1 de agosto de 2010

ENTREVISTA COM OSMAR PRADO


1 - Osmar, como você descobriu que a tua vocação era para ser ator ?

R: Aos 7 anos, perguntei prá minha mãe: _ como se faz prá ser artista? O parâmetro dela, na época, era o Rodolfo Valentino. Ou seja: estava fadado a desistir no nascedouro. Ficou valendo a pergunta de um menino sonhador de 6 ou 7 anos de idade. Pergunta e resposta que nunca mais esqueci. O resto, foi caminho natural.

2 - Como você iniciou a tua carreira de ator ? Teatro ou televisão ?

R: Televisão. Embora tenha feito uma peça teatral na Companhia Lídia Nycia/Sérgio Cardoso, em 1959.

3 - E a dublagem, como surgiu ?

R: A dublagem foi decorrência da televisão. Fui chamado para um teste de voz, prá fazer o menino que atuava no filme Ivanhoé. Dublei durante alguns anos. Quando minha carreira de ator se firmou, não atuei mais como dublador.

4 - Comprovadamente a AIC foi um grande "celeiro" de radioatores, jovens atores que estavam iniciando, etc; e nos deixaram dublagens primorosas, as quais são admiradas até hoje. Qual o teu conceito sobre a importância da AIC para a dublagem brasileira ?

R: Ela foi a pioneira e abriu um grande mercado de trabalho para muitos atores que estavam fora e dentro do mercado, cujo trabalho na dublagem complementava o orçamento doméstico. Para muitos que se dedicaram integralmente, havia uma certa frustração, porque era um trabalho quase invisível, mortal para um artista que precisa exibir-se. Emprestava-se a voz a uma imagem, o artista mesmo, não aparecia.

5 - Você dublou diversos convidados em séries ( Perdidos no Espaço, Jornada nas Estrelas, O Túnel do Tempo, etc), e teve personagens fixos em A Caldeira do Diabo e Viagem ao Fundo do Mar. O que te enriqueceu, como ator, dublar diversos personagens ?

R: A necessidade de sincronizar as palavras num espaço definido, dando a impressão de quem fala é a própria personagem que está sendo dublada. Atenção e reflexo aliados à entonação, são condições básicas para se fazer um bom trabalho em dublagem. Por isso que, os primeiros dubladores vieram do rádio.

 
6 - Como você vê a questão do desaparecimento de diversas dublagens no tocante ao trabalho do artista brasileiro ?

R: A dublagem, no meu entender é considerada um trabalho menor no meio artístico, porque não é vista como trabalho de criação. Empresta-se a voz e pronto. É indústria, pura e simples, até porque pelo volume de trabalho, para que se possa ganhar um bom dinheiro, não daria para se preocupar com a criação artística. Embora, não concorde com isso e, ache que, é possível criar, também, na dublagem, a regra geral não é essa.


** HUGO DE AQUINO JÚNIOR E OSMAR PRADO / 1975


7 - E os direitos autorais ainda são utopia no Brasil para o ator/dublador ?

R: Ah, meu amigo. Essa é uma luta fratricida. Pelo menos, para nossa alegria, há o reconhecimento da lei, só não conseguiu-se ainda a regulamentação. Há, agora, através do Ministério da Educação e Cultura, uma possibilidade de abertura de discussão nesse sentido. A televisão tem pago Direitos Conexos, porém, não há ainda uma regulamentação efetiva da lei. O reconhecimento da existência dela, pelo menos, já é alguma coisa.

8 - Qual ou quais diretores de dublagem te auxiliaram muito no início das tuas dublagens ?

R: O Amaury Costa, uma santa pessoa, boníssimo, tranquilão, talvez, se não estou enganado foi meu primeiro diretor. Depois, fui dirigido pelo Dênis Carvalho, Olney Cazarré, Wolner Camargo, e muitos outros. Sempre procurei a emoção de cada personagem, mesmo na dublagem. Considero, porém, com todo respeito que, a dublagem prá mim, foi um período de passagem, não um fim último.

9 - Já no Rio de Janeiro, na década de 1970, temos registros de que você ainda atuou no estúdio Herbert Richers em séries: Os Waltons, Columbo, etc. A carreira, só na televisão, faz com que o ator esteja sempre em busca de outras formas de compensação financeira ?

R: Tive um período inicial aqui no Rio que não dava prá viver só da televisão. A dublagem me salvou muitas vezes de ficar sem dinheiro. Mas, a partir do momento que minha carreira se firmou na televisão e no teatro, cinema inclusive, nunca mais procurei a dublagem, não deixando, porém, de apoiar os profissionais quando me pediam apoio em suas revindicações. Sempre estive ao lado dos meus colegas em suas lutas.

10 - Você atuou em dezenas de novelas, com diferentes personagens.
Cite alguns trabalhos que você destacaria na tua carreira.

R: Foram muitos. Citaria alguns que foram realmente especiais:

Tião Galinha de Renascer.

Tabaco de Roda de Fogo

Foram determinantes prá minha carrira.

11 - E no teatro e cinema ?

R: Francisco de Albuquerque em Desmundo (cinema).

Adolf Hitler, em uma Rosa para Hitler, no Teatro.

12 - Na sua opinião, qual o grande problema da dublagem atualmente ? Seria a falta de formação para ser um profissional da voz, uma vez que o Rádio foi na décadas de 1950/60, além do problema dos direitos autorais ?

R: Acho que a palavra, ultimamente, tem sido bastante maltratada, inclusive na televisão. Acho também, que a dublagem não é uma atividade desejada como opção primeira, mas, como de manter-se no mercado enquanto a oportunidade de um contrato com a televisão não chega. Não acredito que alguém queira ser dublador por vocação. O cara que ser ator, artista, expressar-se, com voz, corpo e alma, fazer sucesso, montar sua companhia de teatro, viajar, ser independente e só o sucesso na carreira pode trazer isso. Por melhor dublador que você seja, por mais sucesso que você faça, a tendência será a invisibilidade. É uma pena, infelizmente.

13 - Você dublou o personagem Rilley, na série Viagem ao Fundo do Mar, que possui uma grande legião de fãs. Deixe uma mensagem para todos os que admiram o teu trabalho, ainda hoje na dublagem, e como ator na televisão.

R: Bem, a personalidade artística mais destacada que dublei, foi Ryan O'neal, na série "A Caldeira do Diabo". Confirmando minhas análises, nunca, ao longo de mais de 50 anos de carreira, alguém, na rua ou em qualquer outro lugar, me parabenizou por algum trabalho meu em dublagem. Reafirmo, louvo a dublagem como abertura de mercado de trabalho, foi ela que me salvou em muitos momentos de dificuldade, porém, se tivesse ficado só na dublagem, acho que teria perdido grande parte dessa minha alegria de representar e considerar-me privilegiado de poder viver daquilo que gosto de fazer: representar, ser dono do meu instrumental todo, não só parte dele.

Grande abraço,

Osmar.

** AQUI, DUBLANDO BILLY THE KID NA SÉRIE O TÚNEL DO TEMPO**


**AGRADECIMENTOS: Agradeço ao amigo Hugo de Aquino Júnior por ter sido o nosso contato com o entrevistado.

Também agradeço a Osmar Prado pela sua gentileza em nos atender prontamente !!



** Marco Antônio dos Santos **

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