27 de junho de 2010

A "IMAGEM" DA VOZ




Os radioatores, para criar a imagem na mente dos ouvintes, usaram o que julgavam ser características comuns a um personagem. O efeito das ondas radiofônicas parece causar algum encantamento nas pessoas, pois elas acabam acreditando. Assim, os atores davam a “cara” da voz para o público, mesmo que não fossem realmente “a cara da voz”.

A voz emitida é cercada de mistérios. Ao interpretar personagens numa radionovela, por exemplo, os ouvintes imaginam o locutor de acordo com a voz que está sendo ouvida. Geralmente uma pessoa magra pede uma voz mais aguda, ao passo que uma outra de medidas maiores pede uma voz mais potente, do contrário soaria estranho aos nossos ouvidos. Aguçando nossa memória auditiva, descobriremos características culturais, regionais e até mesmo intelectuais através da voz.

 Um fato até interessante, que ilustra bem esta afirmativa, são as mulheres barranqueiras, geralmente cercada de filhos, que lavam as roupas às margens dos rios. De longe pode-se ouvir suas conversas num tom bastante agudo e lamuriante. O mesmo pode-se afirmar do personagem tipo “machão”: um tom de voz meiga e doce conotaria falsidade. Já para o poeta ou o intelectual, o tom meigo é fundamental.

 Há casos interessantes de ouvintes que se inebriam pela voz que se ouve, chegando até a construir, imaginar e se apaixonar pelo locutor, mesmo sem ter a menor ideia de como ele é fisicamente.

Porém, o importante para o ator é que nem sempre as convenções que ele imagina para um tipo de personagem correspondem ao que o público pensa. Por isso, apoiar-se apenas nos estereótipos, ou usá-lo de forma acentuada, pode parecer exagerado demais.

 Há outras situações em que, os personagens possuem uma voz que não correspondem ao seu tipo físico. Então, os dubladores interpretavam de tal forma que a voz dublada encaixasse melhor nas características corporais do ator do que a voz original.

Mas o ator não faz um estudo apenas da parte física do personagem. Este também possui sentimentos, e os mais perigosos estereótipos na interpretação são os emocionais, as atuações mecânicas de riso, choro, medo, dor etc. Assim, os atores precisam utilizar valores reais, os seus sentimentos, para criar uma “nova vida”.
 Eles não são, mas precisam “estar” o personagem. Como ele seria? O que o angustiaria? O que o faria feliz? Que voz ele teria?

A “imagem vocal” de um personagem pelo ator é definida através da escolha de fatores como altura, intensidade, timbre e rítmo. Esta busca pode ter a cooperação do diretor e dos outros atores, mas é o próprio ator quem deve descobrir a voz ideal, com sua experiência emocional e técnica. Quando ele se afasta dos clichês e maneirismos, cria uma nova “alma”, que pega o seu corpo emprestado até quando o personagem existir.

A dublagem deve seguir este mesmo caminho para a busca da “imagem vocal” adequada de um personagem. Tanto nos Estados Unidos como no Brasil, a principal escola para se entrar em atuação vocal para produtos audiovisuais estrangeiros era o rádio.

 Além da capacidade para interpretarem apenas com a voz, como é feito na dublagem, havia a possibilidade de caracterização de vários personagens, como alguns voice actors chegam a fazer num mesmo desenho animado. Dois deles foram os mais conhecidos da área nos Estados Unidos, justamente pela versatilidade, e vieram também da escola radiofônica: Mel Blanc e Daws Butler.

Mel Blanc foi um dos voice actors mais conhecidos de todos os tempos. Os desenhos dos Looney Tunes sempre davam crédito ao ator, indicando sua função como voice characterization. Blanc, conhecido como o “Homem das Mil Vozes”, devido a sua versatilidade de interpretação de personagens, como Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Frangolino, Frajola, Piu-Piu, entre tantos outros só nas produções animadas da Warner Brothers. Ele também deu voz a Barney Rubble, no clássico desenho da Hanna Barbera, na década de 1960, Os Flinstones.
 Ele faleceu em 1989, pouco tempo antes do coelho Pernalonga completar 50 anos de existência.

Já o nome de Daws Butler começou a aparecer bem depois do seu início como voice actor nas produções animadas. Ele já havia trabalhado na MGM, mas seus maiores êxitos foram na Hanna Barbera. Ele fez as vozes de Zé Colméia, Leão da Montanha, Dom Pixote, entre tantos. Como Blanc, fazia vários desenhos interpretando vários personagens, como Pepe Legal e Babalu, e até chegava a fazer todas as vozes em alguns deles.

 Ele gostava de dizer que “Mel Blanc foi o único cara a receber crédito naqueles desenhos animados da Warner Brothers, mas eu fui o único a ter meu nome em comerciais de cereais”, já que seu nome apareceu numa propaganda na TV, dando crédito por sua interpretação do Leão da Montanha. Mas isso sem qualquer mágoa ou ressentimento, já que eles chegaram a contracenar em alguns desenhos.

Devemos relevar que Mel Blanc fez carreira na Warner, que produzia desenhos para o cinema, ou seja, produções mais caras e mais bem cuidadas. Mesmo que suas vozes definam a personalidade dos personagens, eles já tinham um certo charme já no traço do desenho.

 Já Daws Butler ficou mais conhecido pelos cartoons da HB feitos para a televisão, produzidos com extrema rapidez e traços bem mais simples. A graça do desenho precisava estar, então, na voz dos personagens.

Mas também, ao lado de Daws Butler, normalmente estavam Don Messick e Doug Young, dois voice actors que apareciam bastante nos desenhos da Hanna Barbera. Os três fizeram vários desenhos juntos. Enquanto Butler fazia Zé Colméia, Messick era o Catatau. Young era Bibo Pai e Butler, Bóbi Filho. Messick ficou mais conhecido pela voz do Scooby-Doo. Mel Blanc, por sua vez, fez boa parte de trabalho vocal em desenhos animados sozinho.

A grande questão entre Blanc e Butler não é tanto sobre quem é melhor, e sim porque são os melhores. Mesmo com a interpretação de várias personagens, cada um destes possuía sua identidade vocal. Mesmo com tamanha quantidade de caracterizações de personagens, a versatilidade de ambos os atores possibilitou uma infinidade de variações vocais.




A dublagem brasileira, que é bastante criticada por causa da repetição de vozes, não pode se valer de tamanha variedade, pois empresta suas vozes para filmes e seriados, que, às vezes, não permitem uma interpretação tão livre como é feita nos cartoons.

 Mesmo assim, apresentamos muitos dubladores com uma capacidade extraordinária e versatilidade para a dublagem de diversos tipos em desenhos: Older Cazarré, seu irmão Olney Cazarré, Gastão Renné, Roberto Barreiros, José Soares e, principalmente, Waldyr Guedes. Já na década de 1970/80, Orlando Drummond já possui uma grande galeria de personagens (Scooby Doo, Popeye, Alf, etc.) e Sílvio Navas surge como um grande ícone em desenhos, destacando-se o grande vilão Mum-Rá do desenho Thundercats.

A dublagem foi sempre tratada com seriedade no exterior. A Disney, por exemplo, padronizou o seu elenco de vozes a partir da década de 1960, para evitar discrepâncias entre as dublagens de cada país. O cuidado chega até às canções dos desenhos. Um exemplo é um clipe de Colors of The Wind, tema principal de Pocahontas, o Encontro de Dois Mundos, em que cada trecho é cantado em uma língua, mas parece que é uma mesma mulher na interpretação.

O primeiro filme brasileiro a trabalhar com a técnica de dublagem foi "Luar do Sertão", de 1949. A Companhia Maristela de Filmes, de propriedade de Mário Audrá Júnior, era uma das principais responsáveis pela sonorização de filmes.

 Depois, ela se tornaria a Gravasom, uma das pioneiras na dublagem de produtos audiovisuais estrangeiros. Aliás, a prática de dublar atores nacionais foi fundamental para a dublagem de seriados e filmes vindos do exterior para a televisão, que surgiria em 1961.

Na dublagem para o cinema nacional, a substituição poderia ser feita para gravar as falas com as próprias vozes em estúdio, devido à dificuldade do microfone pegar apenas os diálogos em determinadas locações, principalmente no caso de cenas externas, fora do estúdio. Mas também servia para substituir alguma voz considerada inadequada para o personagem.

 Borges de Barros trabalhou com dublagem de filmes nacionais desde 1950 com O Cangaceiro, substituindo a voz de outros atores em todos os filmes do Nelson Pereira dos Santos e de Anselmo Duarte.

O rádio, como a dublagem, é o meio ideal para a voz, porque só ela aparece para o receptor. Por isso, o instrumento vocal, aliado a um texto de fácil compreensão, era importante para instigar o ouvinte a continuar sintonizado ou participar da programação. A intenção é instigar o subconsciente, provocar a imaginação das pessoas.

O rádio teve a sua época dourada no Brasil. Foi a partir da segunda metade da década de 1930 do século passado, quando o veículo começava a se tornar o principal meio de entretenimento da população. E, para as novelas, seriados e humorísticos de sucesso nas emissoras, os atores eram selecionados pela sua capacidade de interpretar com a voz, e não pelo seu tipo físico e estético.

 O importante era a qualidade que os radioatores
possuíam para produzir papeis diversos. Se havia necessidade de fazer um bandido ou um mocinho, lá estavam eles criando uma nova voz. Assim, ela ganha uma direção que havia perdido desde que o teatro perdeu espaço para o cinema.

A própria dinâmica do rádio dava ao meio uma capacidade para a improvisação, o que possibilita aos atores uma liberdade maior na representação, mesmo nas apresentações ao vivo, já que poucos vão observar o erro se ele acontecer.

 Se alguém errasse uma fala ou até desmaiasse, o locutor viria depois para dizer: “Estivemos fora do ar por problemas técnicos em nossos estúdios”. E para artistas com medo de público, era o veículo ideal para representar.

O “culto à voz” era uma das principais características do veículo radiofônico. Nos Estados Unidos, os crooners eram os responsáveis pelas canções de sucesso da época. No Brasil, esta fase teve seu apogeu com cantores como Vicente Celestino, Orlando Silva, Francisco Alves, Sílvio Caldas e Carlos Galhardo, abastecidos de canções, principalmente as de amor, por grandes compositores da época.

 Até mesmo os locutores tinham uma voz “encorpada”, “ressonante”, por causa da dificuldade tecnológica que havia com os microfones, que tornavam as vozes “metalizadas”. Os locutores de futebol também criaram seu vocabulário próprio, com uma narração que não deixa espaços para o ouvinte perder o interesse.

Se o rádio possibilita uma maior interatividade com o receptor, este não é o caso da televisão, um meio de fala unilateral, ou seja, sem troca dialética, sem reciprocidade de discursos. A TV permitiu, pela primeira vez na nossa história, uma “hegemonia tecnológica do falante sobre o ouvinte”.

 A sua linguagem não poderia ser a mesma que a do rádio, da mesma forma que as linguagens do teatro e do cinema são diferentes. Por mais que tenha absorvido muita coisa da programação radiofônica no seu início, a televisão foi logo criando seu próprio jeito de se expressar.



Como o ator de TV não necessitava mais projetar a sua voz, a sua interpretação não precisava ser mais impostada e cheia de gestos. E, diferentemente do rádio, as pessoas dependiam de um tipo físico ideal para o personagem.

 Então, os atores eram escolhidos mais pelo seu porte do que pela sua capacidade de criação da voz. A atuação passa a ser mais “natural”, pois o ator estava sendo praticamente ele mesmo no papel. Por isso que, geralmente, os atores ficam profundamente marcados pelo personagem.
 No cinema, o personagem morre quando acaba o filme, mas não na televisão.

Com esta atuação mais “natural”, a técnica dá lugar a expressões e sentimentos prontos, estereotipados, enfim, uma representação “mecânica”. As interpretações viram um festival de clichês, chorar por chorar, gargalhar porque está sendo pedido no roteiro. 

Então, para reproduzir os sentimentos há que saber reconhecê-los pela experiência própria. Não os experimentando, os atores mecânicos são incapazes de reproduzir os efeitos externos.

Este tipo de formatação interpretativa também afetou a dublagem, já que os produtos audiovisuais traduzidos geralmente vão para a TV ou para o cinema.

É indefinível o critério usado para se qualificar as dublagens. Uma crítica não assinada da revista SET, publicada em junho de 2001, deu destaque à excelente dublagem brasileira da década de 1960, principalmente em desenhos e séries de tv da época.

O fato é que há a necessidade da "imagem" da voz ser criada em nossas mentes, principalmente nos desenhos e séries de tv que acompanhamos. Isso ocorreu com as dublagens de produções americanas e japonesas durante as décadas de 1960/70/80,e ainda na década de 1990, porém durante estes primeiros dez anos do século XXI, houve uma perda muito significativa nesse sentido.

Hoje, sentimos saudades das dublagens realizadas pelos estúdios: AIC, CineCastro, TV Cinesom e Herbert Richers (todos já extintos), mas uma nova geração de fãs já surgiu relembrando as dublagens das décadas de 1980/90 dos estúdios Álamo, Gota Mágica e BKS.


Qual será o caminho da "cara" da Voz ?


**FONTE DE PESQUISA: TESE: "A DUBLAGEM NO BRASIL" de Leandro Pereira Lessa.
Universidade Federal de Juíz de Fora / MG - 2002 **


** CURIOSIDADE:
*Neste vídeo, com muito destaque, aparece a dubladora Gessy Fonseca, que dá opiniões sobre a arte de fazer radionovelas, além de contar suas experiências, de forma muito viva e bem humorada.

A matéria foi ao ar pela Tv Gazeta/SP, no programa "Pra Você" de Ione Borges.
video

**Marco Antônio dos Santos**

1 comentários:

ADEMAR AMANCIO disse...

Muito boa a matéria sobre a voz.

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