18 de outubro de 2008

ENTREVISTA COM ARQUIMEDES PIRES




1 - Como você foi escolhido para dublar Daniel Boone ?

R : Magno Marino e a minha inesquecível amiga Rita Cleós, em um dia de intervalo de gravações da novela "A Muralha", da TV Excelsior, Canal 9, me levaram até a A.I.C. e me apresentaram à Zaide, responsável pela escala de atores para dublagem; era o ano de 1967 e eu acabava de chegar de Curitiba onde havia passado o mês de junho, com aquela "tépida" temperatura curitibana, dormindo em um dos bancos dos jardins da Praça Osório; um mês onde tive a sorte de comer alguma coisa, se me lembro bem, oito vezes.
Isso não tem nada a ver com tua pergunta, mas foi uma experiência que me fez tão forte quanto necessário para enfrentar a vida e agradeço isso, sempre, ao Grande Espírito!
Em Curitiba eu fazia rádio, teatro e televisão.
Voltando ao tema; passei a "marcar ponto" na A.I.C. à espera de uma oportunidade, já que a TV Excelsior, a TV Paulista, o Teatro Brigadeiro, da TV Record, na Rua da Consolação, parte da TV Bandeirantes, no Morumbi e o Teatro Bandeirantes, na Brigadeiro, haviam sido vitimados por - até hoje misteriosos - incêndios e o mercado de trabalho estava restrito a algumas poucas oportunidades na TV Tupi e na TV Globo, Canal 5, então nova proprietária da extinta – pelas chamas! – TV Paulista, na Rua das Palmeiras, em São Paulo.
Dá pra imaginar a corrida atrás de alternativas de vida, do pessoal do ramo, que perdia praticamente todas as condições de trabalho com aquela onde de incêndios nos canais de televisão, na Paulicéia!
Os corredores da A.I.C. estavam sempre cheios de atores, novos e consagradas estrelas, à espera de uma chance de ganhar algum dinheiro.
Zaide se tornou uma grande amiga e, sempre que podia, me escalava para uma pontinha aqui, uma pontinha ali, um RKO1 aqui, um "vozerio"2 ali...
Até que um belo dia chega o "piloto"3 da série Daniel Boone, para seleção de elenco!
E lá vai a amiga Zaide e escala o garoto Arquimedes (21 anos de idade!) para os testes de voz para o ator principal, Fess Parker!
Estúdio 2 abarrotado!
Atores e atrizes às pencas pelos bancos e encostados às paredes, assistindo os testes e aguardando a sua vez de participar da grande chance de conseguir um personagem fixo, numa séria com duração prevista de 7 anos; naqueles tempos de vacas magras era uma excepcional oportunidade!
Os melhores atores da casa estavam a postos!
Olney Cazarré, Astrogildo Filho, José Parisi, Dráusio de Oliveira, Carlos Alberto Vaccari, Wilson Ribeiro, Osmiro Campos, Waldir Guedes, Waldyr de Oliveira, Silvio Matos, Carlos Campanile, Marcelo Gastaldi, Eleu Salvador, Turíbio Ruiz, Mário Jorge Montini, Marcelo Ponce, Gilberto Barolli, Aldo César, Luiz Pini, Borges de Barros, José Soares, Flávio Galvão, João de Ângelo, Sérgio Galvão, Ézio Ramos, Orlando Vigianni, Garcia Neto, José Guerra e outros tantos, disputavam, palmo a palmo, o grande elenco de bons atores da série; E ainda havia as atrizes que disputavam o mesmo sonho: Áurea Maria, Maria Inês, Maralise, Judy Teixeira, Helena Samara, Sandra Campos, Líria Marçal, Lucy Guimarães, Isaura Gomes, Dulcemar Vieira...
A direção dos testes era do Papa da dublagem, o velho e querido Older Cazarré.
Fui driblando as chamadas do diretor Cazarré e fui ficando para o final do teste; aproveitei o tempo para decorar completamente o texto, as inflexões e a interpretação de Fess Parker no papel de Daniel Boone; minha experiência em dublagem era ZERO, perto daquele timaço que estava no Estúdio!
Era um anel bastante difícil, mas quando chegou a minha vez, porque não havia mais ninguém, eu já o tinha completamente dominado.
Fui para o microfone e o diretor mandou soltar o anel na tela; e lá fui eu!
Ensaiei uma vez e mandei ir!
O Cazarré perguntou: Já, guri?
E eu respondi: Vamos tentar!
Gravando, gritou o diretor; e lá fui eu!
O anel apareceu na tela, a barra de sincronismo sumiu e eu mandei o texto, com carinho, capricho, determinação e uma vontade imensa de não decepcionar o diretor e, quem sabe, garantir o personagem!
Ficou! Gritou Older Cazarré ao final da primeira rodada do anel.
Um mês depois vem o resultado da seleção de vozes; era a escolha definitiva feita pelo dono da série.
Pra minha alegria... Fess Parker era meu e Daniel Boone me daria, a partir daquele dia, o sustento em São Paulo por um bom tempo!
Foi uma bênção de Deus!

2 - A dublagem, em conjunto na época, trazia a companhia de Carlos Alberto Vaccari (Mingo). Como foi essa parceria ?

R : O Vaccari foi um dos caras mais geniais que já conheci; linda voz, grande diretor de dublagem, engraçado, divertido, equilibrado, gente boa pra caramba e um extraordinário companheiro, colega de trabalho e amigo; há muitos anos não o vejo mas lembro dele sempre com muito carinho!

** A 1ª VOZ DE DANIEL BOONE **

3 - E com Áurea Maria (Rebecca)?

R : Ah! Áurea Maria foi um acontecimento belíssimo na minha vida!
Colega maravilhosa, profissional brilhante, um coração maior do que ela, índole magnífica, alma deslumbrante, amiga, confidente e... quase cunhada!

4 - Segundo Silvio Matos (Cincinatus), vocês se reencontraram somente agora, através da internet. Como é a sensação de reencontrar um amigo depois de quase 40 anos ?

R : Ah! Marco Antonio: é quase um renascimento!
Eu sempre fui fã do Silvio Matos e da Aliomar de Matos; pelo bom caráter, pela alegria de viver, pela competência profissional, pela versatilidade, pela simplicidade, pelo carinho que sempre demonstraram a todas as pessoas que faziam parte do nosso "templo" de dublagem, a A.I.C.
Não tive oportunidade de conviver com eles fora de lá, mas, certamente sempre foram as mesmas pessoas!
Quarenta anos depois nos reencontramos por obra e arte das tuas peripécias internáuticas e foi então, Marco Antonio, que pude revelar a eles o quanto significaram e continuam significando na minha vida; conviver com pessoas grandiosas nos torna importantes pra nós mesmos!
Não é possível dissimular quando os sentimentos são nobres e nos acrescentam qualidades; ser amigo de Sílvio Matos e Aliomar de Matos é como deve se sentir um pequenino em "Terra de Gigantes!"

5 - Você acha que o personagem Daniel Boone marcou demais, devido ao teu"vozeirão", para a dublagem de outros personagens ?

R : Não entendi bem a pergunta, Marco Antonio, mas se você quer saber se dublar Fess Parker em Daniel Boone abriu portas pra mim, em termos de dublagem, pode acreditar que sim! Muitas portas!
Mas não apenas para a dublagem de filmes para TV, mas para comerciais, áudio-visuais...

6 - O que representou a AIC para você, profissionalmente ?

R : Uma escola, um horizonte, um rumo, um espelho, um exemplo, um sonho... um mundo novo!
Até muito pouco tempo antes eu era apenas um jovem ator curitibano chegando à Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade.
A A.I.C. foi como um grande portal que se abriu mostrando horizontes que eu jamais havia imaginado!

7 - Do que você sente mais saudades do período da AIC ?

R : Da A.I.C., dos amigos, dos amores que tive, da Banca de Jornal do Cicillo e do cafezinho do Tetéu!


8 - Você acredita que conseguiria dublar, atualmente, sozinho, diferentemente daquela época onde havia uma equipe trocando experiências ?

R : Sem dúvida! Aliás, muitos anos depois eu estava trabalhando em um grande projeto de engenharia em São Luis do Maranhão e fui chamado pela BKS, sucessora da A.I.C., para dublar alguns filmes do Charlton Heston, em São Paulo; nessa época já começavam a ser feitas algumas experiências nesse sentido; mas é claro que numa avaliação fria, comparando a dublagem feita nos tempos da A.I.C. e ajustada na moviola 5, com a que é feita hoje, pelo computador, a de hoje poderia ser comparada a um namoro pela web cam; a gente até faz! Mas graça, não tem!

9 - Você abandonou a dublagem para se dedicar a outra profissão. Por quê ?

R : Eu tinha uma formação em curso técnico, de nível médio; era graduado como "técnico em pontes e estradas".
Em uma das muitas idas até Santos, nos finais de semana, conheci uma menina, na praia do Gonzaga, que passou a figurar entre as melhores amigas que tive: Ana Maria Petrellis; uma grega linda que morava no bairro de Santa Cecília, em São Paulo.
A Ana Maria era secretária na Techint, uma montadora italiana que ainda hoje opera no Brasil; funcionava na Praça da República.
E quando as vacas começaram a emagrecer, na A.I.C., por causa da nova crise que se estabeleceria em pouco tempo na área de dublagem, calhou de a Ana Maria me encaminhar para um emprego na Techint; essa empresa foi a grande paixão da minha vida profissional fora das artes cênicas!
Fiquei por lá durante oito anos, reiniciei meus estudos de engenharia, concluí o curso e não parei mais; viagens profissionais por todo o Brasil, França, Bélgica... e, perto de 40 anos depois, olho para a estrada que ficou no tempo e vejo que tudo valeu a pena; o trabalho, o conhecimento adquirido, as amizades que ainda permanecem, os amores que enfeitaram a minha vida e me fizeram grande, os sentimentos que foram se aprimorando com o exercício da vida, a vida...
Tudo valeu a pena!

10- Deixe uma mensagem para os teus fãs, que acompanham Daniel Boone há mais de 40 anos.

R : Não há como agradecer a essa gente maravilhosa que acompanhou durante tanto tempo e ainda aplaude os grandes espetáculos promovidos pelo extraordinário elenco de atores e atrizes da A.I.C., talentos que enfeitaram inúmeras obras da sétima arte produzidas no mundo e que mostradas aqui, com a alma brasileira estampada nas vozes que através da arte de dublar, fizeram o cinema da TV falar a língua nossa de todos os dias!
Eu fui apenas um minúsculo ponto daquele céu que as estrelas da A.I.C. pintaram de luzes.
Nada diz mais ao coração do artista, do que o carinho dos fãs!
Deus há de abençoá-los; é o que jamais deixei de pedir em minhas orações!

11 – Pessoas que foram muito importantes na tua vida, durante e depois da A.I.C., mas em razão dela?

R : Rita Cleós, Áurea Maria, Sandra Campos, Elaine Cristina, Jôferraz, Sotiria Kasma, Líria Marçal, Maria Inês, João Valério, Alberto Vacari, José Guerra, Hugo de Aquino, Turíbio Ruiz, Borges de Barros, Carlos Campanile, Older e Olney Cazarré, Marcelo Gastaldi, Sílvio Navas, Gilberto Barolli, Zodja Pereira, Maralise, Sílvio e Aliomar de Matos, Seu Dedé, Orlando Viggiani, Suzana Collona, João de Ângelo, Flávio e Sérgio Galvão, Eleu Salvador, Astrogildo Filho, o guri Nelson Machado, José Vieira, Dulcemar Vieira e...
Essa lista nem está completa e nem guarda nenhuma ordem de importância; grandes amores, grandes paixões ou grandes amigos, todas essas pessoas foram e continuam sendo importantíssimas na minha vida e fizeram parte da construção de sentimentos e valores importantes da minha existência!
Albert Schweitzer, filósofo, médico, teólogo luterano, missionário, Prêmio Nobel da Paz em 1952, organista, doutor em música e considerado o maior intérprete de Bach em toda a Europa, deixou a vida no dia 04 de setembro de 1965 aos 90 anos de idade e antes de partir nos legou esta máxima fantástica, maravilhosa, profunda e digna de ser divulgada e refletida em todas as direções: "O exemplo não é a melhor maneira de influenciar as pessoas; é a única!"
O bom exemplo dessas extraordinárias pessoas que passaram a fazer parte de mim a partir da minha chegada à A.I.C., foram o grande exemplo que tive e que me fez buscar a Luz, o crescimento e... Deus !


**Aqui, um vídeo com a inesquecível voz de Arquimedes Pires para Daniel Boone.



***NOSSO PROFUNDO AGRADECIMENTO POR ESTE DEPOIMENTO REPLETO DE MUITA EMOÇÃO DE ARQUIMEDES ESTRÁZULAS PIRES, O NOSSO ETERNO DANIEL BOONE!!!****

***********************************

O dublador Arquimedes Pires, nos solicitou que colocássemos uma espécie de verbete sobre certas expressões que ele utilizou em sua entrevista, próprias daquela época utilizadas pelo pessoal de um estúdio de dublagem.



Aí está o verbete:

1– RKO: RKO (Radio-Keith-Orpheum) Pictures is an American film production and distribution company.

2 – VOZERIO: Som de vozes coletivas, em alarido, em manifestações de rua, em barulho ou sons de festas, etc.

3 – PILOTO: O primeiro filme de uma série, utilizado para testes de vozes, definições de efeitos especiais, trilha sonora, etc, no âmbito da dublagem.

4 – ANEL: Cada pedaço do filme, contendo diálogos de, no máximo, cinco (05) linhas datilografadas (hoje digitadas em fonte 12), para facilitar a ação de decorar para melhor interpretar a fala do ator, ou atriz, correspondente.

5 – MOVIOLA: Equipamento utilizado para ajustar, perfeitamente, os sons gravados em fita magnética, perfurada e nas exatas medidas do filme, com o objetivo de corrigir eventuais diferenças de sincronismo (coincidência de sons com movimentos labiais, tiros, ruídos...); especialidade da nossa queridíssima, competentíssima e simpaticíssima DALETE, à época.

                                      **Marco Antônio dos Santos**

0 comentários:

Postar um comentário