20 de dezembro de 2009

2ª ENTREVISTA COM BORGES DE BARROS




**ESTA ENTREVISTA FOI CONCEDIDA A LEANDRO PEREIRA LESSA E FAZ PARTE DA SUA MONOGRAFIA "A DUBLAGEM NO BRASIL", APRESENTADA À BANCA EXAMINADORA DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNIVERSIDADE FEDRAL DE JUIZ DE FORA/MG, EM 13/01/2003.


Borges de Barros é um comediante com quase 60 anos de carreira. Saiu com a família de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, para passar a juventude em Mato Grosso. Depois foi para São Paulo, onde começou a trabalhar em rádio e, mais tarde, com dublagem de cinema nacional. Daí, adquiriu experiência para dar as vozes aos personagens das produções estrangeiras. Ele é mais conhecido pela dublagem do Dr. Zachary Smith, em Perdidos no Espaço, e do Moe, de Os Três Patetas. Ele também fez o Mendigo Milionário no programa A Praça da Alegria e em sua reedição A Praça é Nossa. A entrevista foi realizada por telefone no começo da tarde do dia 13 de janeiro de 2003.


P – Como estava a situação artística no seu início de carreira?



R – Com o processo criativo do rádio e do disco, o teatro estava perdendo um pouco do seu espaço. O rádio era inovador naquela época. Adquirimos qualidade de interpretação utilizando apenas um único instrumento: a voz, ou seja, a nossa garganta. Quase todo bom dublador saía do rádio, pois estes sabiam que o som vem da boca, e não do alto-falante.



P – Como foi o início no rádio?



R – Comecei no rádio em 1943, depois de me formar em Ciências e Letras, em 1942, que durava cinco anos e era uma espécie de científico antes do vestibular para ser professor secundário. Eu fiz parte de uma elite privilegiada, que participou da era de ouro do rádio. Fazíamos tudo na voz, e o resto da história o povo imaginava. Aprendíamos tudo lá, coisas como interpretação, a inflexão. Outro grande dublador que veio do rádio foi Lima Duarte. Há grandes dubladores que vieram do teatro, mas muitos que eram dos palcos não conseguiam dublar. Ainda há remanescentes desta época, rádioatores que, em vez de ir para o teatro ou para a televisão, entravam para a dublagem.



P – Qual foi seu primeiro trabalho em dublagem?



R – Foi em 1949, 1950, para o filme O Cangaceiro, dos Estúdios Vera Cruz, em que eu fiz o som também. Eu fui contra-regra, mas não sonoplasta. A Vera Cruz foi a primeira indústria cinematográfica de peso, a dar impulso nesta área no Brasil. Antes, eram aqueles filmes da Atlântida, com Grande Otelo e Oscarito. A gente chegou a dublar alguns filmes da Atlântida, mas a maioria era dublada lá. O que sobrava vinha para São Paulo. Todos esses filmes das empresas cinematográficas eram dublados na Companhia Maristela de Filmes. Essa prática foi fundamental para a dublagem de filmes estrangeiros no futuro. Fiz a dublagem também em Tico-Tico no Fubá e Terra Sempre Terra, além de todos os filmes do Anselmo Duarte, do Nelson Pereira dos Santos. Ele me contou que cinema não pagava bem.



P – Você chegou a atuar no cinema?



R – Atuei em dois filmes. Em Simão, o Caolho, fiz uma participação pequena como um pai-de-santo. Também trabalhei em Se o Meu Dólar Falasse, com Dercy Gonçalves e Grande Otelo. O meu nome era o terceiro que aparecia nos créditos, mas o filme era centrado no personagem da Dercy. Mas fazia muito mesmo dublagem de outros atores. Para perceber o valor desse trabalho, há uma história que aconteceu em O Pagador de Promessas, filme com o Leonardo Villar, Glória Menezes e Norma Bengell na década de 1960. Foi filmado na Bahia, na frente da Igreja de São Francisco. O Anselmo Duarte levou a equipe para filmar lá num intervalo entre as novelas. Quem não viu este filme, ainda não nasceu. Existia um homem em São Paulo chamado Zé Coió, que tocava viola. Era um comediante de circo que fazia apresentação em boates boca-do-lixo do Largo do Paisandu. Quando o descobriu, o Anselmo Duarte percebeu que o tipo casava bem com um personagem para o filme, um vendedor de folhetim com poesias, que era conhecido na região como “Cuíca de Santo Amaro”. Não me pergunte que eu não sei porquê. O nome dele era Roberto Ferreira, era um baianinho, magrinho, baixinho. Como eu tinha facilidade para imitar “nortista”, pegaram-me para dublá-lo. E eu fiz muito bem. Acho que acertei mais por felicidade do que por perfeição. Ele assistiu ao filme já com a minha voz e disse que eu havia feito melhor do que ele. Levou uns cinco a dez dias para fazer. Ele acabou ganhando um prêmio como ator revelação do cinema nacional. E esse prêmio não é igual àqueles prêmios de hoje, antigamente examinavam até a cueca do cara para analisar o papel. Esta é a importância da dublagem, Antigamente não se trazia publicações, isso não era importante, mas agora já faz parte.



P – E no caso de dublagem de produções estrangeiras?



R – Algumas vezes, a dublagem fica melhor do que o original. Sou assinante da Net e, em alguns canais, só há filmes em inglês com legendas, mas eu e minha esposa identificávamos quem faziam as vozes aqui. Percebíamos que, em alguns filmes, a voz do cara não correspondia com seu tipo físico, por exemplo, um grandalhão falando fino. Eu sou conhecido pela dublagem do Dr. Smith, em Perdidos no Espaço, que é considerada um padrão. O seriado ganhou por duas vezes o Prêmio Roquette Pinto, que apontava os melhores do rádio e da TV. Depois veio o Troféu Imprensa, mas não é a mesma coisa, era um conselho de autoridades no assunto que faziam a escolha. Acho que a série ganhou o prêmio em quase todos os anos em que estava no ar no Brasil. Para fazer aquela voz do Dr. Smith, eu tive que pegar todas as características. Ficou tão bom, que confundiu a voz minha com a do personagem. Tanto que, quando o Jonathan Harris morreu ano passado, eu recebi condolências. Muitos pensaram que eu havia morrido! Também recebi muitas homenagens, muitas reportagens lembraram do nosso encontro aqui no Brasil.




** DR. SMITH: UM MARCO NA HISTÓRIA DA DUBLAGEM BRASILEIRA **



P – Como é que foi o seu encontro com o Jonathan Harris?



R – Na verdade, ele quis encontrar comigo. Estava acontecendo o Festival de Cinema do Rio, e grandes atores eram chamados para participar do evento. E a dublagem se destacou tanto que muitos dubladores foram convidados pelo destaque. O Dr. Smith já era um personagem carismático, para mim foi como um pênalti no último minuto de jogo. Saiu uma matéria no Estadão que retrata a verdade. O meu sindicato me prestou uma homenagem. Eu devo ser um dos únicos dubladores com fã-clube, o “Perdidos no Espaço”. É formado por um pessoal que possui todos os episódios gravados, mesmo aqueles em preto e branco. Eles sempre me pedem para fazer palestra, há um debate tremendo, falam sobre o que mais gostam no seriado. O principal episódio é um que tem a mulher de verde que fica no ar. Outro preferido é o que o Dr. Smith possui uma espécie de clone, colocaram-no num sarcófago e saíram dois. E eles conversavam entre si. Ele me deu um quadro com a sua fotografia, que vem escrita em inglês “Para o meu melhor dublador no mundo”, algo assim. Isso ele já tinha falado pessoalmente comigo.



P – Lá mesmo no programa da Hebe Camargo?



R – É. O programa da Hebe se chamava O Mundo É das Mulheres, quase igual ao que ela faz hoje no SBT, levando convidados. Então, descobriram que o Jonathan Harris queria conhecer o dublador do Dr. Smith no Brasil. Eu estava na AIC, um estúdio que ficava na Lapa, um tanto longe de onde ficava a Record. Mandaram buscar-me de lá, tivemos que parar a dublagem que eu estava fazendo. Seguraram o programa no ar até eu chegar na emissora. Quando eu apareci, foi uma festa. Realmente, não sei se foi talento ou se foi sorte minha fazer a voz do Dr. Smith. Foi um casamento feliz. Eu não entendo inglês, aprendi alguma coisa durante as dublagens, então o intermediário da conversa foi o Jô Soares, em começo de carreira. Depois a série parou de passar no Brasil. Aos domingos, às seis horas da tarde, era uma audiência enorme.





P – Você disse que o Jô Soares foi o intermediário da conversa sua com o Jonathan Harris. Mas dizem que ele não gosta de dublagem.


R – Ele não é fã de dublagem. Mas eu sou meio suspeito para falar. Acho que ele não é um grande espectador, uma pessoa que chega em casa, janta mais cedo para ver um filme na televisão.


P – Nesta época, várias pessoas tentaram ingressar na dublagem?


R – Foram feitos vários testes. Muitos atores de fama passaram pela dublagem e não conseguiram fazer. Acho que o único que deu certo na área foi o Lima Duarte, mas ele tinha experiência em rádio. O Paulo Goulart tentou. Falam também do Tarcísio Meira, mas este eu não tenho certeza. O Sérgio Cardoso, ator conhecido de teatro, com nome em teatros no Rio e em São Paulo, achava-se que tinha a mesma fama do Paulo Autran. Ele foi dublar um filme do meu lado, na Odil Fono Brasil, que era da Carla Civelli, com o capital do Ademar de Barros, depois foi passado para o filho dele. Ela gostava de teatro, trouxe vários filmes para cá. Então, nós dois fomos escalados para fazer as vozes em O Pepino de Filipo. Eu dublava o Totó, o comediante italiano famoso na época. Ele tinha uma voz rouca, e acharam que a voz dele batia com a minha. Mas o Sérgio tentou umas 10, 20 vezes e não conseguiu.
Precisa ter muito respeito com a função de dublador. Quantas profissões novas já foram inventadas? Mas quem não consegue, começa a dizer que dublagem não presta. Igual a se dizer que dinheiro não é tudo na vida. Fala isso porque não tem. Eu, por exemplo, tenho 1,69m de altura, e posso dizer que “o que vale é ser homem”. Mas é mentira, é inveja, eu queria ser alto, olhos verdes, cabelos louros, porém sempre sendo eu mesmo, com meus dotes.


P – Qual foi sua estreia em rádio?


R – Eu gravava para a Rádio Tupi As Aventuras de Tarzan a As Aventuras do Vingador, que passavam a partir das 17h30. Na época, gravava-se em disco e passavam o programa depois. Eu escrevi tudo. Havia experiências de gravação em fio de aço, pois este possibilitava gravar em cima do erro, o que não era possível no disco, já que eram sulcos. Mas a gente usou primeiro disco, depois passou para o fio. Eu fazia o bandido ou o índio selvagem no Tarzan. No Vingador, eu era o bandido chefe. Lembro que um tinha o nome de Três Tiros, outro era o Mão Pequena, aqueles vilões que atiravam primeiro e perguntavam depois.
Depois fui para Rádio Cultura. Passei para a Rádio América, onde fazia novela de manhã e programa humorístico à noite. Comecei lá em 5 de junho de 1945, foi a primeira rádio que eu trabalhei como contratado realmente. Após isso, trabalhei na Cruzeiro do Sul, Eldorado, Excelsior e Nacional de São Paulo. A Rádio Nacional do Rio aproveitou os elementos da Rádio Excelsior daqui para formar a Nacional de São Paulo. A produção de texto vinha toda do Rio. Havia programas como PRF 8 ou 80, e a emissora aqui nem era a mesma prefixação. Outro era Nada Além de Dois Minutos. O principal era o Balança Mas Não Cai, que foi de grande valia. O Paulo Gracindo e o Brandão Filho faziam o Primo Rico e o Primo Pobre no Rio, e Manoel de Nóbrega e eu fazíamos o quadro em São Paulo. Ele tinha a voz debochada como a do Gracindo, então o Manoel foi o Primo Rico. O Pobre calhou para mim. Foram seis, sete anos assim.


P – Esta experiência em rádio e TV que você teve está faltando aos dubladores de hoje?


R – Isso faz falta, como diriam, uma formação acadêmica, uma escolaridade interpretativa. Se houvesse novelas de rádio nos dias de hoje, talvez fosse melhor. Aqueles que não tiveram este tipo de formação fazem as coisas “em cima dos pregos e da brasa”. Mas pode ser até o filho do dono que esteja fazendo.


P – Você se lembra de sua primeira dublagem?


R – Isso é igual ao primeiro sutiã, nunca se esquece. Foi através do Cristóvão de Alencar, narrador dos cinemas na década de 1940 que o Zé Vasconcellos gostava de imitar na rádio. Ele trouxe uns filmes, como a série do Roy Rogers, e contratou um pessoal das novelas de rádio para dublá-los nos estúdios da Ibrasom, com sua direção. A Ibrasom veio antes mesmo da Gravasom, do Mário Audrá. Aí, escolheu o pessoal das novelas de sucesso, que passavam todos os dias na rádio, selecionou um grupo em que eu estava no meio. Meu primeiro trabalho foi um ator que eu dublei de novo esses dias. Quando vi no “espelho”, com o nome dos atores e seus respectivos dubladores, vi que era ele, Ned Patte. Está vivo até hoje, um velhinho saudável. As séries eram para a TV, mas vinham em película ainda. Só muito tempo depois que surgiu o videotape. A primeira foi a Excelsior, em 1963/64.


P – Vocês não tinham ainda, nesta época, o som guia com o original para acompanhar. Como vocês faziam para dublar?


R – Só tinha a boca, quer dizer, a imagem, o cinema. Era tudo prática. A gente marcava com um risquinho onde virava. Quando via o risco, dublava. Eu sou péssimo para decorar as falas, então tinha que olhar o roteiro, contar os segundos e falar. Esse método é mais difícil, mas, como a dublagem é dividida em anéis, fica menos complicado. Fazia isso nos filmes nacionais.


P – Os Três Patetas foi seu primeiro trabalho com dublagem na AIC ?


R – Não, já tinha feito algumas outras coisas. Eram os tempos que ficaram conhecidos como a “época de ouro da dublagem”. Eram várias séries dubladas na AIC: Terra de Gigantes, Perdidos no Espaço, Túnel do Tempo, Viagem ao Fundo do Mar, Chaparral, O Homem de Virginia. Gravávamos um episódio dos Três Patetas de manhã e outro à tarde. Hoje, isso não acontece tanto. Era uma coisa fora de série. Era uma coisa amorosa, de muita dedicação. Hoje existe isso também, pero no mucho. Éramos o dono da voz, daquele tipo. Atualmente, nem isso é respeitado. Mas eram apenas duas ou três casas de dublagem, a gente tinha maior controle sobre isso. Eu fazia participações nos episódios das séries que tinham atores convidados.


P – Eu lembro de outras participações suas, como convidado especial em diversas séries.


R – É, eu lembro também de ter feito um japonês, em O Túnel do Tempo. Era um grupo pequeno de dubladores naquele tempo, mas todos eram ótimos.


P – Conseguia se sustentar só com a dublagem?


R – Não. No começo de carreira, eu não tinha um gosto seletivo, queria trabalhar. Mas a dublagem era muito barata. Fazia rádio e depois ingressei na TV. Estou na ativa até hoje. Gravava novelas de rádio em disco para o interior do estado, mas isto é muito de vez em quando. Como aqueles comediantes de Las Vegas, fazia shows em boates, mas eram apenas umas quatro ou cinco casas. Fazia temporada. E aos sábados e domingos, ia para o circo interpretar o Primo Rico e o Primo Pobre com um amigo. Havia uma apresentação antes, nosso número era a segunda parte do espetáculo.


P – Quais foram os seus trabalhos em dublagem que mais agradaram?


R – Gostei de tudo. Geralmente vou pelo que me deu mais dinheiro. Cobro aquele preço e, se eles aceitam, está bom. Mas cada um teve seu valor em si, como uma obra num todo. Não destaco nada. Um filme que eu tenho lembranças é O Corcunda de Notre Dame, com o Charles Laughton. Às vezes, é sorte. A técnica é importante, mas tem horas que o timbre cai em cima. Fiz o Burl Ives, em Algemas de Cristal, que ele é um juiz e tem uma mulher viciada. Só vi uma vez. Nunca vi esse filme em locadora. Acho que falta isso também, um lugar, como uma videoteca em cada cidade, para filmes dublados. Uma “dublateca”, por assim dizer. Podia até vender. Isto contribui para a nossa cultura, é uma boa idéia.


P – Você sente falta do público na hora de dublar?


R – É uma defasagem, um vazio. A gente sente muito. Um abandono. Eu considero o rádio o mais difícil de se fazer. Televisão é fácil, teatro mais ainda, mas dublagem é complicado. Você fica num estúdio sozinho, como se dubla hoje, só com o diretor numa outra sala, com um vidro no meio. Você precisa pensar, imaginar. Aparece um índio, e você precisa pensar que ele tem uma cultura própria, que ele deve ser assim. Mas a voz original, geralmente, não bate bem com a fisionomia do personagem, 80% dos filmes não servem de guia.


P – Você já pegou algum filme que veio sem o som original?


R – Era muito raro.


P – O que você pensa dos trabalhos num estúdio de dublagem hoje?


R – Eu acho que é para fazer tudo mais depressa, já que na dublagem paga por hora. É tecnicamente e artisticamente errado.


P – Muitos dentro da dublagem concordam com isso, porque daria mais tempo para fazer mais trabalhos em outras casas.


R – É, o cara vai lá e faz tudo em meia hora, pega um táxi para ir ao outro estúdio. Numa casa ele faz um elefante, na outra faz o pai da mocinha, muda de concepção muito rapidamente. O que conta é o lado comercial, a casa quer que o dublador faça o trabalho na sua casa primeiro.


P – O que acha de se fazer a dublagem sozinho no estúdio?


R – Há casos em que se precisa fazer todos juntos. Hoje são quatro pistas: de som, de música, de efeitos e de voz. Quando tem muitas vozes juntas é obrigado a fazer assim, para gravar na trilha de voz. Mas a maioria das vezes é sozinho mesmo. Acho que trabalhar deste jeito é pior. Quando estamos juntos, sentimos a troca, o calor humano. Às vezes, nós queremos melhorar nossa parte, então pedimos para ouvir o que o cara fez antes para saber como colocar a emoção. E muitas vezes não dá para seguir pelo original, por causa da diferença de entonação de cada língua. No inglês, a expressão “Morreu minha mãe” talvez não teria ênfase como se fosse falado em italiano. Este faria um escândalo para dizer isso.


P – Por falar em línguas diferentes, vocês tentavam “abrasileirar” algumas coisas.


R – Nomes, não. Este recurso era pouco usado. Por exemplo, das tribos indígenas americanas, nós só deixávamos sioux, que era a mais conhecida. Havia piadas do humor americano que, contadas aqui, não teriam a menor graça, muito difícil bater com o nosso costume. Ninguém vai rir no Brasil se tiver uma piada em que um cara fala com outro que estava doente, então pergunta qual era a doença, o primeiro responde: “Febre amarela”. E o outro diz: “Puxa, que cor horrível!”.


P – Vocês mudavam as falas no estúdio mesmo?


R - Dentro do estúdio, falando com a pessoa certa, nós podíamos mudar alguma coisa. Muitas frases parecem que foram escritas a quatro mãos, mas algumas vezes é feita por uma só. Quem fazia a versão dos filmes naquela época era o Hélio Porto, um excelente tradutor e diretor de dublagem por questões econômicas. Ele foi muito importante em grande parte deste processo. Foi idéia minha o Moe chamar os outros de “cabeça de pudim”, no original era cabeça de outra coisa. Chamar o robô de “lata de sardinha enferrujada” em Perdidos no Espaço, fui eu que criei isso também. Eu mudei o texto, e o Hélio disse “Pode fazer!”. Era quase que uma molecagem. Eu fico até com medo, porque pode parecer esnobe demais, só porque fez sucesso.

** DR. SMITH: O VILÃO QUE TODOS SE APAIXONARAM/ PARABÉNS BORGES DE BARROS **



P – O Gilberto Baroli, que é seu amigo, também fazia tradução. Fica mais fácil para um dublador fazer a adaptação dos produtos a serem dublados?


R – O Baroli e o Hélio são os melhores adaptadores em São Paulo. Deve haver outros no Rio, mas aqui são os dois. Se o trabalho caísse na mão de um ou de outro, ficávamos tranqüilos. Baroli tinha conhecimento e talento.


P – Havia representantes das distribuidoras para fiscalizar as dublagens?


R – Eles tinham medo no início. Sempre tinha uma espécie de inspetor, um representante da importadora nos dois ou três primeiros capítulos. Alguns nem falavam português direito, comunicavam-se com a ajuda de um intérprete. Eles queriam que ficasse igual ou até melhor que o original. O importante era agradá-lo, assim o dono da casa estava recebendo da distribuidora e nos pagando.


P – Por causa disso, no começo, muitas coisas ficavam como o pessoal do Casseta e Planeta gosta de brincar no “Fucker and Sucker”?


R – É, acontecia porque nós estávamos engatinhando, aprendendo a andar. Não fizemos faculdade, somos como o Brasil, “gigantes pela própria natureza”. A impostação de voz foi ficando meio esquecida.


P – E havia muitas dublagens em que se percebiam o sotaque paulista ou carioca.


R – No começo. Isso foi colocado erroneamente, depois foram corrigindo espertamente, percebendo que aqueles filmes iriam para todo o Brasil. Agora isso acontece menos. Mas, às vezes, colocam uma dublagem de um bandidão, um malandro com sotaque carioca (faz o bandido com sotaque carioca).


P – Nos anos 70, com a Herbert Richers pegando a maioria dos trabalhos, atrapalhou a renovação da dublagem em São Paulo?


R – Atrapalhou sim. O Herbert Richers formou uma empresa, com uma organização muito boa, fez grande dinheiro, depois passou o negócio para a mão dos parentes, mas já está rico. Hoje, a Herbert possui muitas rivais, mas antigamente era só ela. Em 1975, aproximadamente 95% dos trabalhos foram para lá. Isso por culpa da negligência dos donos das empresas de São Paulo. Foi muita picaretagem, ficaram com parte do dinheiro. O Herbert cuidou e descobriu a seiva da longa vida. Ele levou a sério. Não fizemos isso aqui, por causa desses “marreteiros”, que entraram nessa só para ganhar dinheiro.


P – Gilberto Baroli considera a maioria da dublagem atual no Brasil mal feita. Você considera o mesmo?


R – A maioria não, parte dela. Não sou tão radical quanto o Baroli, mas respeito sua opinião. Muita coisa é feita somente pelo lado comercial. Como não tem policiamento, como um departamento de cultura para fiscalizar as empresas, alguns picaretas faziam o que fosse preciso para ganhar dinheiro. Eu não cito nomes, mas se perguntar para os dubladores, eles vão saber certinho.


P – Como você vê as críticas em relação à dublagem?


R – São sempre coisas direcionais. São coisas de críticos que não têm nada para fazer! Estão ali para fazer matéria, então buscam alguma coisa ruim para meter o pau porque precisam fazer matéria. Depois de 50 anos que eu trabalho com dublagem, eu só vi uma crítica positiva. Foi na revista Veja, um comentário sobre um filme que iria passar na Globo, Férias de Amor, com William Holden. O crítico cumprimenta o roteirista que, no caso, é o tradutor da dublagem, pela versão estar à altura do filme. Enfiar o pau é fácil, é fazer igual estes programas na televisão: junta-se um bando de pessoas para falar sobre traição ou sobre pedofilia, e elas ficam a semana inteira só falando sobre isso. É começar e pronto. É uma tremenda falta de talento, de cultura.


P – Como está o mercado da dublagem hoje em São Paulo?


R – Parado, quase em falência. As portas vão se fechando, vão se vendendo negócios. Uma das grandes razões é a econômica, porque a legendagem é bem mais barata. É só ir lá no aeroporto de Cumbica que já pega o filme praticamente pronto, é mais fácil. A parte econômica está comendo a dublagem e estraçalhando toda a parte artística, de todas as áreas. Hoje, vem esse pessoal de fora com grandes espetáculos prontos, trazem A Bela e a Fera para cá e depois vão embora para buscar outro.


P – Mas a televisão aberta continua passando filmes dublados.


R – Mas, justamente pelo efeito econômico, não há como colocar filmes dublados durante 24 horas. Existem emissoras hoje que ficam direto no ar, ou 22, 20 horas. Então, enchem com programas de culinária e de fofoca, que são mais para vender produtos, para cobrir. Com isso, é um filme dublado que não vai ao ar. Só se a dublagem fosse mais respeitada, mas nem a lei que existe para a classe é seguida, jogaram pela janela. Talvez um político que queira fazer nome pode tentar voltar. A dublagem ficou em segundo plano. As distribuidoras põem o original ou vêem pela tabela quanto fica a dublagem. O americano resolve colocar o que quer no país do outro. A profissão está acabando, ou está limitada. Antigamente, era um trabalho integral, agora é apenas uma ou duas vezes por mês.


P – Quais os dubladores que você destaca?


R – Todos do Rio e de São Paulo, não faço destaque para ninguém. Existem um ou dois ruins, 40 bons e 10 excelentes, mas não mais do que isso.


P – Muitas pessoas reclamam que as vozes são sempre as mesmas nos filmes.


R - Ainda é a questão da economia, fazer melhor e mais depressa. Os clientes são exigentes. Quando vem da Globo, eles já indicam o dublador que querem, há pessoas lá responsáveis por estudar nosso trabalho. A emissora quer os melhores filmes, os melhores programas, o resto vai para as outras. Quando as casas marcam um determinado horário na escala, a gente já sabe, é a pressa. Não devia ser assim. Deveria ser feita uma seleção, um trabalho melhor.


P – O que você acha dos artistas famosos que fazem dublagem em alguns desenhos animados ou filmes?


R – Nem sei se você pode escrever isso, mas eu acho horrível! Não retratam aquilo que é o nosso trabalho. Trabalham só porque tem uma carinha bonita. Não há sentido nisso. Eles não plantaram aquela rosa, eles vão cortando em qualquer lugar. É uma insensibilidade, uma infiltração no meu negócio. Pode ser até despeito, raiva minha, mas eu sei que faço melhor, e dou melhor rendimento. Uma dubladora excepcional como a Isaura Gomes pode ser substituída por uma Hebe Camargo, que acho que até aquela risadinha vai colocar na dublagem. Assim, não fica valendo a parte artística, a função não vai se aperfeiçoando, fica relegada ao segundo plano. Eu faço tudo com carinho, senão a remuneração depois não vai servir para me satisfazer, só para me alimentar.


P – A classe de dubladores é unida?


R – Não, completamente desunida. Um não ama o outro, às vezes nem respeita. São como fosse um grupo de saltimbancos, cada um chega na cidade e vai para um canto diferente. Dizem que nós entramos no Sated, mas foi o Sated que se apoderou de nós.


** Aqui, um trecho do filme "O Corcunda de Notre Dame", no qual Borges de Barros dubla, magistralmente, o personagem principal: Quasímodo, realizado pelo ator Charles Laughton. Neste trecho, há a presença da atriz Maureen O'Hara dublada por Líria Marçal:



**Borges de Barros faleceu em 07 de dezembro de 2007, mas nesta pequena entrevista, ele nos mostra que, muito mais do que um extraordinário artista, foi sempre um profissional íntegro e com um brilhante senso crítico do que foi a dubla

Parabéns ao nosso eterno "caro colega".

**Marco Antônio dos Santos**

2 comentários:

Betarelli, Ivan D. disse...

Excelente entrevista. O que dizer de um profissional como este? Foi um dos pioneiros e com muito louvor. Lembro-me do Versão Brasileira que o Nelson gravou com ele, já velhinho e cansado, mas uma pessoa extraordinária.

Parabéns a quem conduziu o papo e ao Marco Antonio que publicou no Blog.

ADEMAR AMANCIO disse...

Que pena! Muito boa a entrevista.

Postar um comentário