21 de novembro de 2008

ENTREVISTA COM DALETE CUNHA



** DALETE CUNHA NA DÉCADA DE 1960 / AIC**


Oi Dalete: Tudo bem ?


R - Tudo ótimo!!!


Estou te enviando algumas perguntas, para você deixar o seu depoimento no Blog AIC.


R – OK!.. Mas antes, eu quero agradecer a honra de ser entrevistada por você, um profundo conhecedor da dublagem, principalmente da AIC!

Você sabe coisas da AIC, que nem me lembro mais!!!

1 - Qual foi a sua formação técnica para entrar na AIC ?


R – Não tinha nenhuma. Tinha apenas 14 anos de idade, foi o meu primeiro emprego. Entrei na AIC através de uma prima, Maria Lucia, que trabalhava lá. Ela sabia da minha paixão por filmes e deu um jeitinho de me colocar lá. Iniciei na sala de montagem, recuperando fitas magnéticas. Apaixonei-me pela área técnica!


2 - Descreva a atividade principal que você exercia na AIC.


R – Posso dizer que foram duas:


Marcação de filmes: meu trabalho era fazer a marcação/divisão dos anéis (loops) no filme e no script original ou traduzido. Assistia aos filmes em um equipamento, conhecido como "olho de boi"; pois tinha uma tela muito pequena. O filme era rodado manualmente por duas enroladeiras verticais. Geralmente trabalhávamos com cópias em preto e branco, pois eram cópias de trabalho. Éramos duas fazendo este trabalho: eu e Dona Lídia, uma senhora alemã, com quem aprendi muito. Uma curiosidade: era eu quem marcava os filmes de guerra; pois ela tinha pavor desse tipo de filme por conta dos sofrimentos que havia passado durante a 2ª guerra.


A outra era preparar o filme para ser mixado pelo Sr. Benito ou Willian. O trabalho era realizado em uma mesa de edição; com pratos (enroladeiras) horizontais e uma tela bem maior que a "olho de boi". Esta mesa, é conhecida como Moviola. Sincronizava as pistas de MEs (músicas e efeitos) e a própria dublagem, pois sempre havia correções de sincronismo à fazer.


3 - Naquela época, todos os integrantes da AIC não tinham ideia que estavam contribuindo para a história da dublagem no Brasil. Comente.


R – Pois é Marco, a gente nem pensava nisso! Naquela época, a AIC funcionava dia e noite, pois o volume de trabalho era muito grande! Eu particularmente amava meu trabalho. Sempre ficava após o meu horário, para aprender outras funções. Foi assim que consegui minha formação técnica!


4 - Quanto tempo você participou da AIC ?


R – Entrei na AIC em janeiro de 1964 e saí em fevereiro de 1974.


5 - A parte técnica da dublagem evoluiu muito nesses últimos 40

anos. Quais os aspectos positivos e negativos na sua opinião ?

R – É Marco a tecnologia evoluiu, mas infelizmente nossos técnicos não foram preparados para usá-la, e o que temos hoje é um som muito abafado e comprimido. Acho que o problema está na maioria dos estúdios. Os técnicos não têm treinamento suficiente para usar todos os recursos que essa tecnologia oferece. Falta investimento no profissional. Compare o som de qualquer estúdio de hoje com o som da antiga AIC. A diferença de qualidade é gritante, não?!


6 - E a sua carreira no cinema? Como surgiu?


R- Paralelamente a AIC, eu fazia assistência de montagem (na Odil Fono Brasil) para um montador e músico muito respeitado no cinema, Roberto Leme: que mais tarde viria a ser meu esposo. Saí da AIC, para trabalhar em uma grande produtora de comerciais, Sonima Produções. Fui porque eu queria me especializar como montadora/editora. Foi onde eu aprimorei meus conhecimentos técnicos. Na AIC eu não teria essa chance, pois era um trabalho muito limitado; pois lá eu editava apenas o som, e eu queria mais que isso.


Acho que a sorte me ajudou um pouco, pois trabalhei com grandes nomes do nosso cinema: Anselmo Duarte, Carlos Manga, Walter Hugo Koure, Luis Sergio Person, Silvio de Abreu, entre outros. Trabalhei também, com meu marido, como programadores e exibidores de filmes em um navio turístico, em viagens para o exterior; onde ficamos uns seis meses. Na volta abrimos uma produtora; distribuidora e exibidora de filmes: Prodsul Cinema e Audiovuais Ltda. Prestávamos serviços para outras produtoras; produzíamos documentários e longas metragens. Também tínhamos um cinema no interior de São Paulo, na cidade de Dourado, perto de Bauru. E, distribuíamos filmes russos; coisa de "malucos", pois estávamos em plena ditadura militar. Até que um dia, a Polícia Federal apareceu e levou todos os filmes. Foi uma pena, pois tínhamos vários clássicos do cinema russo.


Também tomei parte do movimento que exigia do governo (militar), que reconhecesse todos os trabalhadores da área artística e técnica de cinema, teatro, rádio, televisão, dublagem, etc. Foi uma luta que durou alguns anos. Nos reuníamos no Sated (Sindicato dos Artístas) de madrugada; pois éramos muito perseguidos pela ditadura. Levamos metralhadoras na cara algumas vezes! Mas vencemos!! Conseguimos o reconhecimento do Ministério do Trabalho. Foi a partir daí, que passamos a ter o famoso DRT! Acredito ter sido a primeira mulher a receber o DRT de editora/montadora de filmes em São Paulo, pois na época era uma profissão apenas de homens. Isto se deu em 1978.


7 - Do que você sente mais saudades do período da AIC ?


R – De tudo!...Foi onde eu passei toda minha adolescência, fazendo um trabalho que gostava muito e ganhando razoavelmente bem! Era muito divertido trabalhar lá, pois tínhamos um patrão, Sr. Mario Audrá Jr, que era um "paizão"; pois gostava de ter muitos jovens trabalhando em seu estúdio. Ele era corajoso, não?!! (rsrsrs...)


8 - A AIC foi a escola para a sua carreira no cinema?


R – Com certeza! Quando cheguei lá era apenas uma garota ingênua, cheia de sonhos!

Lá tive a oportunidade de trabalhar e aprender com grandes profissionais. Foi onde eu "finquei" meu alicerce profissional. Quando saí tinha amadurecido; já sabia o que queria na minha vida pessoal e profissional.

9 - Você se recorda de algum fato curioso que tenha ocorrido com você na época em que participava da AIC ?


R – Tem muitos! Mas um jamais vou esquecer!! Eu fazia parte de um trio, que fora apelidado o " trio do barulho". Eu, Henrique Ogalla e Joãozinho, enteado do Amaury Costa. A gente vivia aprontando! Uma vez,.. fizemos uma "cortina" de chicletes mascados, num dos corredores dos estúdios! Um dos técnicos foi a vitima,.. Pedro Santana, apelidado de "dentinho d'oro". Ficou com chiclete grudado por todo corpo! O Ogalla teve um ataque de risos, que quase foi parar no hospital! Ele "dedou" a gente para o Sr. Mario Audrá, que fez de conta que deu bronca; mas no fundo também achou graça, pois era simpatizante do trio. O Pedro, ficou um tempão sem falar com a gente!

Hoje, tenho remorso! Ôôô dó!... rrsrsrs..

10- Deixe uma mensagem para os inúmeros fãs da AIC, os quais nem imaginavam o trabalho do "pessoal da retaguarda", conforme diz o dublador Carlos Campanile.


R – A AIC, não deve jamais cair no esquecimento, pois foi a partir dela que a dublagem no Brasil passou a ser conhecida e respeitada. A AIC formou muitos profissionais, não só para o cinema, mas também para a tv. De lá saíram grandes nomes que até hoje ainda atuam, seja na área artística ou técnica. Para o fã apreciador de dublagem: COBRE dos estúdios uma melhor qualidade de som. Para que invistam mais no profissional da "retaguarda"; pois de nada adianta equipamentos fantásticos, dubladores maravilhosos; se os técnicos não souberem usar os equipamentos que têm nas mãos! A experiência já me provou várias vezes que um técnico pode levantar ou derrubar um filme,..portanto...!



Marco,..

grande abraço,
Dalete Cunha.



**Marco Antônio dos Santos**


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