22 de junho de 2010

ENTREVISTA COM CELSO VASCONCELLOS


1 - A AIC foi o seu primeiro estúdio de dublagem ? Como você começou a dublar, fez algum teste ?

R: Sim. Fui para São Paulo apresentado ao ator Sérgio Cardoso, na época astro das novelas, que se propôs a me ajudar. Na época, existia a TV Excelsior, TV Tupi e a TV Paulista, que era da Globo e onde o Sérgio estava gravando. Fui apresentado aos diretores e fiz teste em todas elas. Muitas promessas, mas pouca realização. Por necessidade financeira, fui parar num estúdio (acho que Odil Fono Brasil) para dublar um filme nacional. De lá para a AIC foi o caminho natural.

2 - Você se lembra qual foi a sua primeira dublagem ? Estava muito ansioso ?

R: Não me lembro do filme, mas o diretor era o falecido Ary de Toledo (da dublagem, não o comediante). Ansioso e necessitado que desse certo.

3 - Quem ou quais dubladores da AIC foram imprescendíveis para você desenvolver melhor o teu trabalho na dublagem ? Aqueles que te deram os direcionamentos para dublar.

R: Sem dúvida o mais importante e o responsável direto pelo início real da minha carreira de dublador foi o Neville George. A Siomara Naggy, que estava casada com ele na época, brincava muito comigo. O Neville, sem eu perceber, estava prestando atenção no meu trabalho que até então resumia-se a pequenos papeis. Um dia o casal cruzou comigo na rua e o Neville disse: -- Você está escalado para o papel principal de um filme muito importante que vou dirigir. É "O Corcunda de Notre Dame". Agora ou vai... ou racha. Quando terminou a dublagem eu perguntei para ele: --- E aí, Neville... Foi ou rachou... Ao que ele respondeu: ---Foi, garoto... e foi muito bem. A Líria Marçal (que fazia a protagonista feminina) estava te observando e fez excelentes comentários. Eu também te dou nota 10.

Para sorte minha o filme, depois de mixado, foi exibido no auditório da AIC e todos os dubladores e diretores foram convidados para assistir... Ali começava minha carreira de protagonista em dublagem.

4 - Você participou da dublagem do filme O Corcunda de Notre Dame de 1939, dublando o personagem Gringoire, interpretado pelo ator Edmond O'Brien. Conte-nos como foi esse trabalho, que felizmente está com o áudio restaurado.

R: Respondido na pergunta anterior. Bom que tenham restaurado o áudio.

5 - Do período que você ficou em São Paulo, quais são as boas recordações que ficaram até hoje ?

R: Era um período de sonhos a serem realizados... e eu tinha a vida inteira pela frente para fazê-lo. Na realidade não fiquei nem um ano em São Paulo. Vendo que as promessas de Televisão não se concretizavam voltei para o Rio e fui trabalhar na Riosom onde apareceu o teste para o Rei dos Ladrões (Robert Wagner) meu primeiro fixo principal em seriados.

6 - Já no Rio de Janeiro, na década de 1970, você realizou diversas dublagens no extinto estúdio Herbert Richers. Dublar o personagem John Boy, na série Os Waltons, é um grande exemplo. A dublagem em conjunto com Lúcia Delor, Magalhães Graça, Selma Lopes e outros nomes, o que representou para você dublar esse personagem ao lado desses dubladores ?

R: Dos que você citou, Lúcia eu já conhecia da Rádio Nacional onde trabalhei como radioator. Com Selma e Magalhães Graça trabalhei inúmeras vezes desde a Riosom. Assim como Diana Morel, Gloria Ladany, Nair Amorim, Nelly Amaral, Francisco Milani, André Filho... enfim, acho que contracenei com todos os que dublavam na década de 1970 e 80 pois dublei mais de 1000 filmes.

7 - Você não ficou até o término da série Os Waltons. Qual foi o motivo ?

R: Não foi bem assim. Começei a dublar os Waltons em 1972, quando estava no início da faculdade. Me formei em dezembro de 1975 e antes de me formar já havia passado em 3 concursos públicos. Escolhi o governo de Minas Gerais e em janeiro de 1976 pedí demissão ao Herbert Richers. Nos Waltons, específicamente, fui substituído pelo Ari Coslov (ator e diretor da TV Globo). Só que a distribuidora do Columbo (que também começei a dublar em 1972) e do Rei dos Ladrões, cujo segundo ano estava sendo dublado na H.R., não permitiram a substituição. Daí o Sr. Herbert, muito a contra gosto, foi obrigado a pagar passagem de avião para que eu fosse todos os finais de semana dublar os epísódios das duas séries. Daí, não perdi o contato. Em meados de 1977 surgiu a possibilidade de um contrato com a TV Globo e deixei o emprego público e voltei. A partir daí retomei o meu personagem nos Waltons e fui até o fim da série, em 1980. Inclusive, no último ano o Richard Thomas saiu, pois queria fazer outros papeis e aquele o estava marcando muito mas o personagem John Boy continuou fazendo a narração da história, em OFF. Em suma, dos mais de 8 anos que a série ficou no ar eu fiquei fora apenas 1 ano e meio.

 
** JOHN BOY WALTON: PERSONAGEM MARCANTE NA CARREIRA DE CELSO.

8 - Ouvindo a voz do ator Peter Falk, nota-se que ele pouco abre a boca, como se estivesse "falando para dentro". Como você desenvolveu essa excelente dublagem do detetive Columbo ?

R: Dublar o Columbo foi uma experiência única em minha vida. Pelo grande número de anos que fiz este trabalho fui pegando todos os trejeitos do Peter Falk e, felizmente, tive o meu trabalho reconhecido pelo público e, por incrível que pareça em se tratando de dublagem, até pela crítica.

 
** COLUMBO: UMA DUBLAGEM INESQUECÍVEL.

9 - Você desistiu de atuar em novelas, preferindo só a dublagem. Isso ocorreu devido a sua profissão de veterinário ou o caminho na tv tem muitos espinhos que dificultam ?

R: Fiz algumas novelas, como por exemplo, Maria Maria, Sinhazinha Flô e Mandala na Globo e Novo Amor na Manchete. A última que participei foi Mandala em 1987. Mas aí eu já estava muito bem sucedido financeiramente e não tinha mas nenhuma disposição para ficar correndo atrás de diretor de televisão para conseguir papel... Aliás, este sempre foi um fator limitante na minha carreira de ator de TV... Nunca tive muito saco para isto... o que somado ao meu grande defeito de dizer sempre, na cara, o que pensava... Não me permitiu fazer grandes "amigos" no ambiente televisivo.

10- Em meados da década de 1990, já se iniava aos poucos, a dublagem sozinho com o diretor. Este fato foi determinante para você abandonar a dublagem ?

R: Rapaz, em 1985/86 eu estive contratado novamente na H.R. e ainda dublávamos todos juntos. Só havia mudado de 16 mm para vídeo. Só vim encontrar este problema quando voltei a HR em 1998. Aí, sim, cada um fazia o seu papel em pista separada. Não gostei nem um pouco. Primeiro pela falta de feed back... a gente passou a contracenar com o phone em inglês... segundo por que o cachet diminuiu significativamente. Na minha época, eu pegava um protagonista de longa metragem e isto significava de 10 a 15 horas de cachet recebido (No Rio o pagamento era por hora). No atual sistema você faz o mesmo papel e ganha 4 a 5 horas... ficando todo o tempo em pé. Conclusão, sai muito cansado, muito mal pago... e não confraterniza com ninguém (O diretor às vezes estava dormindo... literalmente).

Embora tenha trabalhado em todos os grandes estúdios de dublagem, eu sempre trabalhei num estúdio só por vez e sempre ganhei muito bem. Agora os dubladores tem que se desdobrar correndo de um estúdio para o outro, vários no mesmo dia, para conseguir ganhar um salário apenas decente. Neste aspecto este sistema digital ficou bom apenas para os diretores... conclusão, agora tem mais cacique que índio. Aí, com o advento do Home Broker eu descobri que também era bom na área financeira e mudei de profissão.

11- Hoje há diversos estúdios em São Paulo e no Rio de Janeiro, a tecnologia avançou muito, porém excelentes dubladores já faleceram e parece que se perdeu o brilho da dublagem, embora haja novos talentos isolados. Como você vê esta questão ?

R: Sabem quando teremos grandes dubladores outra vez? (Aliás isto já está acontecendo) Será quando esta geração de crianças que começaram dublando desde 4, 5 anos, crescerem. Neles eu vejo a naturalidade (real) e a intimidade com o microfone indispensáveis aos grandes trabalhos. Esta perda de brilho a que você se refere ocorreu porque, num hiato de tempo, pessoas que na minha época de profissional mesmo (década de 1970), quando a HR dublava praticamente 90% dos filmes, dublavam apenas homem-mulher I e II, quando voltei em 1998 eram protagonistas da dublagem, mas com as mesmas limitações e cacoetes de quando faziam homem-mulher I e II. Aí, perdeu o brilho mesmo.


12- O que significa para o Celso: ser um dublador e ser também um veterinário ?

R: Fases da vida de um ser humano em busca de constante evolução.

13 - Deixe uma mensagem para os teus inúmeros fãs, espalhados pelo Brasil.

R: Muito obrigado por gostar e consumir o meu trabalho nas diversas fases públicas. Vocês foram parte ativa da minha evolução.

** Aqui, a trajetória profissional percorrida por Celso Vasconcellos:

Quando saí de São Paulo fiz o seguinte percurso profissional: Riosom; TV Cinesom; Cinecastro (o estúdio onde fui mais feliz e realizado na minha vida, sob a direção da GRANDE CARLA CIVELLI) - o Ultra Seven foi feito lá; Herbert Richers, Governo de Minas Gerais como Veterinário, Herbert Richers, Tv Globo; Minha Clinica Veterinária em Botafogo-RJ (1978); Teatro - As Aves da Noite, de Ilda Hilst, produção de Rosa Maria Murtinho (1982); Caso verdade Olinda vem cantar- TV Globo; Outro caso verdade que não lembro o nome, ambos dirigidos pelo Milton Gonçalves (1983); Herbert Richers (1985/86); Rádio Capital produzindo e apresentando o programa "Emoções - Quando a saudade fala mais alto" (1987/89); Mandala - TV Globo (1987); Novo Amor - Manchete (1986); Rádio Geração 2000 (2002/03) HR (1998/2001)- Analista Financeiro - BOVESA E NYSE (desde 2006).


** AGRADECEMOS A ATENÇÃO DE CELSO VASCONCELLOS EM NOS PROPORCIONAR ESTA PEQUENA ENTREVISTA, A QUAL NOS TRAZ INFORMAÇÕES VALIOSAS PARA A HISTÓRIA DA AIC E DA DUBLAGEM NO BRASIL.

*** MUITO OBRIGADO ***



** AQUI, UM TRECHO DO EPISÓDIO "A MÁQUINA DE ESCREVER" DA SÉRIE OS WALTONS, NO QUAL CELSO VASCONCELLOS DUBLA JOHN BOY:
video


**Marco Antônio dos Santos**

3 comentários:

Thiago disse...

Ótima entrevista, abordando a carreira do Celso Vasconcellos como um todo.
Parabéns ao entrevistado e ao entrevistador!

Betarelli, Ivan D. disse...

Excelente entrevista. Interessante como as distribuidoras davam importância para a dublagem antigamente, coisa que por um longo período pararam de fazer e agora, aos poucos, estão voltando. É a primeira vez que fico sabendo de um caso assim, onde o dublador queria se desligar do estúdio e por ordem da distribuidora, o estúdio teve que arcar com despesas extras pra manter a voz no personagem.

Odair Fernandes disse...

Sensacional. Adoro a dublagem do Celso, um dos meus preferidos. Tem atores que não imagino serem dublados por qualquer dublador. Não imagino outra voz para Michael Douglas que não a do Elcio Romar, ou Marcio Seixas para o Roger Moore. No caso de Celso, ele será sempre a melhor voz que Elvis teve no Brasil.

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