31 de outubro de 2008

DUBLADOR EM FOCO (29): LUTERO LUIZ


 
Gaúcho de São Gabriel, onde nasceu em 1931, Lutero Luiz começou como ator de rádio, em 1952.Se formou na primeira turma de artes cênicas da Faculdade de Filosofia de Porto Alegre, e trabalhou em 24 peças de teatro, mais de 30 filmes e muitas novelas.

 
Apesar de gaúcho, em boa parte dos filmes e novelas que fez encarnou a figura do malandro carioca.
No cinema deixou sua presença simples mas marcante em, entre outros filmes, “A Marcha”, “Vai Trabalhar Vagabundo”, “A Rainha Diaba”, “O Marginal”, “Costinha, o Rei da Selva”, “Guerra Conjugal”, “Ladrões de Cinema”, “Barra Pesada”, “Se Segura Malandro”, “O Coronel e o Lobisomem” e “Parceiros da Aventura”.


Na TV, Lutero se caracterizou por interpretar personagens simples e de forte apelo regional como o Lulu Gouveia de “O Bem Amado”; o Gigante de “O Espigão”; o Miguel Pereira de “Escalada”; o Marciano de “Pecado Capital”; o Bezerra do seriado “Plantão de Polícia” e o Bodão de “O Salvador da Pátria”.
Lutero Luiz também participou do seriado "O Bem Amado" exibido em 1982 pela TV Globo.

 
Desde o início da AIC, Lutero Luiz se fez presente com uma voz bem característica, chegando a participar até de desenhos como Os Jetsons e Os Flintstones. Porém nunca teve um personagem fixo, participava muito de filmes e como convidados em séries da época: Rota 66, Cidade Nua, Os Defensores e a 1ª temporada de Jeannie é um Gênio.

 
Lutero Luiz se afastou da dublagem em 1965, quando se transferiu para o Rio de Janeiro, na então recém-inaugurada TV Globo, onde fez uma extensa carreira.


Participava da novela "Sexo dos Anjos" quando descobriu que estava com um tumor no fígado, vindo a falecer em 20 de fevereiro de 1990.


Lutero Luiz, segundo declarações de quem conviveu com ele na AIC, era uma pessoa brincalhona e sempre de bom humor, mais um grande ator que passou pelos estúdios da A.I.C.



**Neste episódio de Os Jetsons, Lutero Luiz dubla o detetive que encontra Astro**
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***Marco Antônio dos Santos***

29 de outubro de 2008

DUBLADOR EM FOCO (28): AMILTON FERNANDES




Amilton Fernandes nasceu no Rio Grande do Sul em 27 de abril de 1919. Iniciou a sua carreira como ator no teatro e logo chegaria a São Paulo encenando várias peças teatrais.

Em São Paulo, a extinta Tv Tupi logo o convidou para participar de seus teleteatros, TV de Vanguarda e TV de Comédia, ainda todos "ao vivo".



Já na década de 1960, o seu caminho natural foi para as novelas e também para o cinema.



Seu grande sucesso foi como ator principal, o personagem Albertinho Limonta, da novela “O Direito de Nascer” (1964 - 65), onde fez par romântico com a atriz Guy Loup. O sucesso do casal foi tanto, que o encerramento da novela aconteceu no Ginásio do Ibirapuera. No Rio de Janeiro, foi no Maracanãzinho inteiramente lotado, para que o povo pudesse aclamar seus ídolos. Albertinho Limonta jamais foi esquecido.






**O DIREITO DE NASCER: O GRANDE SUCESSO NA TV AO LADO DE ISAURA BRUNO**




Ainda na TV Tupi teve outro sucesso com a novela "Alma Cigana", a novela que revelou a atriz Ana Rosa para a televisão.



Com a abertura da TV Globo, Amilton Fernandes é contratado para participar de uma novela que se tornou também outro grande sucesso "O Sheik de Agadir" ao lado de Henrique Martins e Yoná Magalhães.


**O SHEIK DE AGADIR: AO LADO DE HENRIQUE MARTINS E YONÁ MAGALHÃES**

No cinema o ator fez os filmes: "O Vendedor de Linguiças", “Quatro Brasileiros em Paris”, "As Cariocas", " Adorável Trapalhão" com Renato Aragão, “Juventude e Ternura” e “Edu, Coração de Ouro”.

**AMILTON FERNANDES E A DUBLAGEM**

Devido a possuir uma grande sonoridade vocal, Amilton Fernandes também não ficou de fora da dublagem. Por volta de 1962/63 obteve o personagem Tod Stiles , interpretado por Martin Milner, na série Rota 66 (1960 - 1964).
 Essa série obteve um enorme sucesso nos Estados Unidos e foram exibidas as duas primeiras temporadas no Brasil. O parceiro de viagens de Martin Milner, foi interpretado pelo ator George Maharis, o qual foi dublado por Osmiro Campos.

**ROTA 66: MARTIN MILNER E GEORGE MAHARIS**

Além desse personagem fixo, Amilton Fernandes dublou também filmes nacionais na AIC e também no estúdio Odil Fono Brasil. Com a sua transferência para o Rio de Janeiro, abandonou a dublagem.

Amilton Fernandes faleceu, com 48 anos de idade, após uma longa enfermidade devido a um acidente de automóvel sofrido no Rio de Janeiro. O ator vinha de um ensaio na quadra da Mangueira quando se acidentou.
Devido a ser hemofílico, foi operado seis vezes e passou 70 dias internado, mas não resistiu aos ferimentos, falecendo no dia 07 de abril de 1968.



**Aqui, temos um episódio da série Rota 66, no qual além de Amilton Fernandes, há a presença dos dubladores Henrique Martins, Magali Sanches e Judy Teixeira**


**PARTE 1 /
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**PARTE 2 /
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**PARTE 3 /
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**PARTE 4 /
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**Marco Antônio dos Santos**

24 de outubro de 2008

DUBLADOR EM FOCO (27): MÁRCIA CARDEAL



Márcia Cardeal nasceu em São Paulo, em 23 de dezembro de 1948. Ela começou sua carreira artística muito cedo, com cerca de menos de 10 anos de idade.

Márcia foi apresentadora de programa infantil da TV Paulista, 3ª emissora de São Paulo. E foi também atriz. Na época, onde tudo estava começando, ela fazia praticamente todos os papeis infantis que apareciam, tanto nas novelas, como nos teatros completos, que eram muito comuns e importantes naqueles anos.


**FINAL DA DÉCADA DE 1950**

O casal de crianças Márcia Cardeal e Mário Lúcio de Freitas trabalhavam muitas vezes juntos e eram verdadeiras "estrelinhas", pois tinham todo o prestígio junto ao público. E assim fizeram juntos o programa: "Parque Petistil". Ela era a companheira do Petistino, personagem feito por Márcio.

Dessa forma, Márcia era a apresentadora mais jovem da televisão , cujo reinado durou muito tempo. Ela cresceu e passou então a ser chamada de Tia Márcia. Era comparada à Xuxa, pois maior do que as crianças, era muito querida por elas. Apresentava então o programa:"Sessão Zás-Trás".


Programas que Márcia Cardeal participou na televisão e no teatro brasileiro:

**1959: a peça: "Preço da Vitória".No mesmo ano a peça:"Moral e Concordata".
**1960, a peça:" Dona Violante Miranda".
** 1961, a novela: "A Herdeira de Ferleac". Em 61 ainda, outra novela:" As Grandes Esperanças". No mesmo ano de 61, o filme feito para a televisão:"Vigilante Rodoviário".
** 1963, a novela:" A Loja Das Antiguidades". Em 63 ainda:"As Quatro Irmãs".
**1964: " Vigilante contra o Crime".Em 64, outra novela:"Eu Amo Esse Homem". Ainda em 64:"Tortura d 'Alma".
**1965:"A Sombra".

**A DUBLAGEM**

Diante de um enorme talento, Márcia Cardeal foi convidada para dublar, em 1960, a personagem Katty, a filha caçula na série Papai Sabe Tudo no estúdio Gravasom. Com a autorização legal do juizado de menores, ela dublou a personagem durante muitos anos, até a atriz começar a crescer.


KATTY: A FILHA CAÇULA NA SÉRIE PAPAI SABE TUDO


Paralelamente, era escalada, eventualmente, para dublar alguma menina que surgisse, como é o exemplo que conseguimos na série Além da Imaginação, onde dubla uma garotinha sentada na escada que se torna a principal personagem do episódio "O Pesadelo".


Com o advento da AIC, Márcia Cardeal ainda dublou alguns personagens secundários, mas apenas esporadicamentede, devido às requisões para tv e até teatro, até meados de 1965.
Comandou o programa Zás-Trás durante muitos anos na TV Paulista ao lado da atriz e dubladora Maximira Figueiredo.
Com o fim do programa, Márcia Cardeal abandonou a carreira artística. Atualmente, dedica-se somente a sua família.


**Vejamos a excelente dublagem de Márcia Cardeal no episódio "O Pesadelo" da série Além da Imaginação:






**Marco Antônio dos Santos**

21 de outubro de 2008

DUBLADOR EM FOCO (26): REBELLO NETO


** REBELLO NETO NA DÉCADA DE 1960 **

Manoel Bittencourt Rebello Neto nasceu em São Paulo no dia 17 de maio de 1938, filho de Ruth Motta e Manoel Bittencourt Rebello Júnior.

Estudou no Colégio Paes Leme e Colégio Rio Branco. Seu pai, Rebello Júnior, era um homem atuante no meio artístico, tendo trabalhado em algumas emissoras de Rádio, chegando a ser o Diretor Artístico da Rádio Bandeirantes durante muitos anos, além de ter participado do início da televisão nas Organizações Victor Costa - TV Paulista, antes de ser vendida  à TV Globo.


Rebello Neto exerceu diversas atividades também no meio artístico. Devido à sonoridade da voz, foi locutor de rádio, produtor, radioator tendo participado das Rádio 9 de Julho, Bandeirantes e outras emissoras do interior do Brasil.


Na TV Paulista participou da sub-estação criada na cidade de Santos, fundada por seu pai. Daí para a AIC foi uma sequência lógica, devido à sua voz e ter sido radioator. Em nosso banco de dados encontramos arquivos de dublagens realizadas por ele a partir do ano de 1966, tendo ficado até meados de 1969 na AIC.

Segundo Emerson Camargo, ao escalar o elenco da dublagem de Jornada nas Estrelas, verificou que o personagem Spock era desprovido de emoções, portanto necessitava de um dublador com um timbre de voz bem linear, a qual não demonstrasse sentimentos. Partiu do princípio que Rebello Neto seria o mais adequado. A escolha foi perfeita, pois até os fãs mais fiéis definem como a melhor voz para Spock. Rebello Neto dublou Spock durante as duas primeiras temporadas da série de uma forma perfeita, sendo substituído na 3ª temporada por Turíbio Ruiz.

** 1ª VOZ DO SR. SPOCK EM JORNADA NAS ESTRELAS**

A partir do episódio "Uma Visita ao Inferno" da 2ª temporada de Perdidos no Espaço, Rebello Neto assume o Prof. Robinson, substituindo Astrogildo Filho que ficara doente. Também aqui desenvolveu um excelente trabalho.

** A 2ª VOZ DO PROF. ROBINSON EM PERDIDOS NO ESPAÇO**

Há também , em algumas séries da época, suas partcipações como em Viagem ao Fundo do Mar, O Túnel do Tempo, Daniel Boone, Terra de Gigantes, A Feiticeira,  Lancer, etc.

Entretanto, logo se afastou da dublagem e nunca mais se obteve notícias até 1985. Nesse ano, em Curitiba, houve uma experiência de transplante de coração de plástico. Rebello Neto, por apresentar um quadro cardíaco complicado, é voluntário, porém sobrevive apenas um mes. Esse fato foi amplamente divulgado pelo programa Fantástico, da TV Globo, na época.

Rebello Neto faleceu, aos 47 anos de idade,  no dia 08 de junho de 1985 na cidade de Curitiba. Excelente dublador, que participou do apogeu da AIC, Rebello Neto dublou dois personagens importantíssimos para a época: Sr. Spock de Jornada nas Estrelas e a 2ª voz do Prof. Robinson na série Perdidos no Espaço.



**Rebello Neto dublando o Prof. Robinson na série Perdidos no Espaço**

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**Sr. Spock em Jornada nas Estrelas**

**EPISÓDIO: "A GALÁXIA"**

**PARTE 1 **
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**PARTE 2**
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Fica aqui o registro de mais um dublador que teve personagens bem conhecidos até hoje, mas completamente esquecido pela mídia !


**Marco Antônio dos Santos**

DUBLADOR EM FOCO (25): SÉRGIO GALVÃO



** SÉRGIO GALVÃO NA DÉCADA DE 1960**


Sérgio Galvão apareceu na TV Tupi e logo foi aproveitado em novelas. Fez:: “Quem Casa com Maria?”, “Teresa”, “O Cara Suja”, “A Cor de sua Pele”; “O Amor tem Cara de Mulher”; “Acorrentados”; “A Fábrica”; “Signo da Esperança”; “Vitória Bonelli”; “Camomila e Bem-me-Amor”; “Mulheres de Areia”; “Um Sol Maior”, “Salário Mínimo”. Todas essas novelas foram transmitidos pela TV Tupi de São Paulo, entre os anos de 1964 a 1978.

Mas Sérgio Galvão foi também diretor de programas. Dirigiu “Lupu Limpim Clapa Topo”, seriado infantil, na TV Manchete e a novela: “O Campeão”. Foi autor do filme: “Tiradentes, O Mártir da Independência”, em 1976.


Durante a década de 1960, além de se dedicar à televisão também participou ativamente na AIC. Sua estreia com um personagem fixo também foi na série de tv A Feiticeira onde dublou James, o marido de Samantha, durante toda a 1ª temporada.




** 1ª VOZ DE JAMES NA SÉRIE A FEITICEIRA**

Sérgio Galvão participou de algumas dublagens, mas precisava dividir o seu tempo com o teatro e a televisão. Já em fins da década, retorna com outro personagem fixo e de grande sucesso: Johnny Madrid na série Lancer, mas, nessa época, também já era diretor de dublagem.


** JHONNY MADRID, PERSONAGEM DUBLADO POR SÉRGIO GALVÃO, NA SÉRIE LANCER**


No final da década de 1980, retorna à dublagem , fazendo o personagem da série O Homem da Máfia pela Herbert Richers, além de algumas participações também pela VTI RIO. Entre as suas participações temos:


Sammo Hung Kam-Bo (Sammo Law) em Um Policial da Pesada.

Daniel Stern em Esqueceram de Mim.


Diretor do colégio de Ferris em "Curtindo a vida adoidado".


Ursinho Pooh enquanto ainda não era chamado de Puff.


Pringer em "Transformers- o Filme", longa de animação de 1986 dublagem para a TV (Globo) Sugoroku/Solomon Muto (avô do Yugi) em Yu-gi-oh.



*Sérgio Galvão em 2015*

Faleceu no dia 21 de julho de 2016 de causas desconhecidas.

 Sérgio Galvão era tio do ator Flávio Galvão.

**DOIS MOMENTOS DA DUBLAGEM DE SÉRGIO GALVÃO**

** Assista ao episódio abaixo, no qual Sérgio Galvão dubla o ator James Stacy, um grande sucesso como Jhonny Madrid na série Lancer**

**PARTE 1**

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**PARTE 2**
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**A 1ª voz de James na série A Feiticeira (1ª Temporada)**
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**Marco Antônio dos Santos**

DUBLADOR EM FOCO (24): MÁRCIA REAL



Márcia Real, em verdade se chama Eunice Alves. Nascida em São Paulo, às margens plácidas, ou seja, no bairro do Ipiranga, em 06 de janeiro de 1931, Márcia tem uma irmã, Regina, e sempre foi muito apegada à mãe, mas foi o pai, que era “ponto” em uma companhia amadora de teatro, que levava a menina a ver espetáculos. E ela ficava fascinada.


E um dia, já grandinha, já adolescente, cruzou na rua com Bibi Ferreira, a grande atriz. Estava ali traçado o seu destino. No mesmo momento, após ligeira conversa, ganhou um papel na peça “Minhas queridas esposas”.


Antes disso já tinha tido uma experiência na rádio Tupi com o famoso radialista e diretor, Otavio Gabus Mendes. Com o teatro foi logo viajar, para isso enfrentando toda a família. E assim começou em televisão, onde ganhou imediatamente um papel, já que tinha tudo para isso, inclusive a voz, que é forte e marcante. E foi graças ao tipo físico e à voz que fez muitos “TVs de Vanguarda” e “TVs Comédia”. Fez papéis como: Lady Macbetti, Ana Karenina, e inúmeros outros, na TV Tupi de São Paulo.



Depois passou para a TV Excelsior, onde ganhou papéis importantes em muitas novelas, tendo participado com grande relevância em “Redenção”, a mais longa novela que já esteve no ar. Sua inteligência e dom natural para falar, fizeram dela uma grande apresentadora de televisão. Salientou-se no “Clube dos Artistas”, ao lado de Airton Rodrigues, no qual ficou por 10 anos,recebendo e entrevistando os convidados. Ganhou vários prêmios como atriz. Entre eles três Roquete Pinto, o principal prêmio de televisão da época.



** MÁRCIA REAL NA DÉCADA DE 1960**

Participou de vários filmes, mas gosta de salientar o filme “O Sobrado” com texto de Walter George Durst e direção de Cassiano Gabus Mendes. Continuou, porém, constantemente em teatro, com aparições brilhantes, dentre elas como: Marlene Dietrich, na peça “Piaf”, ao lado de Bibi Ferreira, onde realmente ficou exatamente igual à famosa atriz de cinema, a ponto do público se levantar e a aplaudir de pé.


Devido à sua voz forte e marcante, Márcia Real participa da AIC, logo no início, assim faz diversas dublagens para filmes e séries de tv, como Rota 66, Cidade Nua, Império do Oeste e na 1ª temporada de Viagem ao Fundo do Mar. Geralmente escalada para dublar damas da sociedade ou mulheres sofredoras. Participou de alguns desenhos também como Os Jetsons e Os Flintstones, onde dublou algumas vezes a sogra de Fred Flintstone.




Com a estreia da série A Feiticeira, Márcia Real ganha um personagem fixo: Endora, durante toda a 1ª temporada da série. Entretanto, com o crescimento da produção de novelas, acaba se desligando da dublagem em fins de 1965.


** 1ª VOZ DE ENDORA NA SÉRIE A FEITICEIRA**


** Para relembrarmos a dublagem de Márcia Real **


**Vídeo 1: Dublando o personagem Endora ao lado Nícia Soares**



**Vídeo 2: Dublando uma bruxa no desenho Joca e Dingue-Lingue**



**Vídeo 3: Dublando uma atriz convidada na série Cidade Nua ao lado de Neuza Maria e Henrique Martins**




Uma grande atriz que integrou o elenco da AIC, a qual a mídia esqueceu!


**Marco Antônio dos Santos**

18 de outubro de 2008

ENTREVISTA COM ARQUIMEDES PIRES




1 - Como você foi escolhido para dublar Daniel Boone ?

R : Magno Marino e a minha inesquecível amiga Rita Cleós, em um dia de intervalo de gravações da novela "A Muralha", da TV Excelsior, Canal 9, me levaram até a A.I.C. e me apresentaram à Zaide, responsável pela escala de atores para dublagem; era o ano de 1967 e eu acabava de chegar de Curitiba onde havia passado o mês de junho, com aquela "tépida" temperatura curitibana, dormindo em um dos bancos dos jardins da Praça Osório; um mês onde tive a sorte de comer alguma coisa, se me lembro bem, oito vezes.
Isso não tem nada a ver com tua pergunta, mas foi uma experiência que me fez tão forte quanto necessário para enfrentar a vida e agradeço isso, sempre, ao Grande Espírito!
Em Curitiba eu fazia rádio, teatro e televisão.
Voltando ao tema; passei a "marcar ponto" na A.I.C. à espera de uma oportunidade, já que a TV Excelsior, a TV Paulista, o Teatro Brigadeiro, da TV Record, na Rua da Consolação, parte da TV Bandeirantes, no Morumbi e o Teatro Bandeirantes, na Brigadeiro, haviam sido vitimados por - até hoje misteriosos - incêndios e o mercado de trabalho estava restrito a algumas poucas oportunidades na TV Tupi e na TV Globo, Canal 5, então nova proprietária da extinta – pelas chamas! – TV Paulista, na Rua das Palmeiras, em São Paulo.
Dá pra imaginar a corrida atrás de alternativas de vida, do pessoal do ramo, que perdia praticamente todas as condições de trabalho com aquela onde de incêndios nos canais de televisão, na Paulicéia!
Os corredores da A.I.C. estavam sempre cheios de atores, novos e consagradas estrelas, à espera de uma chance de ganhar algum dinheiro.
Zaide se tornou uma grande amiga e, sempre que podia, me escalava para uma pontinha aqui, uma pontinha ali, um RKO1 aqui, um "vozerio"2 ali...
Até que um belo dia chega o "piloto"3 da série Daniel Boone, para seleção de elenco!
E lá vai a amiga Zaide e escala o garoto Arquimedes (21 anos de idade!) para os testes de voz para o ator principal, Fess Parker!
Estúdio 2 abarrotado!
Atores e atrizes às pencas pelos bancos e encostados às paredes, assistindo os testes e aguardando a sua vez de participar da grande chance de conseguir um personagem fixo, numa séria com duração prevista de 7 anos; naqueles tempos de vacas magras era uma excepcional oportunidade!
Os melhores atores da casa estavam a postos!
Olney Cazarré, Astrogildo Filho, José Parisi, Dráusio de Oliveira, Carlos Alberto Vaccari, Wilson Ribeiro, Osmiro Campos, Waldir Guedes, Waldyr de Oliveira, Silvio Matos, Carlos Campanile, Marcelo Gastaldi, Eleu Salvador, Turíbio Ruiz, Mário Jorge Montini, Marcelo Ponce, Gilberto Barolli, Aldo César, Luiz Pini, Borges de Barros, José Soares, Flávio Galvão, João de Ângelo, Sérgio Galvão, Ézio Ramos, Orlando Vigianni, Garcia Neto, José Guerra e outros tantos, disputavam, palmo a palmo, o grande elenco de bons atores da série; E ainda havia as atrizes que disputavam o mesmo sonho: Áurea Maria, Maria Inês, Maralise, Judy Teixeira, Helena Samara, Sandra Campos, Líria Marçal, Lucy Guimarães, Isaura Gomes, Dulcemar Vieira...
A direção dos testes era do Papa da dublagem, o velho e querido Older Cazarré.
Fui driblando as chamadas do diretor Cazarré e fui ficando para o final do teste; aproveitei o tempo para decorar completamente o texto, as inflexões e a interpretação de Fess Parker no papel de Daniel Boone; minha experiência em dublagem era ZERO, perto daquele timaço que estava no Estúdio!
Era um anel bastante difícil, mas quando chegou a minha vez, porque não havia mais ninguém, eu já o tinha completamente dominado.
Fui para o microfone e o diretor mandou soltar o anel na tela; e lá fui eu!
Ensaiei uma vez e mandei ir!
O Cazarré perguntou: Já, guri?
E eu respondi: Vamos tentar!
Gravando, gritou o diretor; e lá fui eu!
O anel apareceu na tela, a barra de sincronismo sumiu e eu mandei o texto, com carinho, capricho, determinação e uma vontade imensa de não decepcionar o diretor e, quem sabe, garantir o personagem!
Ficou! Gritou Older Cazarré ao final da primeira rodada do anel.
Um mês depois vem o resultado da seleção de vozes; era a escolha definitiva feita pelo dono da série.
Pra minha alegria... Fess Parker era meu e Daniel Boone me daria, a partir daquele dia, o sustento em São Paulo por um bom tempo!
Foi uma bênção de Deus!



2 - A dublagem, em conjunto na época, trazia a companhia de Carlos Alberto Vaccari (Mingo). Como foi essa parceria ?

R : O Vaccari foi um dos caras mais geniais que já conheci; linda voz, grande diretor de dublagem, engraçado, divertido, equilibrado, gente boa pra caramba e um extraordinário companheiro, colega de trabalho e amigo; há muitos anos não o vejo mas lembro dele sempre com muito carinho!


** A 1ª VOZ DE DANIEL BOONE **

3 - E com Áurea Maria (Rebecca)?

R : Ah! Áurea Maria foi um acontecimento belíssimo na minha vida!
Colega maravilhosa, profissional brilhante, um coração maior do que ela, índole magnífica, alma deslumbrante, amiga, confidente e... quase cunhada!

4 - Segundo Silvio Matos (Cincinatus), vocês se reencontraram somente agora, através da internet. Como é a sensação de reencontrar um amigo depois de quase 40 anos ?

R : Ah! Marco Antonio: é quase um renascimento!
Eu sempre fui fã do Silvio Matos e da Aliomar de Matos; pelo bom caráter, pela alegria de viver, pela competência profissional, pela versatilidade, pela simplicidade, pelo carinho que sempre demonstraram a todas as pessoas que faziam parte do nosso "templo" de dublagem, a A.I.C.
Não tive oportunidade de conviver com eles fora de lá, mas, certamente sempre foram as mesmas pessoas!
Quarenta anos depois nos reencontramos por obra e arte das tuas peripécias internáuticas e foi então, Marco Antonio, que pude revelar a eles o quanto significaram e continuam significando na minha vida; conviver com pessoas grandiosas nos torna importantes pra nós mesmos!
Não é possível dissimular quando os sentimentos são nobres e nos acrescentam qualidades; ser amigo de Sílvio Matos e Aliomar de Matos é como deve se sentir um pequenino em "Terra de Gigantes!"

5 - Você acha que o personagem Daniel Boone marcou demais, devido ao teu"vozeirão", para a dublagem de outros personagens ?

R : Não entendi bem a pergunta, Marco Antonio, mas se você quer saber se dublar Fess Parker em Daniel Boone abriu portas pra mim, em termos de dublagem, pode acreditar que sim! Muitas portas!
Mas não apenas para a dublagem de filmes para TV, mas para comerciais, áudio-visuais...

6 - O que representou a AIC para você, profissionalmente ?

R : Uma escola, um horizonte, um rumo, um espelho, um exemplo, um sonho... um mundo novo!
Até muito pouco tempo antes eu era apenas um jovem ator curitibano chegando à Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade.
A A.I.C. foi como um grande portal que se abriu mostrando horizontes que eu jamais havia imaginado!

7 - Do que você sente mais saudades do período da AIC ?

R : Da A.I.C., dos amigos, dos amores que tive, da Banca de Jornal do Cicillo e do cafezinho do Tetéu!


8 - Você acredita que conseguiria dublar, atualmente, sozinho, diferentemente daquela época onde havia uma equipe trocando experiências ?

R : Sem dúvida! Aliás, muitos anos depois eu estava trabalhando em um grande projeto de engenharia em São Luis do Maranhão e fui chamado pela BKS, sucessora da A.I.C., para dublar alguns filmes do Charlton Heston, em São Paulo; nessa época já começavam a ser feitas algumas experiências nesse sentido; mas é claro que numa avaliação fria, comparando a dublagem feita nos tempos da A.I.C. e ajustada na moviola 5, com a que é feita hoje, pelo computador, a de hoje poderia ser comparada a um namoro pela web cam; a gente até faz! Mas graça, não tem!

9 - Você abandonou a dublagem para se dedicar a outra profissão. Por quê ?

R : Eu tinha uma formação em curso técnico, de nível médio; era graduado como "técnico em pontes e estradas".
Em uma das muitas idas até Santos, nos finais de semana, conheci uma menina, na praia do Gonzaga, que passou a figurar entre as melhores amigas que tive: Ana Maria Petrellis; uma grega linda que morava no bairro de Santa Cecília, em São Paulo.
A Ana Maria era secretária na Techint, uma montadora italiana que ainda hoje opera no Brasil; funcionava na Praça da República.
E quando as vacas começaram a emagrecer, na A.I.C., por causa da nova crise que se estabeleceria em pouco tempo na área de dublagem, calhou de a Ana Maria me encaminhar para um emprego na Techint; essa empresa foi a grande paixão da minha vida profissional fora das artes cênicas!
Fiquei por lá durante oito anos, reiniciei meus estudos de engenharia, concluí o curso e não parei mais; viagens profissionais por todo o Brasil, França, Bélgica... e, perto de 40 anos depois, olho para a estrada que ficou no tempo e vejo que tudo valeu a pena; o trabalho, o conhecimento adquirido, as amizades que ainda permanecem, os amores que enfeitaram a minha vida e me fizeram grande, os sentimentos que foram se aprimorando com o exercício da vida, a vida...
Tudo valeu a pena!

10- Deixe uma mensagem para os teus fãs, que acompanham Daniel Boone há mais de 40 anos.

R : Não há como agradecer a essa gente maravilhosa que acompanhou durante tanto tempo e ainda aplaude os grandes espetáculos promovidos pelo extraordinário elenco de atores e atrizes da A.I.C., talentos que enfeitaram inúmeras obras da sétima arte produzidas no mundo e que mostradas aqui, com a alma brasileira estampada nas vozes que através da arte de dublar, fizeram o cinema da TV falar a língua nossa de todos os dias!
Eu fui apenas um minúsculo ponto daquele céu que as estrelas da A.I.C. pintaram de luzes.
Nada diz mais ao coração do artista, do que o carinho dos fãs!
Deus há de abençoá-los; é o que jamais deixei de pedir em minhas orações!

11 – Pessoas que foram muito importantes na tua vida, durante e depois da A.I.C., mas em razão dela?

R : Rita Cleós, Áurea Maria, Sandra Campos, Elaine Cristina, Jôferraz, Sotiria Kasma, Líria Marçal, Maria Inês, João Valério, Alberto Vacari, José Guerra, Hugo de Aquino, Turíbio Ruiz, Borges de Barros, Carlos Campanile, Older e Olney Cazarré, Marcelo Gastaldi, Sílvio Navas, Gilberto Barolli, Zodja Pereira, Maralise, Sílvio e Aliomar de Matos, Seu Dedé, Orlando Viggiani, Suzana Collona, João de Ângelo, Flávio e Sérgio Galvão, Eleu Salvador, Astrogildo Filho, o guri Nelson Machado, José Vieira, Dulcemar Vieira e...
Essa lista nem está completa e nem guarda nenhuma ordem de importância; grandes amores, grandes paixões ou grandes amigos, todas essas pessoas foram e continuam sendo importantíssimas na minha vida e fizeram parte da construção de sentimentos e valores importantes da minha existência!
Albert Schweitzer, filósofo, médico, teólogo luterano, missionário, Prêmio Nobel da Paz em 1952, organista, doutor em música e considerado o maior intérprete de Bach em toda a Europa, deixou a vida no dia 04 de setembro de 1965 aos 90 anos de idade e antes de partir nos legou esta máxima fantástica, maravilhosa, profunda e digna de ser divulgada e refletida em todas as direções: "O exemplo não é a melhor maneira de influenciar as pessoas; é a única!"
O bom exemplo dessas extraordinárias pessoas que passaram a fazer parte de mim a partir da minha chegada à A.I.C., foram o grande exemplo que tive e que me fez buscar a Luz, o crescimento e... Deus !


**Aqui, um vídeo com a inesquecível voz de Arquimedes Pires para Daniel Boone, dublando ao lado de Rebello Neto:
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***NOSSO PROFUNDO AGRADECIMENTO POR ESTE DEPOIMENTO REPLETO DE MUITA EMOÇÃO DE ARQUIMEDES ESTRÁZULAS PIRES, O NOSSO ETERNO DANIEL BOONE!!!****

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O dublador Arquimedes Pires, nos solicitou que colocássemos uma espécie de verbete sobre certas expressões que ele utilizou em sua entrevista, próprias daquela época utilizadas pelo pessoal de um estúdio de dublagem.



Aí está o verbete:

1– RKO: RKO (Radio-Keith-Orpheum) Pictures is an American film production and distribution company.

2 – VOZERIO: Som de vozes coletivas, em alarido, em manifestações de rua, em barulho ou sons de festas, etc.

3 – PILOTO: O primeiro filme de uma série, utilizado para testes de vozes, definições de efeitos especiais, trilha sonora, etc, no âmbito da dublagem.

4 – ANEL: Cada pedaço do filme, contendo diálogos de, no máximo, cinco (05) linhas datilografadas (hoje digitadas em fonte 12), para facilitar a ação de decorar para melhor interpretar a fala do ator, ou atriz, correspondente.

5 – MOVIOLA: Equipamento utilizado para ajustar, perfeitamente, os sons gravados em fita magnética, perfurada e nas exatas medidas do filme, com o objetivo de corrigir eventuais diferenças de sincronismo (coincidência de sons com movimentos labiais, tiros, ruídos...); especialidade da nossa queridíssima, competentíssima e simpaticíssima DALETE, à época.

                                      **Marco Antônio dos Santos**