7 de setembro de 2018

UNIVERSO AIC: 10 ANOS !



*A Importância da AIC para a Dublagem Brasileira*


“Versão Brasileira A.I.C. São Paulo” – este texto não poderia começar de outra forma senão essa. Basta ouvir essa frase que milhares de brasileiros, sem exagero, são remetidos a um saudoso passado, povoado e tomado por séries, filmes e desenhos magistralmente dublados no português brasileiro por um antigo estúdio localizado na maior cidade das Américas.

Brasil, anos 1960. Ditadura Militar. Migração populacional do campo para as cidades, crescimento das metrópoles. Período de efervescência tecnológica, política, social e econômica. Televisão crescendo e se destacando no país, ainda em preto-e-branco. Festivais de MPB. Consolidação da telenovela. TV Excelsior arrojada e a todo vapor, TV Tupi e TV Record também se destacando, TV Globo e TV Bandeirantes surgindo… Época de excelentes programações, mesmo com poucos recursos técnicos, e de muitos – e bons! – enlatados. Dramas, westerns, ficção científica, comédias e infantis produzidos em países como Estados Unidos, Inglaterra, França e Itália, desembarcando agora em terras brasileiras… e a maioria desses pesados rolos de filmes sendo descarregados direto nos estúdios de um antigo sobrado localizado na Rua Tibério, Bairro da Lapa, cidade de São Paulo. Um lugar mágico, 
repleto de cor, vida, movimento e salas cheias, funcionando dia e noite.

Trradutores, dubladores, diretores, técnicos e administrativo unidos numa engrenagem pulsante e complexa, fazendo acontecer a arte da dublagem brasileira. Arte em dublagem com qualidade, num ritmo industrial. Seria possível esse casamento?
Sim, foi possível! E assim decorreram-se os anos, num dia a dia intenso em meio a tantas traduções, escalações e correria pelos corredores...


 O tempo passou e hoje percebemos que ele levou embora pessoas geniais e desapareceu com trabalhos primorosos– mas, felizmente, temos aí ainda brilhantes profissionais remanescentes para nos fascinarem com seus depoimentos, além de tantos outros trabalhos deixados que temos o prazer de desfrutar.

É curioso pois a AIC faz parte de um universo, uma dimensão, enraizada em memórias pessoais dos fãs e aficcionados conforme a história de vida de cada um. Podemos dizer que a AIC está para a Dublagem Brasileira como Mozart está para música, como Oscar Niemayer está para a arquitetura, como Machado de Assis está para a literatura brasileira ou como Ticiano está para a pintura. Nesse sentido, o estúdio pode ser considerado uma “entidade”, tamanha sua importância e contribuição. É uma grande referência. O injusto é que a AIC não é reconhecida pela grande mídia e nem tem os holofotes do mundo e da Cultura moderna projetados para si. Está lá no passado, sob uma fina camada de poeira permeada pelo esquecimento da mídia nacional. Mas segue presente no coração e na memória de tantos fãs saudosos, apreciadores de uma dublagem de qualidade.

Nas artes, a história é de quem faz. De quem faz com qualidade e maestria. Na dublagem, a AIC foi o grande celeiro da interpretação com a voz, precursora de tantas técnicas e berço de muitos dos grandes profissionais. Portanto, todos os méritos e reverências sejam dados à Arte Industrial Cinematográfica, nossa marcante e saudosa AIC São Paulo.

          (Texto de autoria de Thiago Moraes)






**DEPOIMENTO SOBRE O UNIVERSO AIC**



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**Blog AIC: 30 anos de Pesquisas**

Como realizar pesquisas do que quase não se tem registros? Como compreender fatos ocorridos nas décadas de 1960 e 1970 envolvendo um extinto estúdio de dublagem, seus profissionais e sua arte deixada – parte dela destruída, perdida ou negligenciada? Como estudar caminhos percorridos por profissionais muitos deles hoje falecidos, produções dubladas das quais não restaram registros, rolos de filmes que se queimaram nos frequentes incêndios em emissoras, já outros tantos perdidos pelas próprias distribuidoras…? Não é tarefa fácil. Esse trabalho arqueológico é realizado pelo Professor Marco Antônio dos Santos, que desde 1988 tenta costurar uma história não registrada: a história da AIC São Paulo.

 A labuta foi iniciada numa época de poucos recursos, quando a limitada tecnologia de fins dos anos 1980 e dos anos 1990 permitia no máximo entrevistas realizadas com um gravador e fita K-7, obsoleto nos dias atuais, ou então entrevistas via telefone, com o entrevistador munido de papel e caneta em mãos. Como o tempo é sempre implacável, os anos transcorreram e chegamos ao século XXI onde, com o advento e popularização da Internet, as ferramentas de pesquisa e coleta de dados se tornaram mais modernas: entrevistas e depoimentos são realizados via e-mail, temos as redes sociais para se aproximar pessoas e há mais meios de se buscar e encontrar profissionais dispersos por esse imenso Brasil a fora.

 Mesmo assim, as dificuldades ainda são muitas em se costurar essa imensa colcha de retalhos: muitos integrantes da antiga AIC não estão mais vivos para darem seus depoimentos, ajudando a preencher as lacunas deixadas pelo tempo e reforçadas pela falta de registros. Não existem, pelo menos a conhecimento público, contratos, livros de ponto, tabelas de escalação, documentos relativos à importação dos programas, enfim, um arquivo administrativo físico da própria AIC que poderia servir de material e base de estudo para pesquisadores, sanando assim muitas dúvidas e preenchendo incógnitas. Mesmo com tanto esforço, há ainda hoje dubladores dos quais faltam dados biográficos, datas, informações profissionais… Sobre muitos, pouco se sabe. Sobre outros, temos informações cedidas por familiares e parentes. Sobre mais outros, nem isso.
 Muitas vezes, não há nem mesmo uma fotografia, uma imagem.

 Esse fato nos desperta um misto de indignação e tristeza, pois tratam-se de profissionais pioneiros, com imensa qualidade e dom artístico, que se empenharam na realização de divinos trabalhos dando a voz e a alma brasileira a tantas séries, filmes e desenhos animados que povoam o imaginário e a memória afetiva de algumas gerações.

Depois de 20 anos de pesquisas, em setembro de 2008, o Professor Marco Antônio resolveu que era hora de expor e compartilhar o vasto conteúdo por meio de uma página na Internet reunindo assim fãs e, desde então, vem mantendo e atualizando o Blog Universo AIC. Com o frisson das redes sociais, houve paralelamente uma página no extinto Orkut, transformada hoje em um movimentado grupo do Facebook. Nesses últimos 10 anos, o trabalho minucioso continuou e ganhou mais força com a rede mundial de computadores.

 As dificuldades estão sempre a surgir, mas são recompensadas pelas descobertas e pelos avanços, frutos de um trabalho desprendido, sem qualquer interesse, vantagem pessoal ou financeira que conta também com a colaboração de vários fãs e aficionados pelo mundo da dublagem.


 A história da AIC é um livro aberto, infinito, com capítulos reescritos artesanalmente ao custo da paixão pela arte da dublagem, paciência, cuidado e respeito à memória. Um trabalho sempre carente de contribuições! Avante! A reconstituição desse espetáculo não pode parar.

(texto de autoria de Thiago Moraes)



** AGRADECIMENTOS **


Este blog só existe pelas informações que diversos dubladores da AIC se predispuseram a fornecer de maneira generosa, pessoalmente ou pela internet.

Aqui, todos sem exceção, ajudaram a elucidar fatos, reconstruiram o papel que mereceram dentro da história da AIC e da dublagem brasileira.

Agradeço a Deus por ainda ter conhecido profissionais de extrema magnitude, os quais não estão mais conosco, mas que, sem dúvida, formamos uma ligação fraterna, assim como aqueles que conheci através da internet.
No passado, ouvia e admirava apenas as suas vozes, hoje os admiro também pelos seres humanos que são.

Ainda na fase embrionária do Orkut, outras pessoas admiradoras das dublagens da AIC, foram se unindo com o mesmo objetivo e, ao longo dos anos, formamos uma amizade que, sem os seus auxílios prestimosos, este blog não teria todo este conteúdo.

Portanto, o blog Universo AIC é o resultado de um trabalho feito em equipe. 

A todos, muito obrigado !


**Agradecimento especial: Izaías Correia, Roberto Marquis,

 Lohan Menezes e Thiago Moraes.


**Marco Antônio dos Santos**