21 de março de 2010

ENTREVISTA COM JOÃO ÂNGELO


1 - Quais profissões você exerceu antes de ser dublador e como chegou aos estúdios AIC ?

R: Fiz de tudo um pouco. Fui "gravador de clichês" e trabalhei no Estadão. Depois fiz pequenos serviços aqui e ali até que fui trabalhar na antiga Lutz Ferrando onde fui laboratorista de fotografia. Depois passei a trabalhar na antiga WEMAG, fábrica de carros, na função de programador de produção onde fiquei por dois anos. Após a WEMAG fiquei saltando de trabalho em trabalho sem me fixar em nada. Só pra te dar uma idéia fui até servente de pedreiro.

Mas, durante todo esse período, sempre fiz teatro, que era a minha grande paixão, até que em 1963 comecei a fazer pontas e pequenos papeis na extinta TV TUPI.
Dali para a dublagem foi uma sequência lógica, mas antes de ir para a AIC passei pela IBRASOM, onde dublei por uns bons anos.

2 - Você se recorda da sua primeira dublagem ? Estava ansioso ?

R: Não me lembro da minha primeira dublagem, só que estava mais do que ansioso.

3 - Você teve alguns personagens fixos em séries de tv, os quais marcaram muito aquela geração. Um deles foi o hilário Dr. Bombay de A Feiticeira e o General Schaeffer de Jeannie é um Gênio. Como foram essas experiências com a comédia ?

R: Marco Antônio, a comédia nunca foi problema para mim. A verdade é que gosto demais desse gênero. Comecei minha carreira fazendo comédia.



4 - Outro personagem que foi bem realizado por você, foi o co-piloto Dan de Terra de Gigantes. Sua voz parecia que era do próprio ator. Como foi essa experiência ?

R: O Dan de Terra de Gigantes foi uma surpresa maravilhosa porque eu não esperava por ele. Fiz o teste e nunca mais liguei para o fato. Quando entrei no estúdio e me disseram o que era tive um pequeno susto pois, como disse acima, não esperava.Mas foi muito bom.



5 - Talvez o personagem mais inesquecível para todos foi a substituição de Neville George, dublando Dr. McCoy em Jornada nas Estrelas. Ali, você realmente foi um intérprete da voz que enalteceu a dublagem da série. Comente essa experiência.


R: Quando o Neville deixou de dublar foi uma surpresa bastante desagradável para nós, que convivíamos com ele. Um dia, entro no estúdio, era Jornada nas Estrelas e o diretor me manda dublar o McCoy. Tomei um susto. Disse que não ia dublar, quase discuti com o diretor, mas não teve jeito...: comecei a dublar o médico da nave espacial Enterprise.

Dublei, ao final, dois anos da série, depois não teve mais. Foi, sem dúvida, o trabalho mais marcante que tive em dublagem. Jornada das Estrelas foi um marco na história de séries para TV. Pode até ser que façam alguma coisa mais inteligente, mais dinâmica, mais variada, com melhores personagens e melhores histórias, mas eu tenho minhas dúvidas.


6 - O que representa para você a perda da dublagem original de Jornada nas Estrelas ? Descaso ou crime contra a arte ?

R: Na época em que foi dublada a série, o processo era bem diferente. Havia o que chamamos de magnético e o som captado em magnetico era depois aplicado diretamente na película. Com o tempo, é claro, esse som ficava ruim e o som de Jornada nas Estrelas ficou péssimo. Alguma coisa tinha que ser feita e, lógico, a série inteira foi redublada.
Nesse meio tempo, eu João Angelo, dublador do Dr McCoy envelheci e o Mccoy continuou tendo a mesma idade da época em que foi dublado por mim.
Não gostei nem um pouco da redublagem mas sou obrigado concordar que era o que tinha que ser feito. Me parece que foram guardadas algumas cópias da antiga dublagem da série.

7 - E o Murdoch Lancer ? Foi difícil substituir o Vaccari ?

R: O Vaccari e eu fomos bastante amigos e foi uma honra para mim substituí-lo no Murdoch. Não foi dificil, não.


8 - Naquela época, todos dublavam juntos. Você participou dublando convidados especiais em Daniel Boone, Perdidos no Espaço, Viagem ao Fundo do Mar e em filmes. Há algum caso engraçado ou curioso que tenha ocorrido ?

R: O que me lembro de mais engraçado na dublagem era o fato dos tradutores, na época, quando havia muito vozerio ou alguma fala solta, colocarem em lugar de texto apenas...: ad libitum. Ou seja...: à vontade. E os principiantes não tinham menor dúvida, falavam o Ad libitum com todas as letras e, é claro, o diretor ficava possesso, porque tinha que dublar novamente!

9 - A maioria dos dubladores considera que atualmente dublar sozinho houve uma certa perda de emoção e interpretação. Você concorda ? Por quê ?

R: Sem a menor sombra de dúvida houve uma perda muito grande. Acontece que o dublador, como todo artista, é extremamente vaidoso. Antigamente, quando iam todos juntos para a estante existia uma disputa bastante saudavel para mostrar quem era o melhor. Um dublador dava uma inflexão boa e o outro queria dar uma melhor e o terceiro outra melhor ainda. Hoje não, hoje o que interessa é a velocidade: quanto antes terminar, melhor.

10 - Depois do encerramento da AIC, você participou de programas na TV Cultura e em algumas novelas da TV Tupi. Como foi essa experiência ?

R: Eu ja havia trabalhado em TV antes de ir para a dublagem e sempre me agradou muito esse tipo de trabalho. Mas depois, por minha opção, acabei desistindo de televisão e fiquei só na
dublagem e no setor de áudio.

11 - O que representou para você, como profissional a AIC, e para a história da dublagem brasileira ?

R: A AIC foi a escola de dublagem no Brasil. Por ali passaram muitos e muitos atores que foram deixando a sua marca. Pra citar apenas alguns: Lima Duarte, Laura Cardoso, Dênis Carvalho (que, por sinal, foi o segundo capitão Kirk). Podemos dizer que a AIC foi o celeiro.

12 - Do que você sente mais saudades daquele período ?

R: O que mais me deixou saudade daquela época é que nós faziamos questão de qualidade. Um queria ser melhor do que o outro e isso fazia crescer a dublagem. Hoje não, hoje o que importa é o ganho. E a outra coisa é que na época nós éramos mais boemios e nossas noitadas era famosas.

13 - Atualmente, quais são as suas atividades profissionais ?

R: Continuo, basicamente, fazendo as mesmas coisas que fazia antes. Somente dublagem diminuiu, mas quanto ao resto... tudo bem.

14 - Deixe uma mensagem para os teus milhares de fãs espalhados pelo Brasil que continuam a admirar o teu trabalho.

R: Aí você me pegou Marco Antônio. Não sei o que dizer. Mas vai lá: continuem gostando de dublagem, pessoal!
Um grande abraço e o meu muito obrigado pelo interesse, Marco Antônio.

J. Angelo

***AGRADECEMOS A JOÃO ANGELO POR ESTE PEQUENO DEPOIMENTO, O QUAL SÓ FOI POSSÍVEL ATRAVÉS DA INTERMEDIAÇÃO DO AMIGO MAURÍCIO CAMPOS***


**Relembrando João Angelo dublando o personagem Dr. McCoy em Jornada nas Estrelas:



**Na série Lancer, dublando Murdoch**

**Marco Antônio dos Santos**

2 comentários:

Jefferson Pierce disse...

Em The Lost Canvas:

Hakurei de Altar
Sage de Câncer

Marcelo Traine disse...

João Ângelo , a voz mais bela de todas as vozes de um dublador

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