26 de maio de 2016

RELÍQUIAS DA DUBLAGEM (08): PLANETA DOS MACACOS


Baseado no livro "La Planète des Singes" do francês Pierre Boulle, estreava em agosto de 1968 nos cinemas o filme "Planet of the Apes" (Planeta dos Macacos no Brasil). Protagonizado por Charlton Heston, o filme foi um sucesso total, tanto de bilheteria quanto de crítica, e as inevitáveis (e fracas) continuações vieram nos anos posteriores. Porém o que pouca gente se lembra, é que após essas continuações, no ano de 1974, a rede de TV americana CBS produziu uma série com o mesmo nome.


A série "Planeta dos Macacos" estreou em 1974 como sendo uma continuação direta dos 5 filmes que haviam sido exibidos entre 68 e 73. O tema central trazia de volta um futuro distópico onde a humanidade praticamente se destruiu através da guerra nuclear e os macacos, nesse vácuo de civilização, evoluíram e se tornaram a sociedade dominante no planeta. Diferentemente dos filmes onde os poucos humanos sobreviventes estão tão involuídos que sequer falam, os da série até possuem uma pequena sociedade que sobrevive à sombra da dos macacos.

 Humanos vivem para servir os símios, muitas vezes até escravizados por eles, mas não são meramente irracionais. Sãos pessoas que desenvolvem habilidades primitivas como agricultura e criação de animais, e que se comunicam através da fala. Porém sempre sob o julgo dos macacos que são claramente superiores tanto tecnologicamente quanto intelectualmente.

Os macacos por sua vez são apresentados divididos em três classes distintas: Os pacíficos chimpanzés que representam, a maioria da população, os truculentos gorilas que desempenham o papel militar e de segurança da sociedade símia, e por fim os orangotangos, claramente os mais inteligentes e que ocupam o lugar de cientistas, guardiões da sabedoria e governantes de fato.


Alan Virdon, Peter Burke e o chimpanzé Galen, o trio protagonista da série.
É nesse cenário que chegam vindos do passado os dois protagonistas humanos: Alan Virdon (Ron Harper) e Peter Burke (James Naughton), astronautas que chegam em uma espaçonave à procura de seus compatriotas que haviam desaparecido nos filmes. A princípio, como os protagonistas dos longas, a dupla acha que está em outro planeta, mas logo descobrem que estão no futuro da própria Terra e que seus companheiros estão mortos. Aliados a um chimpanzé chamado Galen (Roddy MacDowall) passam a procurar por uma maneira de voltar ao passado ao mesmo tempo que fogem da polícia secreta dos gorilas que querem capturá-los e matá-los.

Virdon é o grande herói da história. O humano de boa índole e princípios morais que aceita o companheiro chimpanzé sem preconceitos e está sempre disposto a ajudar a todos que encontra pelo caminho independente de que espécie sejam. Também é o personagem atormentado que não desiste jamais de encontrar uma forma de voltar ao lar.


Burke é o alívio cômico. É quem faz piadas e leva tudo na brincadeira. Também é o mulherengo da dupla que desperta a paixão das humanas por onde passa com sua simpatia contagiante.

Porém, é Galen quem se sobressaí. O ator já havia interpretado dois chimpanzés nos filmes da franquia, Cornélius e seu filho César, e já estava acostumado com a indumentária e principalmente com a pesada maquiagem utilizada na produção do personagem. Galen é um símio que acaba por se tornar um pária dentro de sua própria sociedade por ajudar os humanos forasteiros. Ele questiona o próprio mundo onde vive e o fato de os orangotangos reterem informações importantes sobre a evolução dos macacos e sobre a existência e colapso da sociedade humana no passado.

Zaius

Entre os principais coadjuvantes, Booth Coleman interpreta o dr. Zaius, o grande líder e cientista da sociedade dos macacos. Zaius sabe da existência de uma sociedade humana altamente desenvolvida no planeta que se destruiu no passado. Contudo esconde tudo dos demais pois sabe que a atual supremacia símia se deve à crença de que os humanos sempre foram uma sub-raça inferior a dos macacos. Ele entende que de posse de tal informação, humanos servis podem se rebelar e uma guerra entre macacos e humanos poderia ser debelada. Por isso teme os forasteiros que conhecem tecnologias superiores e representam um possível renascimento da gloriosa sociedade humana do passado e fará de tudo para destruí-los.

Urko

O general Urko, interpretado por Mark Lenard, é o líder militar do exército de gorilas da sociedade símia.  Seus homens formam uma espécie de polícia secreta, truculenta e preconceituosa e que visa o total controle e escravização dos humanos. Sua natureza violenta e homicida só é refreada  por Zaius e sua inteligência e sabedoria. Fica claro na história que se não fosse pelo orangotango, Urko provavelmente já teria exterminado todos os humanos. É Urko quem persegue incessantemente, a mando de Zaius, o trio de protagonistas a cada episódio, sendo sempre ludibriado por eles que são cientes de sua pouca inteligência.

A Série e seu Final Prematuro

A série começou bem, com boa audiência, bons cenários e maquiagem esplendorosa, que realmente passava a sensação de reais expressões faciais e emoções nos macacos. Mas logo caiu na mesmice e perdeu público. Em quase todo o episódio um dos protagonistas era capturado pelos gorilas e cabia aos outros dois a missão de salvá-lo. Os três estavam sempre vagando sem rumo e encontrando humanos a quem sempre ajudavam, quase esquecendo o objetivo principal que era achar um meio de voltar para seu próprio tempo.

 Além disso, os roteiristas acabaram introduzindo uma série de inverossimilhanças que incomodavam o espectador, como por exemplo o fato de, cúmulo do absurdo, os humanos invariavelmente vencerem os gorilas em confrontos corporais. Para piorar a situação o custo de cada episódio era proibitivo, cerca de 250 mil dólares, devido ao alto custo dos equipamentos e das maquiagens que além de demandarem uma equipe de maquiadores três vezes maior dos que as habituais em séries televisivas, ainda eram motivo de reclamações constantes por parte dos atores devido a seu peso, tempo despendido para a confecção e sensação de calor e abafamento que causavam.


O horário em que era exibida também não ajudava (20h. de sexta- feira), e nos estertores finais a produção executiva ainda tentou contratar como editores de roteiro a dupla Ken Ruby e Joe Spears, especialistas em programas infantis, na esperança de atrair um público mais jovem. Não conseguiram e ainda contribuíram mais para a perda do público mais velho. Diante disso tudo, a série foi encerrada com apenas 14 episódios e sem um final para a história.

 No último episódio exibido em 20 de dezembro de 1974, o trio de protagonistas estava na mesma situação que se encontravam no piloto, perdidos em um mundo selvagem e sendo perseguidos pelas forças militares de uma sociedade que os teme pelo que representam: esperança para a raça humana.

**A SÉRIE NO BRASIL**

Planeta dos Macacos estreou no Brasil em janeiro de 1976 através da Rede Globo. O fato da série ter somente 14 episódios, foi perfeito para a emissora exibir em seu período de férias, às segundas-feiras, após a novela.

Ao contrário do que ocorrera nos Estados Unidos, a série teve uma boa audiência no Brasil e logo conquistou seus seguidores.
Mesmo após o término da sua exibição, a série continuou em poder da Rede Globo que a reprisou durante as madrugadas de sábado entre 1979/80 e, retornando, agora esporadicamente, entre 1984/85.

Planeta dos Macacos foi exibido também na TV Guaíba de Porto Alegre entre 1987/88 e também pelo SBT,no início da década de 1990, de forma muito irregular com diversas alterações nas exibições de dias e horários. A série chegou a ser exibida aos domingos às 7h da manhã.

**A DUBLAGEM DE O PLANETA DOS MACACOS**


*Rodney Gomes*

Uma dublagem que reuniu diversas vozes do melhor quilate carioca em meados da década de 1970. O estúdio Tecnisom foi altamente primoroso na escolha dos dubladores fixos e também para os convidados, além de uma direção de dublagem impecável.
Nota-se este fato ao assistirmos aos 14 episódios, há uma harmonia, um conjunto, um equilíbrio extraordinário na dublagem realizada, sobretudo na interpretação.


*Antônio Patiño*


*Ioney Silva*

*ELENCO FIXO / DUBLADORES*

*Roddy McDowall como Galen / RODNEY GOMES *
*Ron Harper como Alan Virdon / ANTÔNIO PATIÑO*
*James Naughton como Peter J. Burke / IONEY SILVA*
*Mark Lenard como General Urko / MÍLTON LUÍS*
*Booth Colman como Conselheiro Zaius / PIETRO MÁRIO*


*Mílton Luís*


*Pietro Mário*

Entre os diversos dubladores para os atores convidados há a presença de Diana Morel, José Santana, Magalhães Graça, Pádua Moreira, Thelmo de Avelar, Gualter de França, Isaac Bardavid, Miguel Rosenberg, Ruth Shelsek, Ênio Santos, Maurício Barroso, Ida Gomes, entre muitos outros.

Uma obra perfeita da dublagem brasileira, realizada em 1975, que merece os nossos aplausos!


*VAMOS REVER 2 TRECHOS DE O PLANETA DOS MACACOS*


**EPISÓDIO: O LOGRO**
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**EPISÓDIO: O INTERROGATÓRIO**
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**Marco Antônio dos Santos**

22 de abril de 2016

MEMÓRIA AIC (26): OS CAMPEÕES



Os Campeões era uma série inglesa que misturava ficção e espionagem, que tem início quando três agentes Craig Stirling, William Gaunt e a belíssima Sharon Macready, que trabalham para as Nações Unidos, dentro de uma organização conhecida por "Nemesis", situado em Geneva.

Durante uma missão, o avião em que ele estavam acabam caindo nas  montanhas geladas do Himalaia, mas são salvos por um misterioso povo que vivia secretamente nas montanhas., que além de salvar suas vidas também transmitem a eles alguns poderes muito especiais como poderes telepáticos, muita força física e um boa memória. Ao retornarem novamente a sede da organização os três passam a receber as ordens por um sujeito denominado Tremayne, que os enviam a diversas missões.

Geralmente seus vilões usuais são os regimes fascistas na América do Sul, neo-nazista ou chineses. A série foi apresentada originalmente na Inglaterra, pela ITV, entre 1968 a 1969, apenas com uma temporada, num total de 30 episódios. 


"Os Campeões" misturava ficção com aventuras de espionagem. O motivo é óbvio: com o gênero "espionagem" francamente esgotado no final da década de 1960, os criadores Monty Berman e Dennis Spooner resolveram adicionar à velha fórmula um "algo mais". Esse novo ingrediente foi a pura ficção de termos heróis espiões com poderes telepáticos, alto nível de memória e até força sobre-humana.

Ao contrário de outras séries sobre espiões - onde o herói atua sozinho ou o que se tinha no máximo era uma dupla de heróis - "Os Campeões" tem como enfoque as aventuras de três agentes britânicos - dois homens e uma bela mulher.

Desconsiderando o fator "ficção", temos uma temática básica idêntica a de várias outras séries e/ou filmes que narram tramas de espionagem; quer seja para a tv, quer seja para o cinema.

 Mesmo assim, "Os Campeões" teve ótima audiência na Inglaterra e isso animou os produtores a tentarem produzir uma segunda temporada. Tudo dependeria de como o programa se comportaria no exterior. Infelizmente, foi justamente nos Estados Unidos que os índices não corresponderam e esse acabou sendo o fator determinante do cancelamento da série.
 

"Os Campeões" foi exibido originalmente no Brasil pela TV Record Canal 7 de SP. Seu lançamento ocorreu em 04 de Fevereiro de 1969, sendo transmitido com regularidade as terças-feiras, 22h. Mesmo sem ser um grande sucesso, a série possuía adeptos e existem pessoas que lembram dela até hoje.

Sabe-se ainda que os episódios 1 e 18 foram transformados num longa-metragem que se chamou "A Lenda dos Campeões". Não temos a informação se foi exibido nos cinemas, mas é fato ter sido exibido com regularidade no canal pago TNT.

A série foi produzida originalmente a cores, mas foi exibida em película branco e preto no Brasil, tendo em vista que na época de seu lançamento ainda não contávamos com o advento da tv colorida. Pouco se sabe a respeito de reprises nos anos posteriores.

 Ainda foi reprisada pela extinta TV Tupi de São Paulo algum tempo antes de seu fechamento (a emissora na ocasião já dispunha de cópias coloridas para transmissão). O mesmo ocorreu na cidade de Curitiba, no Estado do Paraná, no ano de 1978 (na ocasião foram utilizadas para transmissão películas coloridas de 16 mm).


**A DUBLAGEM DA AIC**


*ELENCO DE DUBLADORES FIXOS*


*Stuard Damon (Craig Sterling): Hugo de Aquino Júnior.
*William Gaunt  (Richard Barrett): Olney Cazarré.
*Alexandra Bastedo  (Sharron Macready): Helena Samara.
*Anthony Nicholls  (Tremayne): Carlos Campanile.
*Narração da abertura: Carlos Alberto Vaccari.


Distribuída pela ITC, assim como as demais séries inglesas: Thunderbirds, Stingray, Capitão Escarlate, Joe 90, O Prisioneiro e outras, a ITC era uma distribuidora que não possuía o potencial das americanas e, em muitos países, necessitou de um suporte de outra distribuidora para entrar no mercado televisivo.

Infelizmente, no Brasil, novamente encontramos a extinta Brás Continental, que ficou responsável em distribuir as produções inglesas da década de 1960.
O resultado disso é conhecido. Todas essas séries ficaram sem a sua dublagem original, uma vez que a Brás Continental fechou as portas por volta de 1984/85.

Como resultado, hoje encontramos resquícios de alguns episódios telecinados (em preto e branco), que alguns colecionadores conseguiram salvar.

Mais uma vez, o trabalho artístico brasileiro atirado numa "lata de lixo", como não houvesse nenhum valor !!



Helena Samara me confidenciou que iniciou a dublagem de Os Campeões, logo após saber que a atriz Barbara Bain havia saído da série Missão Impossível. Sendo assim, ficou feliz que continuaria com mais uma personagem fixa em série (algo economicamente importante para a época).

Carlos Campanile ao dublar um personagem mais velho (o chefe Tremayne), imprimiu um tom mais carregado à voz. Segundo consta, ele acreditava que outro dublador deveria fazer o personagem, mas José Soares categoricamente acreditava que a qualidade da sua dublagem seria o ideal.

Além de Olney Cazarré dublando o ator William Gaunt, o dublador Hugo de Aquino Júnior fora escolhido para dublar o ator Stuart Damon, que, de certa forma era o personagem principal.
Hugo de Aquino Júnior era muito escalado para vilões e homens truculentos, mas aqui deu uma grande demonstração da qualidade em dublar um agente inglês.

Infelizmente, quase nada restou desta dublagem e que ficou muito na memória dos que assistiram nos anos 60 (ainda em preto e branco) e no final dos anos 70 (já com cópias coloridas).

Mais um grande trabalho da AIC que ficou perdido pelo descaso !!!



**TRECHO DE OS CAMPEÕES COM A DUBLAGEM AIC**

OBS> Temos apenas o início do episódio com a narração de Carlos Alberto Vaccari.
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**Marco Antônio dos Santos**

24 de março de 2016

A DUBLAGEM DO FILME "O ÚLTIMO PÔR-DO-SOL"

Ainda sob pseudônimos, são de Dalton Trumbo os roteiros dos faroestes “Como Nasce um Bravo” (Cowboy), de Delmer Daves, com Glenn Ford; “O Caçador de Fronteira” (The Deerslayer), de Kurt Neumann, com Lex Barker; “Reinado de Terror” (Terror in a Texas Town), de Joseph Lewis, com Sterling Hayden. Kirk Douglas se tornara um dos homens mais poderosos do cinema norte-americano e encomendou novo roteiro a Trumbo, desta vez baseado na história “Sundown at Crazy Horse”, de autoria de Howard Rigsby, um faroeste que se chamou “O Último Pôr-do-Sol” (The Last Sunset).


 O filme de Robert Aldrich conta a história de Brendan O’Malley (Kirk Douglas), personagem estranho que se dirige para o México para reencontrar Belle (Dorothy Malone), mulher com quem teve um relacionamento há quase 20 anos. Belle agora é esposa do rancheiro- pecuarista John Beckenridge (Joseph Cotten), padrasto de Melissa (Missy), filha de Belle. O solitário O’Malley é seguido por Dana Stribling (Rock Hudson), xerife de uma cidade texana que quer prendê-lo por haver assassinado o cunhado de Stribling.

 O’Malley tenta se envolver com Belle e para isso pede o consentimento do marido dela, John Beckenridge, mas é rejeitado por Belle. Stribling e O’Malley são contratados por Beckenridge para levar seu gado até o Texas. A prisão de O’Malley é então adiada por Stribling. John Beckenridge é morto numa discussão numa cantina no México e Stribling acaba se apaixonando por Belle. Por sua vez, Melissa se apaixona por O’Malley, envolvendo-se com ele. Desesperada Belle conta a O’Malley que Melissa é sua filha e que a relação deles é incestuosa. Após o gado ser levado a seu destino O’Malley se defronta com Stribling num duelo suicida.



Vladimir Nabokov havia chocado o mundo com seu romance “Lolita”, lançado em Francês em 1955 e com versão autorizada para o Inglês somente em 1958. Nabokov mudou o universo da Literatura e certamente influenciou outros autores. O romance de Nabokov somente chegaria ao cinema em 1962 pelas mãos de Stanley Kubrik, abordando o tema da pedofilia. Antes disso, porém, Dalton Trumbo passou perto dessa questão com o personagem ‘Missy’, de apenas 16 anos e pela primeira vez abordou num faroeste o tema de incesto.

 Mas não é isso que faz de “O Último Pôr-do-Sol” um dos mais extraordinários roteiros já escritos para um western. Além dessa delicada questão o roteiro de Trumbo é um tenso melodrama digno daqueles que Douglas Sirk dirigiu para a Universal Pictures tendo Rock Hudson como ator principal. Mesmo com a ação se passando em cenários abertos, os personagens principais (Stribling, Belle, O’Malley e Melissa) parecem viver num ambiente claustrofóbico no qual incessantemente expõem as paixões que afloram, bem como o ciúme e o visceral antagonismo. O’Malley é o centro motivador de todas as reações culminando com a juvenil paixão que desperta em Missy (Melissa) e os momentos que passa com ela. O’Malley, homem, aparentemente sem princípios, é tomado repentinamente de dilacerante arrependimento com a descoberta de ser o pai da jovem. E vê apenas na própria morte a solução da tragédia em que se deixou envolver. Mais até que um sensível melodrama, “O Último Pôr-do-Sol” se aproxima das grandes tragédias gregas como nenhum outro western ainda o havia feito. 


Mesmo que o roteiro de Dalton Trumbo não fosse tão rico em nuances psicológicas, “O Último Pôr-do-Sol” é um belo faroeste, com bom ritmo entremeando os muitos diálogos com ótimas cenas de ação. As sequências de condução do gado durante uma tempestade são excelentemente dirigidas por Aldrich e fotografadas pelo húngaro Ernest Lazlo, assim como o duelo final entre O’Malley e Stribling, com tomadas de diversos ângulos e montagem nervosa que aumenta a emoção. Esses aspectos técnicos emolduram os diálogos brilhantes escritos por Trumbo, especialmente nas falas poético-filosóficas ou cínico-jocosas de O’Malley.

 Kirk Douglas faz praticamente todas suas cenas, dispensando o uso de doublês, exceto na cena em que com animal violência segura um cão que está prestes a avançar sobre ele. E Rock Hudson é dublado em algumas cenas por Chuck Roberson como na sequência em que durante a luta com O’Malley cai sobre uma fogueira ficando com o colete em chamas. O cuidado de Trumbo com o realismo da vida dos cowboys leva o espectador a tomar conhecimento de situações inusitadas nos faroestes como a vaca ter as patas amarradas enquanto é ordenhada por Regis Toomey e Rock Hudson fazendo com que um bezerro recém-nascido adote Carol Linley como sua ‘mãe’. Carol Linley usando pela primeira vez o vestido amarelo que pertenceu a sua mãe e descalça por não haver ali um sapato adequado, enquanto Kirk Douglas canta a bela canção “Pretty Little Girl in the Yellow Dress”, de Dimitri Tiomkin e Ned Washington. 




 Capítulo à parte em “O Último Pôr-do-Sol” é Dorothy Malone, cuja sensualidade foi excepcionalmente aproveitada por Aldrich. Maravilhosa, sedutora e irresistível atriz, Dorothy, aos 35 anos, espalha sua voluptuosidade em cada cena que participa. Dorothy não era uma atriz de grande talento dramático mas é um dos pontos altos deste western. O contraponto quase perfeito à lascividade de Dorothy é a presença angelical de Carol Linley, então com 20 anos durante as filmagens. A melhor interpretação do elenco de “O Último Pôr-do-Sol” ficou por conta de Joseph Cotten, como o amoral marido de Dorothy Malone. Seu desempenho na sequência em que é provocado por dois sulistas numa cantina é antológica dentro de uma carreira repleta de grandes atuações, carreira iniciada 20 anos antes em “Cidadão Kane”.

 “O Último Pôr-do-Sol” é um roteiro de qualidade quase incomparável para um western e ainda assim Aldrich não conseguiu fazer de “O Último Pôr-do-Sol” uma obraprima, mesmo que possa ser considerado um faroeste clássico pela temática complexa e bem desenvolvida. 




**A DUBLAGEM DA AIC**

"O Último Pôr-do-Sol" já foi lançado em dvd, entretanto, mais uma vez a distribuidora o lançou somente legendado.
Em novembro de 2014, a TV Cultura de São Paulo o exibiu com a dublagem original.
Há pequenos trechos que apresentam um pouco de ruído ou "chiado", o que poderia ter sido facilmente restaurado, mas não há interesse das distribuidoras, a fim de obterem o menor custo e o maior lucro.

A dublagem foi realizada entre o final de 1968 e o início de 1969, segundo Dráusio de Oliveira, o qual também dirigiu a dublagem.


João Paulo Ramalho, que já havia dublado o ator Kirk Douglas no filme  Ulisses, absorve totalmente a interpretação do ator e a aprimora extraordinariamente.

Essa sincronia ator/dublador o traria, posteriormente, para a inesquecível dublagem de "Spartacus", já por volta de 1970/71.



Sem dúvida alguma, a voz pausada, a interpretação, nos deixam maravilhados como foi tão bem realizada a dublagem. Ainda é bom lembrar que, a voz de João Paulo Ramalho, possuía um tom perfeito para Kirk Douglas, se adequando melhor do que a voz original do ator para os seus personagens complexos.

Enfim, essa integração tão perfeita é muito comum nas dublagens da AIC que ainda sobreviveram, como de diversos outros estúdios que também já encerraram as suas atividades. 


Dráusio de Oliveira dubla Rock Hudson, que já o havia dublado em outras oportunidades, e aí temos dois fantásticos dubladores em contraponto, conforme os seus personagens.


Dorothy Malone é dublada por Helena Samara, a qual realiza mais um trabalho magnífico para a seu rol de dublagens primorosas.




Beatriz Facker, uma dubladora que não fez muitos trabalhos na AIC, mas que deixou a marca da qualidade, foi a escolhida para dublar a atriz Carol Linley.
Beatriz Facker ficou mais conhecida por dublar a personagem Teresa na série Lancer e alguns desenhos de Walter Lantz, além ainda de pequenas participações nas dublagens de séries do início da década de 1970.

Dona de uma voz bem suave, mas com uma interpretação firme soube caracterizar sensivelmente a personagem e o seu grande conflito amoroso.

Infelizmente, não há fotos desta dubladora e durante meados da década de 1970 retirou-se da dublagem.

Há ainda a presença de Garcia Neto dublando o ator Joseph Cotten e de Antônio de Freitas para o ator Regis Tomey (capataz).

Mais uma extraordinária dublagem realizada pela AIC !!



**TRECHOS DO FILME COM A DUBLAGEM**


*Vídeo 1: ABERTURA NARRADA POR CARLOS ALBERTO VACCARI*
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*Vídeo 2: Helena Samara, Dráusio de Oliveira e João Paulo Ramalho*
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*Vídeo 3: Beatriz Facker e João Paulo Ramalho*
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*Fonte de Pesquisa: "site westernmania"
"arquivo pessoal"

*Colaboração: Luciano Nascimento*



**Marco Antônio dos Santos**