas ?

R: Você falar e ouvir uma resposta no seu idioma, é uma coisa. Falar e só ouvir uma língua estrangeira, se bem que falada em quase todo o mundo, é outra, muito diferente. Quando você ouve todos os personagens falando em português,você fica inteirado do enredo que está se desenvolvendo, porque só se toma conhecimento do que se vai falar, na hora de falar. E, sem a réplica, muitas vezes sua fala fica comprometida por falta de conhecimento da história. Além do mais, havia o congraçamento dos atores dubladores. Almoçava-se junto, havia cordialidade. Hoje, passam-se meses sem que se veja a grande maioria dos colegas.



10 - Que nomes você citaria, de São Paulo e do Rio de Janeiro, que foram fundamentais para a tua carreira na dublagem ?

R: No Rio de Janeiro, Ita Szafran. Não sabe quem é? Aquela secretária do Ginásio onde estudei, e que se tornou a grande atriz Ida Gomes, também excelente dubladora. Carla Civelli, já citada, uma italiana que punha em português as traduções literais que os tradutores da época lhe entregavam. Mauricio Sherman, hoje só dedicado quase à televisão, mas que descobriu muitos dubladores. Licia Magna, atriz e diretora de televisão e de teatro, que fez Emilia, sendo eu o Visconde de Sabugosa, na peça baseada em Monteiro Lobato "O Picapau Amarelo", direção de Sadi Cabral. Em S, Paulo, na AIC: Older Cazarré, bom e querido amigo, e que profissional! Amaury Costa, gentilíssimo e grande diretor de dublagem na AIC e na Herbert Richers.

 E mais: Wilson Ribeiro, Emerson Camargo, Gilberto Barolli, Osmar Prado, Carlos Campanile, Judy Teixeira, Aliomar de Matos, Dênis Carvalho, Maria Inês, Vaccari,Tony Ramos, Olney Cazarré, Helena Samara, Waldyr Guedes, José Soares, Líria Marçal, estes e muitos mais colegas queridos, sem esquecer Borges de Barros, Xandó Batista e muitos outros que me receberam com grande amizade na famosa Arte Industrial Cinematográfica, a querida e sempre lembrada AIC!



11 - E na televisão, você fez diversas participações em novelas. Você citaria alguma que te proporcionou um bom desenvolvimento como ator ?

R: Sou pioneiro da TV no Rio de Janeiro, tendo tomado parte no programa de Natal no ano da inauguração da televisão no Brasil. Convidado por Pernambuco de Oliveira, encenamos "A Revolta dos Brinquedos", peça de Pernambuco e Pedro Veiga. No Rio ainda era o período experimental da TV. Depois, fiz novelas diversas, tanto na Tupi, como na TV Rio, Continental, Globo, Manchete, além da citada "Redenção" na TV Excelsior, canal 9, de S.Paulo; Bandeirantes, na época do incêndio dos estúdios no Morumbí, sendo que terminamos a novela, dirigida por Walter Avancini, no palco da emissora na Brigadeiro Luiz Antonio..



12 - Você está aposentado ou ainda dubla eventualmente ?

R: Hoje com 84 anos, ainda faço o sr. Burns dos "Simpsons", hoje na Audio News, além de vários outros papeis em outras produções e em outros estúdios.



13 - Deixe uma mensagem para os fãs da boa dublagem brasileira, a qual você é mais um nome, com tantos trabalhos realizados.

R: País civilizado exibe filme dublado! Como nos Estados Unidos, por exemplo, onde amigos meus me viram em Nova York, fazendo o Edvar do citado "Assalto ao Trem Pagador", dublado por um AMERICANO! Foi a minha forra!!! Boa sorte a todos.



** AGRADECEMOS A MIGUEL ROSENBERG POR NOS PROPORCIONAR ESTE VALIOSO DEPOIMENTO, O QUAL NOS REVELA FATOS CURIOSOS DA SUA CARREIRA.

**Aqui a dublagem do Professor Mace, realizada por Miguel Rosenberg, no desenho O Anjo do Espaço**



** Marco Antônio dos Santos **

2 comentários:

Filippo disse...

Excelente entrevista.

Nisia Rocha disse...

Meu Papai, minha voz do dia a dia e das séries, desenhos novelas e etc... Eu o amo.

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