4 de maio de 2015

RELÍQUIAS DA DUBLAGEM (06): "A MALVADA"




A elite do teatro encontra-se reunida, em Nova York, para a cerimônia anual de entrega dos troféus Sarah Siddon aos que se destacaram em suas áreas.  Entre os presentes, encontram-se Addison DeWitt, um conceituado crítico teatral, Karen Richards, esposa do dramaturgo Lloyd Richards, Max Fabian, um produtor de peças teatrais, Margo Channing, uma famosa atriz de meia-idade, e Eve Harrington, a mais jovem atriz que será agraciada com o referido troféu.


Em 'flashbacks', Karen relembra que Eve se aproximou do teatro como uma fã da mega-estrela da Broadway, Margo, não faltando a uma de suas apresentações e esperando sempre para vê-la chegar e sair do teatro.  Na época, Margo estrelava a peça 'Aged in Wood', produzida por Fabian e dirigida por seu namorado, Bill Sampson.



Certa noite, após uma das apresentações, Karen pede à Margo que conheça uma das suas mais ardorosas fãs.  E, assim, Eve conquista a simpatia de Margo, que a leva para sua casa como sua secretária particular.  O que Margo não esperava era que sua protegida, aparentemente inocente, viesse a se mostrar uma pessoa extremamente astuciosa e ambiciosa. 






Birdie, sua camareira de língua ferina, sente o cheiro de problemas no ar e alerta Margo de que Eve não é a pessoa que parece ser.  A simpatia de Margo por Eve vai se transformando, aos poucos, em hostilidade.  Finalmente, ela resolve pedir a Fabian que consiga um trabalho para Eve em seu escritório.

Eve, em seus planos ambiciosos para chegar ao estrelato, resolve usar a influência de Karen.  Esta, simpatizando com a moça, decide criar as condições para colocá-la como substituta de Margo.  Assim, após um final de semana fora de Nova York, Margo perde o trem de volta e não consegue chegar a tempo ao teatro.  Tal fato permite à Eve subir ao palco no lugar de Margo pela primeira vez.  Na manhã seguinte, as manchetes dos jornais destacam a magnífica estréia de Eve, como substituta de Margo.  Em entrevista, Eve critica atrizes de meia-idade que atuam em papéis tipicamente de pessoas mais jovens.  Tais fatos irritam profundamente Margo.  

Em seu apartamento com Karen, Lloyd culpa Addison de estar por trás das ambições de Eve.  Mais tarde, os dois casais (Margo e Bill, e Karen e Lloyd) se encontram para uma celebração especial: o casamento, no dia seguinte, de Bill e Margo.  Margo retira-se das intrigas do palco em favor do seu casamento.

*Bette Davis e Gary Merrill*

Continuando com seus planos maquiavélicos, Eve parte para roubar o marido de Karen, Lloyd, de modo a ter o dramaturgo de maior sucesso da América escrevendo peças especialmente para ela.  

Addison DeWitt percebe claramente as manipulações de Eve.  Assim, desejoso de tê-la como sua amante, o elegante crítico investiga seu passado e decide enfrentá-la.  Num dramático confronto, ele põe abaixo tudo o que ela havia dito ao entrar para o seleto mundo teatral de Nova York, ao afirmar:  "Em primeiro lugar, seu nome não é Eve Harrington e sim, Gertrude Slescynski; seus pais são pobres e não têm notícias suas há três anos;  você recebeu US$ 500 para deixar a cidade, onde trabalhava numa cervejaria, após um rumoroso envolvimento com o seu chefe".  Arrasada, ela concorda com suas pretensões, verificando que se tornou vítima de suas próprias armadilhas.

O filme volta à cerimônia de premiação, onde Eve acaba de receber o troféu Sarah Siddon de melhor atriz.  Depois da cerimônia, Margo a cumprimenta.

Ao regressar para seu apartamento, cansada, Eve encontra, esperando-a, uma bela adolescente chamada Phoebe, presidente de um fã-clube do Brooklyn.  Sua primeira reação é a de chamar a polícia, mas lisonjeada, ela vê, na jovem, a Eve que vivia a seguir Margo...

  
*Marylin Monroe e George Sanders*

"A Malvada" é, sem dúvida, um dos grandes filmes de todos os tempos.  A história é muito boa, o roteiro e a direção de Mankiewicz são excelentes e o elenco é de primeiríssima qualidade.  A música de Alfred Newman também merece destaque.



A interpretação de Bette Davis, como Margo Channing, é considerada pela maioria dos críticos de cinema como uma das melhores de sua carreira.  Anne Baxter, como a obsessiva fã de Margo, está soberba.  A maioria dos outros atores e atrizes também está muito bem, com destaques para George Sanders, Celeste Holm e Thelma Ritter.  Marilyn Monroe, em seu sexto filme, tem um pequeno papel como a Srta. Caswell, uma aspirante à atriz.



Indicado a 14 Oscars, "A Malvada" foi contemplado com seis, entre os quais os de melhor filme, melhor roteiro e melhor direção.




**Anne Baxter**



**A DUBLAGEM DO FILME**


O filme "A Malvada" foi dublado pelo extinto estúdio Dublasom Guanabara e conta com um elenco de vozes brilhantes.
A data desta dublagem é um tanto incerta, mas provavelmente seria em torno de 1967 a 1971.

Naquele período, na dublagem carioca, os grandes clássicos iam para o estúdio CineCastro ou para a Dublasom Guanabara. Evidentemente, não era uma regra estabelecida, mas são poucos os filmes dublados pela TV Cinesom. O estúdio Herbert Richers ainda dublava mais séries e desenhos e pouquíssimos filmes.

A dublagem de Margo Channing foi simplesmente magistral, realizada pela atriz Ida Gomes, a qual se tornou uma referência para outros filmes com Bette Davis.
Ida Gomes foi atriz de Teatro, Cinema e atuou em inúmeras novelas da Rede Globo.

**Ida Gomes (1923-2009)**

A dublagem de Ida Gomes é tão perfeita para esta personagem, que os fãs das antigas dublagens, praticamente, acham "muito estranho" assistir ao filme legendado.
Realmente, uma interpretação à altura da grande atriz Bette Davis, onde não perdemos absolutamente nada da sua atuação, muito pelo contrário, a dublagem é empolgante e envolvente. 

A Malvada, além de possuir esta extraordinária dublagem de Ida Gomes, ainda conta com dubladores excelentes como: Joaquim Luís Motta, Paulo Gonçalves, Nelly Amaral, Ângela Bonatti, Waldir Fiori, Antônio Patiño, Selma Lopes, entre outros. 

No conjunto, a dublagem de A Malvada é perfeita.
Ângela Bonatti, dublando Anne Baxter, nos brinda com um trabalho primoroso, como uma sutil vilã e carregada de "doçura" na interpretação com a voz.


Este trabalho demonstra, claramente, como a nossa dublagem chegou, rapidamente, a ser reconhecida como uma das melhores do mundo.
Infelizmente, são obras de arte que ficaram esquecidas pelas distribuidoras, emissoras abertas e até, na grande maioria das vezes, pela tv a cabo, algo típico no Brasil, além do fato de ser sido produzido em preto e branco.

Todos esses fatores "negativos" privam a muitos brasileiros de poder assistir a mais esta "relíquia da nossa dublagem".


**ELENCO PRINCIPAL / PERSONAGENS / DUBLADORES**


*Bette Davis (Margo Channing): Ida Gomes.
*Anne Baxter (Eve): Ângela Bonatti.
*George Sanders (Addison Dewitt): Paulo Gonçalves.
*Celeste Holm (Karen Richards): Nelly Amaral.
*Gary Merrill (Bill Simpson): Joaquim Luís Motta.
*Hugh Marlowe (Lloyd Richards): Waldir Fiori.
*Gregory Ratoff (Max Fabian): Antônio Patiño.
*Marylin Monroe (srta. Casswell): Juraciara Diácovo.
*Thelma Ritter (Birdie): Selma Lopes.



**VAMOS REVER 3 MOMENTOS DA DUBLAGEM**


**VÍDEO 1: A interpretação fantástica de Ida Gomes.

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**VÍDEO 2: Elenco de vozes perfeito.

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**VÍDEO 3: Ângela Bonatti e Paulo Gonçalves.
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**Fonte de Pesquisa: "Site 70 anos de Cinema"

e Acervo Pessoal.


**Marco Antônio dos Santos**

26 de abril de 2015

A DUBLAGEM DO FILME "O COLECIONADOR"




O filme, baseado no best-seller de John Fowles, conta a história de Freddy (Terence Stamp), o colecionador do título. Rapaz solitário que coleciona borboletas, ele tem uma paixão obsessiva por Miranda (Samantha Eggar). E na tentativa de demonstrar esse amor, simplesmente sequestra a moça e a aprisiona no porão de sua casa.
Obviamente, Freddy não tem sucesso, pois só o sequestro em si será o primeiro de uma série de obstáculos à reciprocidade desejada por ele.



Imaturidade cultivada numa vida sem afetividade (mesmo no trabalho, sua mesa encontrava-se isolada das dos demais “colegas”), cuja única relação desenvolvida foi a de posse (sua coleção de borboletas), e é neste mesmo âmbito que se dá sua relação com Miranda. A concepção mais próxima de reprodução, para Freddy, é a incubação que realiza nas larvas que recebe de um fornecedor: enclausurada no porão da casa de Freddy, a moça vive como mais uma de suas borboletas, desenvolvendo seus desenhos, colorindo o seu “casulo”, sob o afastado olhar de seu “dono”, que apenas a veste e alimenta.

O contato físico entre eles ocorre exclusivamente em função das tentativas de fuga de Miranda, quando Freddy é obrigado a subjugá-la pela força, agarrá-la, abraçá-la, amarrá-la, ou, em dado momento, quando por iniciativa própria, a moça tenta acariciá-lo. Para Freddy são momentos de verdadeira provação, uma afronta à “pureza” que almeja à relação.

“O colecionador” foi o último grande trabalho de Wyler, que ganhou prêmios no Festival de Cannes, inclusive para os dois intérpretes estreantes, e indicado para os Oscars de diretor e atriz (Samantha Eggar). A crítica mundial viu o filme como um desafio do veterano Wyler em seguir a linha do cinema novo mundial. O diretor conseguiu reproduzir o cenário claustrofóbico do original de John Fowles com uma criativa fotografia de dois mestres da especialidade. 




A sua estrutura é hipnótica, um genuíno “page turner”, sem gordura extra.
 A adaptação do diretor William Wyler, pode-se considerar sua última obraprima, emula perfeitamente o senso de perigo iminente nas páginas, com uma interpretação primorosa, rica em nuances de Terence Stamp, em seu primeiro grande papel no Cinema. É impressionante a forma como ele deixa transparecer sutilmente sua fragilidade em sua atitude corporal, constantemente pendendo sua cabeça ao admirar sua presa, exatamente como uma criança que analisa o mundo pela primeira vez.

 Já a atuação de Samantha Eggar, premiada e elogiada pela crítica da época, consegue personificar a força interior da personagem literária. A inteligência emocional da personagem, como exposta na parte do livro em que acompanhamos seu diário, superava em muito a de seu gentil algoz. Esses detalhes não enfraquecem o excelente resultado, um suspense que ainda hoje é tremendamente eficiente, mas que infelizmente é pouco lembrado.



É excelente a forma como a câmera, na cena em que Miranda encara pela primeira vez seu captor, insinua que ele esteja empunhando algum tipo de arma intimidadora, mas que descobrimos ser apenas uma bandeja com a refeição. A metáfora é clara, um amargo estudo sobre diferenças entre classes sociais e suas respectivas “máscaras”, travestido de conto de horror.

Ele sabe que sua borboleta cativa nunca iria sequer olhar para ele em um dia normal, um simples bancário, que era alvo do deboche dos colegas até o dia em que recebeu a visita de uma familiar, avisando que ele havia ganhado o prêmio da loteria. Ele decide aprisionar a jovem estudante, não numa tentativa de impor sua personalidade sobre a dela, mas sim com a ideologia de um legítimo colecionador, procurando amalgamar-se ao objeto de estudo, entendê-lo em suas particularidades.



 Ao querer que ela passe um tempo com ele e acabe gostando de sua companhia, o protagonista busca desesperadamente entender o que o torna tão diferente dela, quais as razões que o fazem ser ignorado enquanto pobre cidadão, mas adulado quando ascende socialmente num golpe de sorte. Analisando profundamente, Miranda é tão doente quanto Frederick, ambos são vítimas de um sistema que segrega, estipulando o que é valoroso e o que pode ser desprezado, utilizando critérios abstratos e questionáveis.


 E o colecionador não se satisfaz com apenas um espécime analisado, continuando sua busca pela perfeição, aperfeiçoando seu plano para seu próximo alvo...



**A DUBLAGEM DA AIC**



Dublado em meados de 1970, O Colecionador reúne, mais uma vez, a dupla Sandra Campos e Dráusio de Oliveira.

Ambos também estiveram juntos, com enorme qualidade, nos filmes: "Cleópatra", "De repente, no último verão" e "Ana dos Mil Dias".

Entretanto, em O Colecionador há uma circunstância que diferencia a dublagem realizada por ambos nas obras citadas: o filme concentra-se em dois personagens e, consequentemente, temos somente a dublagem dos dois dubladores, algo extremamente empolgante devido à forma da interpretação da obra e dos atores.


Sandra Campos talvez tenha tido a melhor dublagem de sua carreira ao ser Cleópatra (Elizabeth Taylor) e Dráusio de Oliveira ao dublar o personagem Freddy (Terence Stamp).


Um personagem que beira a esquizofrenia e até a psicopatia, mostrando diversos desequilíbrios ao transcorrer da trama, com sua voz sempre pausada, mas profundamente aterrorizante leva o telespectador a uma perfeita integração entre ator/dublador, fazendo com que nem possamos imaginar a voz de Terence Stamp.

Dráusio de Oliveira domina o personagem integralmente em todas as suas nuances. 
Simplesmente extraordinário !



Os diálogos são fortemente estruturados entre os dois personagens e a atriz Samantha Eggar, com sua personagem Miranda, acaba sempre se enfraquecendo diante de seu algoz.
Este fato nos mostra uma dublagem de Sandra Campos, que sugere que é apenas mais uma presa nas mãos de Freddy, que nos faz esquecer totalmente a dominadora e arrogante Cleópatra.
A dublagem de Miranda se dá num outro universo, mas sabiamente captado por Sandra Campos.

Um filme com apenas dois dubladores, quase uma peça de teatro filmada, com duas estrelas da AIC que merecem nossos aplausos.


O Colecionador já foi lançado em DVD, no mercado brasileiro, através da Vídeo Arte, mas, infelizmente, apenas legendado.

Em contato com a empresa, fomos informados de que desconheciam a existência da dublagem brasileira. A própria Sony Pictures, detentora dos direitos do filme, alegou que a dublagem brasileira pertence à uma outra distribuidora, mas não "soube" nos dizer a qual pertencia.



Seja por que motivo for, mais uma vez, o público brasileiro é privado de ter uma obra de arte deixada pela AIC.
Segundo consta, O Colecionador teve a sua última exibição dublada, no início da década de 1990, na TV Record.


**TRAILER DO FILME EM INGLÊS**


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**TRECHO INICIAL DO FILME COM A DUBLAGEM**


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**Fonte de Pesquisa: site "Adoro Cinema"


**Marco Antônio dos Santos**

9 de abril de 2015

A DUBLAGEM DO FILME "ARABESQUE"




David Pollock (Gregory Peck) é um professor americano que trabalha na Inglaterra e é também perito em antigos hieróglifos. Lá Hassan Jena (Carl Duering), Primeiro-Ministro de um país do Oriente Médio, o convence a se infiltrar em uma organização comandada por Nejim Beshraavi (Alan Badel), que está envolvido em um complô para matar o Primeiro-Ministro, pois se ele assinar um tratado Beshraavi sofrerá um forte abalo financeiro.

 Aproveitando que Silvester Sloane (John Merivale), um secretário de Beshraavi, já tinha feito contato, Pollock se aproxima de Beshraavi e concorda em decifrar hieróglifos que estão em uma pequena tira de papel por 30 mil dólares. Tira esta que Sloane matou para conseguir de Ragheeb (George Coulouris), um professor de literatura de Oxford.

 Na casa de Beshraavi, Pollock conhece Yasmin Azir (Sophia Loren), a amante de Nejim, que lhe avisa que após traduzir os hieróglifos será morto. Ela o ajuda a fugir, fingindo que está sendo sequestrada e ameaçada de morte por Pollock.
 O auxílio de Yasmin é providencial, mas quando ela parece traí-lo repetidamente ele não sabe dizer para qual lado ela está trabalhando. Paralelamente o tempo vai ficando cada vez mais curto e as possibilidades de Hassan Jena ser morto aumentam.


A grande diferença entre o professor Pollock dos anos 60, de um lado, e o Indiana Jones dos anos 80, é que o primeiro só vira um homem de ação a contragosto, forçado, premido pelas circunstâncias. Se pudesse, Pollock continuaria quietinho com sua rotina de professor em Oxford.
O que o tira da rotina acadêmica e o leva à ação é um papelzinho com uns hieróglifos, uma inscrição em caracteres que, para nós, não letrados na linguagem milenar daquele pedaço confuso do mundo, lembra a antiga escrita egípcia.


Quando a ação começa, o papelzinho está de posse de um colega de Pollock em Oxford, o professor Ragheeb (George Coulouris). Na primeira sequência do filme, o professor Ragheeb é cruelmente assassinado por um bandido chamado Sloane (John Merivale). Sloane trabalha para Beshraavi (Alan Badel), um bilionário, o homem mais rico de um país árabe – um país árabe qualquer, que não será identificado hora alguma. Um país árabe fictício.

 O espectador ficará sabendo ao longo da ação, evidentemente, é um país riquíssimo em petróleo, e paupérrimo em água. O governo tem boas relações com as potências ocidentais, Estados Unidos e Inglaterra, especificamente; seu primeiro-ministro, Hassan Jena (Carl Duering), é considerado por Pollock, um apaixonado pela cultura árabe, como um homem de bem, que quer a paz e boas relações com o Ocidente. Está, no momento da ação, para chegar a Londres em visita de cortesia e bons negócios.




O que torna Arabesque uma obra única, absolutamente diferenciada de todos os demais filmes de Stanley Donen é a fotografia, a escolha do enquadramento da câmera. 

Em nosso dicionário: “Arabesco, s. m. Ornato de origem árabe, no qual se entrelaçam linhas, ramagens, grinaldas, flores, frutos, etc. Rabisco, garatuja.”

Arabesque é um filme de imagens arabescas. Donen, seus roteiristas e seu fotógrafo Christopher Challis conseguem a proeza de encher o filme de planos que parecem arabescos – sem, no entanto, cansar o espectador. É um golpe de mestre, um equilíbrio dificílimo de se conseguir. É uma festa de fogos de artifício – mas ao mesmo tempo os fogos de artifício não distraem o espectador, não tiram a atenção do espectador para a ação, para a trama, para os diálogos.

Diversos planos, dezenas, centenas de planos mostram espelhos, cristais, vidros, com a imagem refletida neles, ou mostrada através deles, num efeito que faz lembrar caleidoscópio, arabesco. É assim na primeira seqüência em que o espectador conhece Yasmin – ela é vista através de cristais.




 Numa tomada numa escadaria, vemos os personagens através dos cristais de um grande candelabro. Numa tomada antes de Yasmin entrar no chuveiro, a vemos segurando um espelho, e o espelho reflete a luz de um candelabro apenas sobre o rosto de Sophia Loren. A longa seqüência de perseguição dentro do Jardim Zoológico de Londres é permeada por tomadas em que há vidros das jaulas separando a câmara dos personagens – até chegar o clímax na área dos aquários. Vidros, vidros e mais vidros.

Para brincar ainda mais com o espectador, haverá, quase ao fim da ação, a sequência numa loja de aparelhos ópticos, microscópios. E a solução do enigma virá logo depois, através de um vidro.




Um monte de imagens de caleidoscópio. De arabescos.


**A DUBLAGEM DA AIC**

Produzido em 1966, Arabesque chegou num pequeno lapso de tempo para a dublagem, se considerarmos como a exibição de um filme de cinema demorava para ir para a televisão.
As pesquisas nos mostram que Arabesque foi dublado entre o fim de 1968 e o início de 1969 e contou com um elenco brilhante de dubladores.

A direção de dublagem foi realizada por José Soares, o qual participa fazendo pequenos personagens, como o professor que recebe ácido em seus olhos, logo no início da trama.

Luis Pini, decididamente, talvez tenha sido uma das vozes mais adequadas para o ator Gregory Peck. Já o havia dublado antes no filme "O Sol é para Todos", num outro estilo, mas sua interpretação é magnífica com toques de humor. 
Outro dublador do mesmo quilate para Gregory Peck foi Líbero Miguel no filme A Profecia I, enfim dois grandes mestres da nossa dublagem.



Líria Marçal parece a dubladora ideal para Sophia Loren, sobretudo em Arabesque, pois é sedutora, sensual, misteriosa e divertida. 
A dubladora conseguia dar todas essas particularidades à sua interpretação.

Aliás, a dupla Líria Marçal e Luís Pini são um espetáculo à parte nesta dublagem, que realçam o roteiro do filme muito instigante, com suspense, aventura e sensualidade.

Há ainda a extraordinária participação de Waldyr Guedes dublando o ator Alan Badel, um vilão que sofre de um certo fetichismo por sapatos femininos, mas profundamente cruel para obter os seus objetivos. 
Sem dúvida, é mais uma impecável dublagem de Waldyr Guedes.

Outro destaque do filme é para Gilberto Baroli, que dubla o Primeiro-Ministro Hassan Jena. Ainda no início de sua carreira, Baroli faz uma dublagem perfeita para um personagem também misterioso. Sua voz pausada, medrosa, mas ao mesmo tempo com um comportamento enigmático.



Há também a presença de Isaura Gomes, José Carlos Guerra, Turíbio Ruiz, Francisco Borges e até Sílvio Navas em início de sua carreira.

Esta dublagem, felizmente, está preservada e pode demonstrar como a AIC executava um trabalho com extrema competência para o público telespectador.


**VAMOS REVER 3 TRECHOS DE ARABESQUE**



**VÍDEO 1**
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**VÍDEO 2**
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**VÍDEO 3**
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**Marco Antônio dos Santos**