15 de setembro de 2008

ENTREVISTA COM SÍLVIO MATOS



1 - Você demonstrou ter uma veia artística bem versátil (ator, dublador, técnico), como você descobriu em você tudo isso ?

R – Na verdade eu descobri isto muito cedo, minha primeira lembrança e primeiro desejo de ser "artista", aconteceu quando minha mãe ouvindo as novelas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, me segurava no colo para que eu não ficasse fazendo barulho, dessa forma eu era obrigado a ouvir e acompanhar a novela também. Um dia eu me dei conta de que gostava muito daquilo, e a partir daí passou a ser o meu grande sonho, trabalhar numa Rádio, como Rádio-Ator.Nessa altura eu morava em Areias, uma cidade muito pequena no Vale do Paraíba e lá não tinha "Estação de Rádio". Depois mudamos para Lorena, esta sim, já uma cidade maior, e tinha "Estação de Rádio", pra não alongar muito na resposta, depois de muitas voltas, acabei indo trabalhar na ZYH 9 Rádio Cultura de Lorena como técnico de som, o nome é bonito, mas a função nada mais era do que colocar discos pra tocar e ligar e desligar o microfone para o locutor. Um dia resolveram fazer rádio teatro, assim que eu fiquei sabendo que nessa novela tinha uma personagem que era um garoto, me ofereci na hora, e ganhei o papel. Eu tinha então 12 anos. Como eu, modéstia parte, fui muito bem na novela, passei a fazer parte tambem do elenco humorístico da rádio, participando dos programas de auditório que aconteciam aos domingos. Essa foi minha primeira experiência artística e também como técnico, e que me acompanha até hoje.

Quando mudei para São Paulo, depois de bater cabeça em vários empregos, mas sempre tentando encaminhar minha vida para o meu objetivo maior , que era ser Artista, consegui um trabalho de camareiro no Teatro Record da Consolação, aquele teatro que pegou fogo. Eu era camareiro do Procópio Ferreira e do Otelo Zeloni, no musical "Boa Noite Betina". Quando terminou a temporada, o Procópio Ferreira iniciou testes com os figurantes do musical, para montar uma companhia de comédias e viajar pelo Brasil. Pedi para fazer o teste e fui aprovado. Na Cia de Comédias Procópio ferreira viajei o Brasil todo por 3 temporadas, e quando a Cia. se desfez eu era um ator, desempregado, mas ator, meu sonho de criança estava começando a se tornar realidade. Nessa altura já estava casado com a Aliomar que trabalhava na Cia.do Procópio também. Mudei para o Rio de Janeiro, a Aliomar foi dublar nos estúdios Herbert Richers, e eu fui atrás, só que eu não sabia dublar, então apareceu uma vaga de contra-regra, que é quem faz os ruídos do filme ( passos, porta, cavalo e etc...)- olha ai, outra vez uma função técnica - isso me obrigava a ficar o dia todo dentro do estúdio, uma vez que naquela época os ruídos eram feitos ao mesmo tempo em que os atores dublavam, com isso eu aprendi a dublar, e desde então, em todos os estúdios em que trabalhei como dublador, também tinha uma função técnica.

2 - Por curiosidade, como vocês conseguiram morar ao lado da sede da AIC ?


R: Em 1967 houve uma crise muito séria nos estúdios de dublagem do Rio, os filmes tinham ido todos para São Paulo, a maioria para a AIC. Quando a Aliomar foi convidada pelo Wolner Camargo para dublar na AIC, mudamos para São Paulo, a Aliomar ficou dublando nos estúdio da Rua Tibério, na Lapa, e eu fui dublar e coordenar a parte técnica da ex Ibrasom, que agora era da AIC e se chamava Íbis, o estúdio ficava no último andar de um prédio na Pça. Marechal Deodoro e nós morávamos no quinto andar desse mesmo prédio, quando a Ibis fechou, eu fui para o estúdio da Lapa na Rua Tibério. Por coincidência a casa ao lado do estúdio estava para alugar, ai foi só mudar, o que facilitou muito a nossa vida de dubladores, pois morando ao lado do estúdio estávamos sempre disponíveis para dublar a qualquer hora.


3 - Quando você não estava dublando qual o trabalho que desenvolvia dentro da AIC ?


R: Dentro da área técnica da dublagem eu fiz de tudo, desde contrarregra até banda internacional. Mas na AIC minha atividade técnica principal era marcação de filmes , pra quem não sabe, é a divisão do filme todo em loop, ou seja, é dividir o dialogo do filme em pedaços para facilitar a dublagem. Ouvia-se em Inglês, e fazia a marcação do dialogo no script em Português. Depois o filme ia pra sala de corte onde eles seguindo essas marcações dividiam o filme todo em loops (Também chamados de anéis). Hoje não é mais assim, estou falando dos anos 60. Hoje estamos na era digital.




** CINCINNATUS NA SÉRIE DANIEL BOONE **


4 - Para nós, os fãs, você ficou muito lembrado por 2 personagens: o tio Arthur da série A Feiticeira e o Cincinatus da série Daniel Boone, os quais são bem distintos. Você é até hoje admirado por esses trabalhos. O que representou para você dublá-los ?


R: Por incrível que possa parecer, esses dois personagens foram os que marcaram a minha passagem pela dublagem, e eu fico muito envaidecido quando alguém fala sobre eles, porque eu sempre acho que estão falando um pouco de mim, afinal de contas a minha voz é a identidade brasileira desses artistas, tanto o Cincinatus quanto o tio Arthur. Como eu não tinha o padrão de voz para dublar os "Galãs", e tinha uma aptidão para comédia, e por ter uma certa facilidade em mudar a voz, eu sempre era escalado para dublar os tipos mais estranhos que apareciam, inclusive muitos desenhos animados, mas nunca dublava personagens fixos de série. Como eu sempre dublava "velhinhos", pela facilidade de mudar a voz, eu ganhei o Cincinatus. O tio Arthur, foi mais pelo tom de comédia que era uma coisa que eu tinha, naturalmente no meu jeito de atuar.


5 - E as gargalhadas de tio Arthur eram fáceis de serem realizadas?


R: O tio Arthur, foi o personagem mais difícil que eu dublei, porque além das risadas escancaradas dele, a representação e o ritmo das suas falas eram muito característicos, totalmente diferente do português, e isso exigia um grande esforço de adaptação do texto, para que o sincronismo das falas ficassem o melhor possível, e depois disso vinham as gargalhadas, que no final das contas, era a parte mais fácil de executar.


** A VOZ DE TIO ARTHUR NA SÉRIE A FEITICEIRA: DUBLAGEM COMPLEXA E BEM REALIZADA !


6 - Na época, vivíamos um regime político difícil, houve alguma interferência no trabalho da AIC ?


R: Realmente foi um tempo complicado politicamente falando, mas não teve muita interferência no nosso trabalho não, a não ser a censura, mas esta estava presente em todos os meios de comunicação e todos eram obrigados a aceitá-la, rádios , jornais , teatros, cinema, ou seja, todos os veículos de informação, que de uma forma ou de outra pudessem influenciar a opinião pública, estavam sujeitos a represálias, o que não era o caso da dublagem, porque quando o filme entrava no Brasil, já passava pelo crivo da censura federal. Na dublagem eu me lembro que houve uma certa tensão na época da greve dos dubladores, que promoviam piquetes nas portas dos outros estúdios, não permitindo que eles funcionassem. A reinvidicação era para mudar o sistema de pagamento da dublagem, que era por loop, e a categoria queria que passasse por hora. O que, na minha opinião, foi essa greve que fez a dublagem se transformar em uma profissão digna e respeitosa para com os dubladores, obrigando os estúdios a fazer uma programação detalhada do filme a ser dublado, sob pena de ter prejuízo, porque agora durante todo o tempo que o dublador ficar a disposição do estúdio, ele está recebendo por hora.


7 - De que trabalhos realizados como dublador, não citados, você crê que teve o seu melhor desempenho ?


R: Fiz muitos trabalhos com os quais fiquei muito feliz com o resultado, mas você me pergunta dos não citados, eu me lembro de um que não me sai da memória, foi o longa metragem "A Nau dos Insensatos", onde eu dublei o ator americano Walter Burke, o mesmo ator que eu dublei em um episódio da séria "Viagem ao Fundo do Mar" onde ele fazia dois irmãos gêmeos. Mas a "Nau dos Insensatos" é realmente o que eu guardo na memória.


8 - Você, assim como a Aliomar, participaram do período áureo da AIC, o que representa esse fato para a sua carreira artística até hoje ?


R: A AIC representa pra mim e para a Aliomar o que o grupo escolar representa para todos nós, foi lá que nós fizemos grandes amigos, foi lá que tivemos reconhecimento do nosso trabalho, foi lá que consolidamos nossas carreiras artísticas e ganhamos confiança para seguirmos em frente, e foi lá onde dedicamos uma parte das nossas vidas, trabalhando muito,porque vida de artista não é nada fácil, tem que ralar muito, e nós ralamos, mas estamos felizes e agradecidos por ter vivido a grande fase da AIC.


9 - Desse período, as lembranças são muitas, o que te te traz mais saudades ?


R: Quando se fala de saudade a primeira coisa que vem a lembrança são os amigos , a convivência, as piadas as brincadeiras que rolavam nos momentos de espera, e por falar em espera, dizem que quando um artista diz que tem 40 anos de carreira, ele quer dizer que pelo menos 20 anos foram de espera. Mas vou falar que tenho saudade das pescarias com o Garcia Neto e o Nelsinho Batista, dos papos com o Borges de Barros com o Xandó Batista, do Ézio Ramos e da Gilmara Sanches, do Gilberto Barolli , Hugo de Aquino, Vacari, Arquimedes que reencontrei agora graças ao Orkut, Olney e seu irmão Older Cazarré, Flávio Galvão, Roberto Mendes,Elza Martins, Zé Soares, Noely Mendes, Isaura Gomes, Judy, Gessy Fonseca, Dulcemar Vieira, João Ângelo, João Paulo, Samuel, Marthus Mathias, Ronaldo Baptista, Neville George, Syomara, Sandra Campos, Waldyr Guedes, Astrogildo Filho, Rebello Neto, Bruno Netto, Dênis Carvalho, Osmar Prado, Áurea Maria, Elaine Cristina, Serginho Galvão e muitos outros, que peço perdão por não me lembrar, mas isso é por culpa do excesso de juventude que afeta a memória. E tem também o pessoal da área técinica que eu não posso deixar de citar – Dalete, João Gaião, Edmir, Clark, Egidio, Serginho, Seu Benito, Wander, Dna. Lidia, Tércio, Nestor, Zé Gomes, William, Nezito, Santana e desculpe os que eu não me lembrei do nome mas tenham certeza de tenho suas imagens guardadas na memória. Mas não existe uma saudade, uma lembrança, quando a gente vive momentos felizes tudo é saudade.


10 - Deixe-nos algumas palavras, para os fãs da inesquecível dublagem da AIC, e que admiramos o trabalho de todos numa época ainda com pouca tecnologia, porém com grandes valores artísticos.


R: Eu quero dizer para todos que gostam e admiram a arte da dublagem, especialmente os que tem essa curiosidade sobre a dublagem de um tempo em que a tecnologia estava engatinhando, um país onde a memória não é tratada com o carinho que merece, tem pessoas como o Marco Antonio, que com toda dedicação, se dá ao trabalho árduo de pesquisa sobre a dublagem da AIC, e traz ao conhecimento das novas gerações os grandes nomes da dublagem brasileira.

 Mas isso tudo agora é história, hoje estamos vivendo a era digital onde a evolução tecnológica acontece numa velocidade muito grande,mas uma coisa continua desde o inicio da dublagem, por mais sucesso que faça um filme dublado, com raríssimas exceções, o nome do dublador é citado, por isso eu quero aproveitar e sugerir um movimento dos dubladores, sindicato, estúdios e todos que gostam da dublagem, para que seja obrigatório, o locutor, na apresentação de todos os filmes, dizer o nome do artista e o nome do dublador. A alta qualidade da nossa dublagem exige essa providência já. Beijos e abraços a todos, Silvio Matos

***Agradecemos ao dublador Silvio Matos por este depoimento tão importante para os fãs da AIC***


** VEJAM A ADMIRÁVEL DUBLAGEM DE SÍLVIO MATOS PARA O PERSONAGEM TIO ARTHUR:

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**Marco Antônio dos Santos**