7 de dezembro de 2009

ENTREVISTA COM NELSON MACHADO



FILHO DA ATRIZ E DUBLADORA, DULCEMAR VIEIRA, NELSON MACHADO, DESDE A SUA ADOLESCÊNCIA, JÁ ESTAVA DENTRO DE UM ESTÚDIO DE DUBLAGEM.
AQUI, ELE TRAÇA UM "OLHAR" PARA AS DUBLAGENS A QUE ASSISTIA NA AIC E COMO TUDO ISSO RESULTOU NA SUA CARREIRA COMO DUBLADOR TAMBÉM, ALÉM DA SUA OPINIÃO ATUALMENTE SOBRE O UNIVERSO DA DUBLAGEM !!


1 - O que significa dublagem para você, não no sentido técnico, mas como algo que você se apaixonou na tua vida ?


R: As coisas já não me encantam tanto, filosófica, política e economicamente. Mas artisticamente não posso negar que continua sendo um trabalho fascinante. E, com o passar do tempo, com a idade, vim percebendo que também há as questões social e cultural. Social e culturalmente, a dublagem dá uma grande contribuição ao povo de língua portuguesa ao facilitar o acesso de obras de arte, diversão, informação e emoções de outros povos e outras culturas.


2 - Que sentimentos geraram dentro do Nelson Machado (adolescente) ao assistir às dublagens na AIC ?


R: A mesma fascinação que hoje sentem os garotos quando encontram o sujeito que tem a voz do Seiya, do Bob Esponja ou do seu Madruga.


3 - Como adulto e profissional da voz, como você analisa o trabalho daqueles pioneiros, sem os recursos atuais ?


R: Para nós, da distância em que nos encontramos, parece um ato heróico e uma luta brutal contra a falta de recursos e de tecnologia. Vão dizer a mesma coisa de nós, daqui a 50 anos. Para eles era um trabalho novo, uma coisa nova a ser implantada, baseada no que havia de mais moderno em tecnologia na época. Era mais um meio de ganhar a vida, uma boa saída, visto que o radioteatro estava morrendo. Eles não se sentiam pioneiros de nada. Ninguém se sente pioneiro enquanto está sendo pioneiro. Pioneiros só se tornam isso 30 ou 40 anos depois que morrem. Aí deixam de ser pessoas comuns batalhando pela vida, passam a ser personagens históricos, suas qualidades ou seus defeitos são enormemente amplificados e, se foram os primeiros a fazer alguma coisa que ainda estejamos fazendo, são chamados de pioneiros. Mas é como os garotos que hoje fazem animação em flash. Daqui a cem anos, seus nomes estarão gravados a fogo (ou a bytes) nas paredes da História. Mas no momento, eles só estão se divertindo e cavando um jeito de ganhar a vida com o que sabem fazer.


4 - Sua mãe, a atriz e dubladora Dulcemar Vieira, te estimulou a seguir a carreira de dublador, qual foi a opinião dela quando isso ocorreu ?


R: Minha mãe me estimulou em tudo o que tentei fazer na vida. Quanto a opiniões, não sei dizer com segurança. Acho que, como qualquer mãe, ela preferia que eu tivesse seguido uma carreira que me deixasse muito rico. Mas eu nunca fui bom de bola e não me daria bem na política. Então, já que não era pra ficar rico, que pelo menos a vida fosse agradável e divertida. E nada melhor do que ser artista pra conseguir isso.


5 - Excluindo a sua mãe, quais dubladores te encantavam mais quando você assistia dublando ?


R: Segui quatro modelos, talvez por serem os mais jovens e mais próximos da minha idade: Ézio Ramos, Nelson Batista, Olney Cazarré e Marcelo Gastaldi. Mas nunca vi um talento para dublagem e para a utilização da voz como o de Waldyr Guedes.


6 - Há algum fato curioso que tenha ocorrido naquela época ?


R: Há muitos fatos curiosos, brincadeiras entre o pessoal, molecagens, mas o que se espera, coisas do tipo “video-show” ou “erros-de-gravação” que viraram moda nos finais de filmes, não havia. Afinal, nosso trabalho é gravado. O erro faz parte do dia a dia, acontece a toda hora e não tem esse caráter engraçado de “Chi, fui pego”. Ninguém vê o erro, ninguém fica sabendo, ele não vai pro ar, não fica guardado em uma fita pra ser usado depois e acaba não ficando na memória.


7 - E a tua dublagem num filme com John Wayne, como você conseguiu isso ? Você se lembra quem era o diretor de dublagem do filme ?


R: Eu não “consegui”. Só aconteceu. Como conto no livro, eu ia com minha mãe para a A.I.C. Todos os dias. Um dia, o José Soares perguntou se, em vez de só olhar, eu não queria participar. Eu quis. No dia seguinte eu estava dizendo a palavra BEISEBOL no filme A Batalha de Bataã.


8 - Em seu livro "Versão Brasileira", você menciona que naquela época o diretor de dublagem "era mesmo um diretor de dublagem, ele mandava, alterava e supervisionava até o final do produto dublado". Cite alguns diretores de dublagem, que se encaixam nesse perfil. Atualmente, esse perfil foi alterado porquê motivo ?


R: Hoje? Que se encaixe nesse perfil, hoje? Ninguém. Existem vários diretores em atividade hoje que se encaixariam se pudessem. Alguns tentam mas é impossível. O sistema de trabalho de hoje não permite. Na verdade, o sistema de remuneração não permite. Mas há, em São Paulo, muitos diretores que, se lhes fosse dada a oportunidade ou se fosse exigido deles por alguém ou se fossem publicamente expostos por seu trabalho, teriam toda condição, conhecimento, talento e experiência para realizar o trabalho. Eu falo de São Paulo porque é o universo que conheço bem. Não sei o que dizer dos profissionais do Rio de Janeiro.


9 - Também em teu livro fica claro a importância de Líbero Miguel na tua vida profissional. Conte-nos como era a sua personalidade ?


R: Difícil dizer isso. Ele era um homem de 50 anos e eu um garoto de vinte e poucos. Eu não fazia análises. Recebi feliz tudo o que veio dele, ajuda, ensinamentos, amizade, um acolhimento quase familiar, quase de pai. Não me preocupava em analisar nada. Mas 20 anos depois da morte, quando Líbero Miguel já deixou de ser uma pessoa e virou História, vejo que ao menos dá pra se dizer que era um homem de extremos. Porque ninguém fala dele com meios termos; ou detestam ou idolatram. Sou dos que idolatram.


10 - O extinto estúdio MAGA, você considera como um reencontro de amigos da AIC ? Uma herança de excelentes profissionais ?


R: De forma nenhuma. Nenhum estúdio é exatamente herança de outro. Até porque nunca existiu um ESTÚDIO MAGA. Os trabalhos assinados por Maga e Elenco eram, na verdade, realizações da própria TVS. As empresas Maga e Elenco eram apenas razões sociais pertencentes ao Felipe di Nardo e ao Marcelo Gastaldi que a TVS usava para não criar vínculo empregatício com os dubladores. Mas tirando as vozes e os diretores, o resto era da TVS. Os profissionais usados pela Maga e pela Elenco eram os mesmos usados pela BKS, pela Álamo, pela Odil. E também havia muita gente lá que nunca esteve na A.I.C., como Carlos Seidl, Sandra Mara, Wendell Bezerra.


11 - Deixe uma mensagem para os fãs da AIC e para os teus também, que acompanham sempre o teu trabalho na dublagem.


R: A cada dia que passa, o Brasil se torna mais importante aos olhos do mundo. Alguns países ainda dominantes, percebendo a inevitável queda de seu domínio, se desesperam e insistem em manter o chamado “terceiro mundo” em terceiro lugar. Mas há muito tempo que não somos mais terceiros. Falta a nós tomarmos consciência disso e nos cabe, com urgência, tomar duas atitudes para ajudar a agilizar o processo:

1. Temos que parar de dizer que somos menores e que bom mesmo é o que vem de fora. Os dominantes começaram seu domínio convencendo a si mesmos de que nada era melhor do que o que era deles, mesmo que fosse péssimo, como a cerveja.

2. Ter orgulho de exigir que nosso idioma seja usado, em lugar de ter vergonha. Parar de achar que só se fica importante falando o idioma dos outros. Eles que aprendam o nosso se quiserem ficar bem com uma das próximas (muito próximas) potências mundiais. E coisas transpostas pro nosso idioma, como livros traduzidos, manuais em português ou filmes dublados, não são coisas menores para pessoas sem cultura. São um direito de cidadãos e deve se tornar, cada vez mais, uma exigência de brasileiros.

Nelson Machado


**O nosso agradecimento a Nelson Machado por este depoimento tão valioso! Nós, os fãs da boa dublagem só temos a agradecer!!!


**Marco Antônio dos Santos**

1 comentários:

Nelson Machado disse...

Valeu, Marco.
Agradeço a chance de expor idéias e a fidelidade ao que enviei, sem edições, cortes ou alterações.
Não é sempre que se consegue que publiquem exatamente o que queríamos dizer, mesmo que por escrito.
Obrigado!
- Nelson Machado

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