6 de novembro de 2008

ENTREVISTA COM SÍLVIO NAVAS




1 - Antes de ser dublador, você teve uma enorme participação artística na extinta TV Excelsior de São Paulo. Quais foram as atividades que você realizou ?

R - Não foi uma participação artística de renome, na verdade, foi meu começo na televisão.
Começei como figurante (mas já sendo ator desde os 12 anos de idade), ganhei concursos artísticos (Um texto, duas interpretações, dirigido pelo Waldemar de Moraes), participei da linha de show (Show Riso, Galeria Quá quá quá, Os Adoráveis Trapalhões), substitui gente importante, como Procópio Ferreira (graças ao Hilton Franco), participei das novelas Minas de Prata e Redenção, participei de campanhas beneficentes (Ajude Uma Criança a Sorrir), fiz co-produção e vi a TV EXCELSIOR "morrer".

2 - Quando você foi convidado para assistir a uma dublagem na AIC, pelo saudoso Older Cazarré, você decidiu que essa seria tua profissão ? Como foi esse processo ?

R - Foi assim, uma luz que acendeu de repente e nunca mais se apagou. Eu tinha, como tenho ainda, um grande problema de transpiração. Bastava acender aquele conjunto de luzes (cada um deles com 20.000, de potência), que eu, literalmente, me derretia...rsrsrs. Como a coisa que mais gosto é interpretar, consegui, com a dublagem, reunir o útil ao agradável, interpretar médicos ou monstros, pobres ou ricos, gordos ou magros, conhecidos ou desconhecidos, sempre numa luzinha suave, muito suave (mesmo assim ainda transpiro quando dublo, mas ninguém vê...rsrrs)

 3 - Você começou fazendo pequenas participações na dublagem, alguns convidados, e a 2ª voz do Patterson de Viagem ao Fundo do Mar, além do promotor em Besouro Verde. Esse período na AIC foi o teu aprendizado para uma carreira brilhante que viria ?


R - Acho que sim, não sei se brilhante, bondade sua, mas acho que não teria os "macetes", que hoje tenho, se não tivesse visto trabalhar um Borges de Barros, um Carlos Campanile, um Wilson Ribeiro, e tantos outros, com suas características próprias, com suas formas de dominar um texto/lábio, com suas maneiras de, tão bem quanto possível, se expressarem.


** A 2ª Voz do marujo Patterson / 3ª e 4ª temporadas**

4 - Para você, o que representa a AIC, para a história da dublagem no Brasil ?

R - Se não houvesse existido uma A.I.C. - Arte Industrial Cinematográfica (não confundir com BKS, que é uma outra história, que não convém ser contada...hehehe), acho até, que a dublagem não teria vingado no Brasil, pelo menos, não em São Paulo.

5 - Muitos sentem saudades do bar do Tetéu, além desse ponto de encontro de dubladores, do que você sente saudades ?

R - Toda vez que lembro do Older e do Olney Cazarré, meus olhos ficam marejados, muita saudade...foram amigos, irmãos, companheiros de trabalho e de palcos, de noitadas. Por falar em noitadas, não posso esquecer de citar um nome, Arquimedes Estrázulas, o conhecido Daniel Boone, Jorge Pires, Nelsinho Batista, vou parar pra não ser injusto.

 6 - Após a AIC, você esteve presente em diversos estúdios. Qual ou quais atores você se sentiu feliz ao dublar ? Por quê ?


R - O primeiro ator de "respeito" que dublei foi o loirinho, da dupla da série "Hawai 5-0", o sentimento de admiração que tenho, pelos atores estrangeiros, começou nesse dia (dublei de manhã à noite, com Hugo de Aquino Júnior, um ótimo dublador da época). Gostei de dublar todos os atores, como, por exemplo, Humphrey Bogart.

7 - No estúdio Herbert Richers, você fez uma extensa carreira como dublador e diretor de dublagem. Para você, qual foi a dublagem mais trabalhosa, como dublador ou diretor ?

R - Sem dúvida a mais trabalhosa como dublador, mas tb a mais gratificante, foi Charles Chaplin, em O Grande Ditador (aquele discurso...rsrsrs). Como diretor, tive um grande abacaxi pra descascar, uma das primeiras minisséries, Holocausto, gente que não acabava mais, cada ator melhor que o outro, uma escala terrível de difícil. E a grande responsabilidade do "produto novo" na praça televisiva.

8 - Você tem uma enorme capacidade de alterar vozes para desenhos animados. O personagem Mun-Há de Thundercats foi aquele mais enriquecedor em termos de dublagem para você ?

R - Não, ele foi um dos mais compridos (muitos capítulos), e que acabou caindo no gosto do público, até porque eu era cercado de ótimos dubladores. Dessa vez não vou citar nenhum, eram ótimos...

9 - Qual a comparação que você faria entre o mundo da dublagem na época da AIC e atualmente ?

R - Essa foi a pergunta mais difícil de responder...vejamos...a A.I.C. pra mim, foi a "idade da pedra" da dublagem, mas polida com muito coração (leia-se: interpretação, sincro real, pouquíssimos recursos e adoráveis dubladores). Hoje estamos na "idade da técnica" à nosso favor (favor???), puxa ali, comprime lá, estica um pouquinho aquela, vamos fazer de novo só essa...e adoráveis dubladores...

10 - Deixe uma mensagem para os teus fãs que te acompanharam em diversas gerações dublando inúmeros personagens.

R - Nesta vou ter que me repetir, mas é assim.
Bom, primeiro, obrigado por gostarem de nosso trabalho.
O que eu queria pedir a todos é o seguinte: Não deixem que a dublagem passe em branco. Quando virem um filme ou desenho animado deixem os ouvidos bem aguçados. Quando terminar o divertimento deêm uma nota, pra vcs mesmos, na dublagem do que acabaram de ver. Se perguntem, se entenderam todas as sentenças, se as boquinhas estavam condizentes com o texto, se a interpretação estava adequada àquele filme ou desenho animado. Se vcs se sentirem menosprezados pela atenção que lhes deram na dublagem, tentem encontrar um veículo pra contar isso, mas, ao mesmo tempo, se vcs acharem que foram contemplados com um ótimo trabalho de dublagem passem e-mails, para esses veículos, dizendo do contentamento que tiveram ao verem um trabalho tão bem feito.
Um abraço, pax, lux e até...

Silvio Navas - 28/10/2008

**Agradecemos de coração a esse pequeno depoimento, mas sempre muito enriquecedor para os fãs da dublagem.**

**Aqui, a extrema competência ao dublar Charles Chaplin em "O Grande Ditador"**
video

**Sílvio Navas faleceu no dia 29 de julho de 2016**


**Marco Antônio dos Santos**

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