16 de dezembro de 2009

O COMPOSITOR BRAGUINHA E A DUBLAGEM

AS PRIMEIRAS DUBLAGENS E BRAGUINHA



***ESTA ENTREVISTA COM MARIA CECÍLIA BRAGA, FILHA DE BRAGUINHA, FAZ PARTE DA MONOGRAFIA, NA ÁREA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, DE LEANDRO PEREIRA LESSA COM O TÍTULO: "A DUBLAGEM NO BRASIL", APRESENTADA À BANCA EXAMINADORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA/MG***


Autor de mais de 400 canções, teve como um de seus grandes sucessos Carinhoso, que fez ao lado do maestro Pixinguinha. Trabalhou como diretor artístico da Columbia e da Continental. Em 1945, ele e o amigo Wallace Downey fundam a Todamérica Música Ltda., uma editora responsável por direitos autorais de composições brasileiras.


Em 1960, lança a série Disquinho, com várias histórias infantis consagradas mundialmente e algumas criadas por ele, relançada em CD em 2001.
A entrevista com Maria Cecília Braga, sua filha e detentora dos direitos artísticos de seu pai, foi concedida na Todamérica Música Ltda., na rua Santa Luzia, 799, sala 304, no Centro do Rio de Janeiro, na tarde do dia 19 de setembro de 2002.

P – Como começou o vínculo de Braguinha com a dublagem?

R – Bem, eu acredito que foi assim, pelo que meu pai me contou. Em 1928, chegou ao Brasil um americano chamado Wallace Downey, que veio dirigir a gravadora Columbia. Alguns anos depois, ele viu que estavam começando a ser feitos os filmes sonoros. Então, ele fundou aqui um estúdio de filmagem para fazer musicais, mas não deu muito certo. Aí, ele se juntou a Ademar Gonzaga, o dono da Cinédia, que estava começando a fazer filmes. Os dois fundaram a Waldow-Cinédia. Mas como Downey não conhecia ninguém no Rio de Janeiro, pois estava mais em São Paulo, e na época, em 1934, o meu pai estava começando a fazer sucesso, Wallace convidou-o e o Alberto Ribeiro, que foi o maior parceiro musical de papai, para ajudarem na escolha de elenco. O meu pai já estava no meio musical, com Carmen e Aurora Miranda, Carlos Galhardo, Dircinha Batista. Assim, eles fizeram Alô, Alô Brasil e Alô, Alô Carnaval.
Em 1938, Downey se separou do Ademar Gonzaga, e fundou a Sonofilmes ao lado de Alberto Byington Jr., e o papai continuou junto ao Downey. Foi justamente nesta época que o Walt Disney produziu o primeiro desenho animado de longa-metragem sonoro, Branca de Neve e os Sete Anões, uma adaptação da história dos Irmãos Grimm. Uma vez eu perguntei ao meu pai “Como é que você foi chamado para fazer a dublagem do Disney?”, e ele respondeu: “Ora, mas eu já não era da Cinédia?”. Então, meu pai já tinha experiência com cinema, e naquela época não havia muita gente neste ramo. Ele fez as letras das músicas, orientou toda a dublagem e escolheu todo o elenco. Um americano que estava aqui ficava impressionado com o fato de se conseguir fazer isso no Brasil com o equipamento sonoro que nós tínhamos. E aqui era tudo muito empírico ainda, até mesmo na gravação de discos. Diziam que, para fazer eco, tinham que cantar do banheiro. E Branca de Neve... foi um sucesso.


P – Já relançaram Branca de Neve... em vídeo com uma nova dublagem. Talvez porque a dublagem tenha se perdido com o tempo.

R – E o som daquela época não é o mesmo de atualmente. Mas, em 1940, meu pai teve a idéia de lançar o disco com as mesmas músicas e os mesmos artistas do filme. Ele também fez a dublagem de outros desenhos da Disney, como Bambi, Pinóquio, Dumbo, Alice no País das Maravilhas, e aí eu já havia nascido. Eu me lembro do meu pai falando: “Eu preciso de uma menina de dez anos para fazer a voz da Alice”. Mas eu era muito acanhada, então foi escolhida a filha da Mara Rúbia, Terezinha. E tinha de ser uma criança um pouco desafinada.

P – Ele teve que viajar para os Estados Unidos alguma vez por causa dos filmes?

R – Não, ele nunca foi lá. Aliás, foi o Walt Disney que quis conhecer o meu pai quando esteve no Brasil. Trouxe um relógio de ouro assinado de presente e um isqueiro. Quando o meu filho nasceu, ele mandou um quadro dos 101 Dálmatas com dedicatória. Disney ficou muito agradecido ao meu pai. Uma conhecida disse pra mim que, no vídeo de Cinderela, aparece o nome de papai. A Simone de Morais, que fez a dublagem do papel-título do filme e também participou de várias gravações das dublagens e dos discos, reclamou que Braguinha fez a dublagem para o cinema, e não para o vídeo, e o nome dele está lá. Ela entrou na justiça e ganhou, mas o meu pai pediu para deixar isso de lado. Também aparece nos vídeos da coleção Cante com Disney as dublagens feitas pelo meu pai (canta um pedaço de uma das canções de Alice no País das Maravilhas).

P – Ele chegou a fazer a dublagem do Peter Pan da Disney?

R – Eu não sabia disso, mas recentemente achei umas cartas nos guardados do meu pai, dizendo que o filme seria lançado em seis meses, para ele ir se preparando. Devia ser de um americano que sabia pouco português, porque a escrita tinha muita coisa errada. Aí guardei para lembrar que papai também fez Peter Pan.

 

 
P – Quando Braguinha teve a idéia de fazer os discos com as histórias infantis?

R – Quando ele fez a dublagem da Branca de Neve..., teve a idéia de transformar a história em disco, e ninguém havia tido esta idéia ainda. Mais tarde, ele fez a do Chapeuzinho Vermelho. Todos pensam até que a música Pela estrada afora é de domínio público, mas foi composta pelo meu pai. Aí, ele foi adaptando todas as histórias. Mas cada um as conta a sua maneira. Elas viraram parte do folclore mundial.

P – Braguinha sabia inglês?
R – Não, ele sabia poucas coisas, talvez o Downey traduzisse as coisas para ele. Mas ele fez versões de muitas músicas estrangeiras. E Luzes da Ribalta, do filme do Chaplin, que era instrumental, ganhou letras em português pelo meu pai. Eu acho que o importante de uma dublagem é saber o que a música está querendo dizer, porque existem umas versões que não têm nada a ver e acabam não ficando boas.

P – Braguinha costumava dizer que “fazia” música, mas não “sabia” música?
R - O papai nunca estudou teoria musical. Ele tinha um colega que tocava violão muito bem. Ele já gostava de fazer uns versos, isso com uns 14, 15 anos. Então, começou a aprender violão e fez um grupo com alunos do colégio batista onde estudou. Aí, ele percebeu que podia fazer música e letra.

P – Braguinha ganhou algum prêmio pelas suas dublagens?

R – Por dublagem, não. Eu acho que esta parte da história do meu pai é muito esquecida ou pouco estudada.
P – Braguinha faz alguma comparação das dublagens que ele fazia com as atuais?
R – Não, porque quando essas novas dublagens saíram, ele já estava bem senhor. Mas o meu pai tinha um espírito muito crítico. Quando ele não gostava de alguma coisa, dizia que era uma porcaria.

 
***Braguinha foi o grande responsável pelas canções dubladas dos primeiros clássicos Disney, além de compositor de marchas carnavalescas e músicas de sucesso como "Carinhoso".

Um trabalho extraordinário que, infelizmente, foi totalmente esquecido em prol de uma nova tecnologia. O Brasil ainda não consegue viver o presente sem apagar a sua História !!!

As milhares crianças que ouviram a série Disquinho e suas canções nos clássicos Disney te agradecem!!!


**Marco Antônio dos Santos**

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