28 de novembro de 2008

ENTREVISTA COM LIMA DUARTE




NESTE DEPOIMENTO FOI REALIZADA UMA ADAPTAÇÂO E ATUALIZAÇÃO DO QUE LIMA DUARTE DEU AO SITE OFICIAL DE HANNA-BARBERA EM 2001.

1 - Como era o processo de dublagem naquele naquele tempo tempo? Há 45 anos atrás. Era mais feeling ou técnica?

R: Bem, era um misto, mas era mais feeling. A técnica, aliás, você sabe muito bem, trabalhava contra nós. Sofríamos muito com a técnica. As dublagens antigas, até mesmo as do Manda-Chuva, não eram perfeitas no sincronismo. Elas eram muito mais de interpretação mesmo. Nós interpretávamos melhor os personagens, esperando assim compensar as falhas técnicas. Eram retirados trechos dos desenhos, com mais ou menos 1 minuto cada. Depois eram remontados já dublados. Eram chamados anéis de gravação. Minha cabeça quase explodia com o som das pancadas que serviam para sinalizar que estava sendo gravado o som. Eu lia o papel, com uma lâmpada muito precária, e ao mesmo tempo tentava sincronizar minha voz com o movimento da boca do personagem. Eu ficava muito atento, pois o desenho não é um ser humano. É uma carinha com dois olhos e um risco chamado boca. Quando este risco ficava redondo, tinha que sair um som. Significava que ele estava falando. É o meu martírio até hoje, quando , Manda-Chuva, subia no caixote naquele beco, para fazer um discurso para seus amigos. Na época, o meu diretor de dublagem era o Older Cazarré, "um amor de pessoa". Quando ele falava que tinha alguma coisa fora aqui, que é aquele negócio ali pelo meio, um "tiquinho ali", faltou um pouco de intensidade, outra vez, ok? Era tudo outra vez.Isso era o dia inteiro até acertar. Uma coisa medieval! E assim tudo era feito. O que hoje é feito tecnologicamente, eletronicamente, maravilha, sem nenhum problema, eu é que tinha que fazer.

2 -Por que temos a impressão de que as dublagens nos anos 60 ficavam muito mais realistas do que as atuais?

R: Essa impressão advém do fato que as dublagens eram mais intensas, mais bem interpretadas. Hoje o dublador trabalha muito . Quanto mais horas ele dublar mais ele ganha. Então ele quer ir rapidinho. Naquele tempo a gente ganhava por anel mas tinha de compensar uma deficiência eventual de sincronismo com uma certa intensidade. A gente gostava dos personagens. Eu gostava de ser , Manda-Chuva. Eu adorava ser o Dum-Dum. Eu pensava, sei lá, numa psicologia para o personagem. Eles eram mais humanos eles eram mais intensos, eles eram mais verdadeiros. Eu acho que advém disso.

3 -E alguns seriados da época, no final dos créditos, apareciam os nomes dos dubladores. Você acha que esta prática deveria continuar nos dias de hoje ?

R: Eu dublei Manda-Chuva, há 50 anos e nunca vi R$ 1,00 desses direitos. Nunca me pagaram nada. Nem do Dum-Dum, nem do Robert Taylor, O detetive, e de muitos outros que dublei. Nada mesmo. Nem sequer o nome foi publicado. Se tivessem um pouco de decência no direito autoral, tinha de dizer o nome do dublador e de vários colegas meus que não fizeram uma carreira como a minha, se me permite a modéstia, brilhante de ator, que não preciso mais disso. Se não fizeram essa carreira permanecem obscuros, nos escuros, enfumaçados. Ninguém fala neles e são muito mal pagos.

4 -Além Manda-Chuva, quais os outros personagens que já dublou?

R: O jacaré Wally Gator, o amigo da tartaruga Touché chamado Dum-Dum,, o gato Espeto da turma, e o detetive Robert Taylor. Gostaria de fazer uma homenagem ao companheiro e grande dublador chamado Gastão Renné, que dublou entre vários outros personagens, o Batatinha e o Guarda Belo.


**Fotografia de 1955**

5 -O que é mais difícil dublar, desenho animado ou atores de verdade?

R: Sem dúvida nenhuma os desenhos. A razão é que os bonecos não respiram e as frases são colocadas sem intervalos entre elas, não permitindo fôlego para o dublador.

6 -Você aceitaria voltar a dublar?

R: Uma série não mas talvez um filme como o Rei Leão. Por causa do tempo que disponho. Minha vida caminhou para outro lado. Hoje sou apenas um apreciador das dublagens. Quando eu era mais jovem eu gostava muito de dublar o Peter Lorre, que fez o Enio do filme M, O Vampiro de Dusseldorf, dirigido por Fritz Lang.


7 - Quanto tempo era necessário para dublar um episódio?


R: Em média era o dia inteiro, principalmente quando Manda-Chuva, subia naquele caixote e fazia seus discursos ou enganava o Guarda Belo. Dependendo do episódio ficava um pouco para o dia seguinte. Já o Wally Gator e Dum-Dum, por serem mais simples e curtos, eram necessárias de 2 a 4 horas.


8 - Que tal uma mensagem aos milhares de afccionados pelos desenhos da Hanna-Barbera, àqueles que, de geração em geração, continuam se divertindo com o carisma e o humor de tantos e eternos personagens?


R: Pense um pouco na alma, pense um pouco no espírito e na eternidade do espírito humano. Só o vento soprando, soprando, soprando sobre a argila, se compara ao espírito humano. Pense um pouco na delicadeza, na nobreza dos sentimentos, você vai ver que pensando bem assim, você vai exigir que os desenhos sejam assim também. E que aquele nobre defensor da justiça, dos fracos e oprimidos, que usa uma espada e sai cortando cabeças e pregando a ideologia da violência é verdadeiramente o seu inimigo.

"Os sons tem alma."

 Lima Duarte




**O PERSONAGEM DUM-DUM**


***Em entrevista ao programa Roda Viva da Tv Cultura, no ano de 2000, Lima Duarte confessou que o personagem que ele mais gostou de dublar foi Dum-Dum, o amigo da Tartaruga Touché***


** O PERSONAGEM MAIS ADORADO PELA GAROTADA: MANDA-CHUVA**




**A EXCELENTE DUBLAGEM DE WALLY GATOR**


**VÍDEO 1:




**VÍDEO 2:



**UM PEQUENO TRECHO DE A TARTARUGA TOUCHÉ**



LIMA DUARTE DUBLA O PERSONAGEM DUM-DUM


**Marco Antônio dos Santos**

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