16 de setembro de 2008

1ª ENTREVISTA COM ALIOMAR DE MATOS


1 - Quais caminhos te levaram para a AIC ?

R: Eu dublava no Rio de Janeiro nos estúdios Herbert Richers, Riosom, Peri Filmes até meados de 1967 quando Wolner Camargo que era radioator da antiga Rádio Clube do Rio de Janeiro onde eu trabalhava como radioatriz também, o Wolner era tambem dublador, e se transferiu para São Paulo como diretor geral dos estúdios de dublagem da AIC. Nessa época a convite dele mudei pra São Paulo e entrei para o elenco de dubladores da AIC em 1967 tendo trabalhado ininterruptamente até 1983, depois continuei dublando mas não tão assiduamente. Na AIC, passei esse período maravilhoso da minha carreira, convivendo com os grandes artistas da dublagem, a maioria deles vindo do Rádio -Teatro que era a grande escola da época, e a AIC era o grande celeiro de artistas dubladores do Brasil.

2 - Você substituiu Maria Cristina Camargo, dublando Penny em Perdidos no Espaço, como era dublar ao lado do saudoso Borges de Barros ?

R: Foi exatamente quando cheguei a S. Paulo, a Cristina era filha do Wolner e eu fui substituí-la na série Perdidos no Espaço - eu só não me lembro qual foi o motivo da substituição, se não me engano foi por causa dos estudos da Cristina. O Borges de Barros foi meu primeiro colega paulista com quem trabalhei, O Borges além de ser um extraordinário ator era um grande amigo, aliás, como todos os outros com quem tive a oportunidade de trabalhar na AIC. Acho que tive a sorte de participar dos melhores anos da dublagem na AIC, e a felicidade de conviver e dividir o microfone com maravilhosos companheiros.

3 - Em Os Flintstones, você teve uma ótima performace, dublando Beth e Pedrita. Você utilizou algum recurso diferente? Foi Older Cazarré que te orientou ?

R: O Older Cazarré, meu querido e saudoso amigo era grande dublador e tambem ótimo diretor, era irmão do também saudoso e queridíssimo Olney Cazarré, que era mais novo, e por isso todo mundo chamava o Older de " Cazarré velho", mas ele não ligava não. Quanto a minha voz, eu sempre tive uma voz com um timbre muito jovem, por isso eu não precisava fazer grandes malabarismos com ela, para fazer personagens que iam desde crianças até as mocinhas, que naquela época eram chamadas de "ingênuas". Por isso, por ter essa voz jovem, na série dos Flintstones eu dublei a Pedrita desde de bebezinha até a adolescência.


** BAM-BAM E PEDRITA: PRODUÇÃO DE HANNA BARBERA (1971/1972)



4 - Você teve diversas participações na AIC, entretanto, os fãs marcaram três: Penny, Beth e a irmã Betrille de A Noviça Voadora. Qual desses personagens te deixou saudade ? Houve um outro não mencionado ?

R: A Pedrita, quando mocinha me deu muito prazer em dublá-la, pois fazia junto com o Bam-Bam, que era o meu querido e tambem saudoso amigo Marcelo Gastaldi quem dublava, e que tambem foi meu par na série " A Noviça Voadora", onde eu dublava a maravilhosa Irmã Bertrille, a freirinha que voava, de quem até hoje sinto uma grande saudade, acho que foi meu melhor trabalho em dublagem.

** IRMÃ BERTRILLE: PERSONAGEM INESQUECÍVEL DE A NOVIÇA VOADORA



5 - A inesquecível Helena Samara, certa vez declarou que na AIC quando se dublava uma série ou um desenho, "era como se houvesse uma reunião de amigos ou até de familiares".

R: E era mesmo, por isso que eu disse que peguei os melhores anos da dublagem na AIC, éramos todos amigos, mesmo porque passávamos quase que 24 horas na AIC, que tinha uma produção enorme com quatro estúdios funcionando dia e noite. Isso fazia com que os dubladores passassem mais tempo com os colegas, do que com as próprias famílias. Como eu morava numa casa colada a AIC, esse espírito famíliar era muito forte, era tão forte que parecia que minha casa era uma extensão do estúdio, pois a qualquer hora, quando precisavam de alguém para dublar, gritavam da janela do estúdio, " Aliomarrrr " dá uma chegadinha aqui!!! e quando precisavam de homem gritavam " Silllllvvvvviiiiooo " , só por isso você pode perceber que o nosso sentimento de que fazíamos parte da família da AIC era verdade.

6 - Hoje, na dublagem individual, isso não ocorre. Houve o ganho tecnológico, porém uma perda em que sentido?

R: Se por um lado a tecnologia trouxe um grande avanço técnico, no que diz respeito a captação do som, e da finalização tanto da imagem como sonora, acho que na parte artística houve uma perda , a partir do momento em que o artísta não contracena mais com os companheiros, e isso reflete diretamente no que é fundamental na arte de representar, a emoção. Como você pode sentir emoção diante de um microfone e contracenando com um frio monitor de TV? Eu me sinto como um robô, e ai me dá uma saudade do tempo em que nos apertavamos, às vezes até seis pessoas, no mesmo microfone, mas todos com a emoção à flor da pele, os olhos fixos numa "tela de cinema" cada um concentrado em sua fala e assim deixava fluir toda a emoção que a cena exigia. Ah! que saudade daquela dublagem, e dos colegas que já se foram para o estúdio do céu.

7 - Dublar o garoto Barry em Terra de Gigantes exigiu mais dedicação em termos vocais ?

R: Exigia um pouco mais de técnica vocal, era um pouco mais dificil, porque além de ser criança, era um menino, mas como menino e menina naquela idade, as vozes são meio parecidas, o que eu fazia era impostar um pouco a voz e o resto era só na interpretação, que aí sim, há uma grande diferença entre menino e menina.

8 - Do que você sente mais saudades do período áureo da AIC ?

R: Na verdade o que fica na lembrança, e isso vale para tudo o que a gente faz na vida, são as amizades, o coleguismo a consciência de que fez um trabalho honesto e profissional, agora saudades eu sinto do ambiente de trabalho da AIC, dos queridos amigos que dividíamos alegrias e ansiedades quando chegava uma nova série. Enfim, eu sinto mesmo é saudade do "meu" período áureo, que foi quando por 17 anos dublei na AIC.

9 - Como é o trabalho profissional que você desenvolve atualmente ?

R: Hoje não trabalho mais, profissionalmente, o que eu gostaria de fazer não existe mais, o radioteatro, que foi onde eu comecei com oito anos de idade na Rádio Tupi do Rio de Janeiro, e trabalhei até 1960, quando saí para fazer teatro com a Cia. de Comédias do Procópio Ferreira. Hoje vivo no Rio de Janeiro, onde participo de várias atividades para a terceira idade, mas todas relacionadas com a área artística.

10 - Deixe uma mensagem para os milhares de fãs que você tem, principalmente porque até hoje assistem Agente 86, Perdidos no Espaço, Os Flintstones, etc...., e , felizmente ainda conservam o teu trabalho e de outros profissionais.

R: Gostaria de agradecer a todos que de uma forma ou de outra valorizam o meu trabalho, principalmente a você Marco Antonio por esse carinho enorme para com os dubladores, essas pessoas abnegadas que dão voz aos grandes artistas internacionais, mas que ficam escondidos no anonimato, mas que por amor a profissão continuam na luta colocando a dublagem brasileira entre as melhores do mundo, se não a melhor na minha opinião. Mais uma vez obrigada a você Marco Antonio, que eu espero um dia conhecer pessoalmente para dizer que lhe quero muito bem, pois são pessoas como você que fazem a história acontecer, por essa dedicação e empenho em resgatar a memória d
a dublagem, as futuras gerações irão agradecer.
Muito obrigada, e a todos o meu beijo com muito carinho!


Revendo a excelente dublagem de Aliomar de Matos

**Seu personagem de maior sucesso: Irmã Betrilli na série A Noviça Voadora**

video


****Agradecemos de coração a Aliomar de Matos por este depoimento tão repleto de emoção!**




**Marco Antônio dos Santos**